Vicariato para Educação, Cultura e Universidades disponibiliza artigo abordando a temática da Filosofia e Teologia na visão tomista

Por: Seminarista Joseque Moysés Barbosa Vilela Borges
Membro do Vicariato para a Educação, cultura e universidades.

 

Filosofia e Teologia na visão tomista

1 Introdução

Na teologia, a verdade é revelada, apresentada ao homem e este tenta compreendê-la com o auxílio da razão. Assim, podemos observar que a fé busca a razão. Na filosofia, o homem, com seus esforços racionais, procura a verdade. A primeira não contradiz a segunda; pelo contrário, complementam-se. Eis uma contribuição importante de Santo Tomás: encarar Deus como uma questão filosófica, como algo que está ao alcance da mente humana.

2 Filosofia e Teologia: relação e distinção

            A partir da máxima de que não há uma só maneira de se manifestar a verdade, concebemos, por meio de Aristóteles (apud AQUINO, 1990, p. 2, v. I), que “é próprio daquele que tem a razão bem ordenada tentar apreender a realidade de cada coisa, enquanto o permitir a natureza desta”.

            Tomás de Aquino constatou que dois são os caminhos para se chegar ao conhecimento de algo: pela luz natural da razão e pela via sobrenatural à razão. A Escolástica tem como uma de suas características principais a reaproximação da fé com a razão (lógica, aristotelismo), a busca do conhecimento do Divino por meio da razão sem abandonar a fé, utilizando seus próprios métodos filosóficos e lógicos.

Cabe questionar aqui se o crente precisa do pensamento filosófico ou da reflexão especulativa racional para compreender a verdade ou descobrir se o dado da fé vivida no cotidiano é meramente suficiente para explicar os principais questionamentos sobre os mistérios da vida e do homem, da realidade e do cosmo. Sobre este tema, Tomás de Aquino nos fala sobre a possibilidade e a necessidade de uma busca gradativa pela verdade:

Assim como nas coisas que são geradas naturalmente, pouco a pouco, se vai do imperfeito até o encontro de sua perfeição, também ocorre com o homem acerca do conhecimento da verdade; pois, num princípio, os homens atingiram pouco conhecimento da verdade, mas depois, quase passo a passo, chegaram a uma medida de verdade mais plena: a partir da qual atingiu a muitos que erraram por causa do imperfeito conhecimento da verdade (AQUINO, 2000, s.p. tradução nossa).

           Na história da humanidade, o homem sempre buscou compreender as motivações e razões de sua existência, bem como responder os questionamentos acerca de sua finitude. Gradativamente, o homem encontra respostas satisfatórias por meio da razão e da busca pelo conhecimento daquilo que é verdadeiro.

             Para o Aquinate, a filosofia e a teologia se complementam e são necessárias uma para outra. A fé pode ser entendida como o ato da razão de acolher, de maneira livre, as verdades reveladas por Deus. Para que haja fé, é necessário que antes seja acolhido pela razão. Como a fé nos chega pelo modo natural do nosso conhecimento, pela inteligência humana e por meio das realidades do dia-dia, então a razão é necessária para a fé. Obviamente, não se trata de um fideísmo.

             Na introdução da obra Suma Teológica, Nicolas (2015, p. 34, v. I) afirma que “[…] a fé é um ato próprio da razão, ou pelo menos do espírito humano”.  Trata-se de uma adesão certa, de uma certeza tamanha que perpassa a razão. Pela fé, é concebível que Deus se fez homem, mas recebê-la é procurar entendê-la, daí a razão. Logo, a fé e a razão não só não podem se opor, como também se relacionam intrinsecamente. Tomás de Aquino (2015, p. 34, v. I), certa vez, afirmou que “o ato de fé não para nas proposições que lhe exprimem o conteúdo, mas, para além delas, visa e atinge a própria realidade”.

              Dito isso, é da natureza do pensamento visar o real. Deus é acessível à nossa racionalidade e se faz presente na própria realidade. Ademais, Bento XVI explica que “[…] a fé cristã possui uma dimensão racional e intelectual, que lhe é essencial. Sem tal dimensão, a fé deixaria de ser ela mesma” (2010).

            Fé e razão não somente são necessárias uma para a outra, como também não podem se contradizer. Concebemos isso porque ambas derivam da mesma fonte de verdade e contradizem-se ao erro. É impossível para a inteligência humana esconder-se daquilo que é próprio dela mesma: questionar-se sobre Deus, a vida, a morte e a origem de tudo. Os questionamentos humanos se fazem presentes onde o homem está e, por isso, ele buscará respondê-los de alguma maneira, seja por meio das mitologias presentes nos clãs e tribos mais longínquas, seja nas religiões tradicionais reveladas, seja por meio do cientificismo positivista do século XX ou dentre tantas outras respostas.

            Logo, não é oposta à razão a capacidade de conhecer algo da natureza de Deus. Constatar a afirmação de que a fé e a razão são contrárias é o mesmo que dizer que Deus não existe, pois Ele mesmo se contradirá, uma vez que Ele mesmo é a fonte da fé e criador da razão.

           Conhecer Deus é próprio da natureza humana. Buscar a verdade é algo que sempre esteve presente no mais íntimo do ser humano, como se partisse de uma capacidade inata, própria da mente humana.

         Segundo Santo Agostinho, somos capazes de Deus. Isto está inerente à natureza humana. Na concepção tomista, a metafisica é responsável por fundamentar racional e sistematicamente o conteúdo da revelação de Deus, e a teologia precisa da razão para compreender aquelas concepções que extrapolam a nossa capacidade de raciocínio.

            O dominicano não pretende fazer uma separação pragmática entre essas duas maneiras de saber. Muito pelo contrário, deseja nos mostrar uma íntima relação entre elas, respeitando suas distinções intrínsecas com uma relação de interdependência.

            Dito isso, é impossível que a verdade da fé seja contrária aos princípios da razão, pois por meio deles a razão a conhece. Isto explica a impossibilidade de existir contradição entre a filosofia e a teologia. “A fé requer que o seu objeto seja compreendido com a ajuda da razão; por sua vez, no apogeu da sua indagação, admite como necessário aquilo que a fé apresenta” (JOÃO PAULO II, 2006, p. 60).

            Se Deus tivesse revelado algo que contradissesse a nossa razão, ficaríamos impedidos de abarcar aquilo que é revelado. Deus não pode infundir conceitos e verdades de fé que se opõem ao conhecimento natural, visto que não há como residir num mesmo sujeito conceitos não naturais.

            Tomás de Aquino (apud MONDIN, 1981, p. 72) comenta que “[…] se se encontra, portanto, alguma coisa contrária à fé nas afirmações dos filósofos, não se deve atribuir isso à filosofia, mas a um mau uso da filosofia devido a alguma falha da razão”.

Logo, o erro não está na filosofia em si, mas no mal uso da razão. Gilson (2001, p. 656) corrobora com isto quando assevera que “[…] nem a razão, quando dela fazemos um uso correto, nem a revelação, pois ela tem Deus por origem, seriam capazes de nos enganar. Ora, o acordo da verdade com a verdade é necessário”. Não obstante, por absurdo, se houvesse uma contradição entre a fé e a razão, ambas seriam vias, o que feriria, então, o princípio de identidade

            A filosofia busca ter conhecimento pelas causas primeiras e universais, apoiada e fundamentada pela luz da razão. A teologia, por seu turno, busca conhecer por meio da luz da fé como um de seus princípios. Ambas tratam do mesmo assunto por perspectivas diferentes. Não se distinguem quanto ao objeto de estudo, pois têm como objetos Deus, o homem e o mundo.

           Para o pensador cristão, cabe ao filósofo tentar compreender o ser das coisas enquanto elas mesmas, estudando suas causas e efeitos. Ele deve buscar conhecer a natureza das coisas; é próprio do método filosófico. O teólogo, por sua vez, considera as coisas por uma ótica extremamente diversa, enxerga como uma manifestação do poder de Deus.

         Por se concentrar em conhecer os princípios da razão, cabe ao filósofo elaborar argumentos que possam contribuir para que este proceda da causa própria das coisas. Ao teólogo, porém, parte da fé, cujo objeto formal é o dado revelado.

          A filosofia e a teologia se distinguem também pela forma segundo a qual estudam os mesmos objetos de estudo, ou seja, se distinguem pelo método de estudo. Cada estudioso trata os questionamentos acerca do objeto de pesquisa de maneira distinta. O filósofo tentará extrair seus argumentos das essências das coisas, de suas causas próprias. O teólogo, por outro lado, parte sempre de Deus.

Metodicamente, a filosofia, porquanto tenha como objeto de estudo as criaturas por si mesmas, não chega refletir sobre Deus se não for por meio delas. Assim, a filosofia começa pelas criaturas e chega até Deus. A teologia segue o caminho inverso, tratando das criaturas a partir da relação que elas têm para com Deus, parte de Deus e chega às criaturas.

            Ambas “são convenientemente propostas por Deus aos homens para serem acreditadas” (AQUINO, 1990, p. 25, v. I). Não há, assim, uma separação entre as duas ordens, há uma distinção.

3 Conclusão

            Estudiosos do pensamento medieval reconhecem que Tomás de Aquino foi o filósofo cristão que melhor soube distinguir e também unir os campos da filosofia e da teologia.

Por isso Tomás buscou demonstrar que, pelo próprio conhecimento natural do homem, de maneira a posteriori, é possível saber que Deus existe. Para tanto, o frade de Roccasecca se apropria do método filosófico e formula uma teoria do conhecimento, postulando como o homem conhece as coisas naturais e sobrenaturais. Daí temos a analogia entis, motivo pelo qual todo sacerdote precisa conhecer a filosofia e teologia, diferentemente dos pastores protestantes que não tem filosofia como pré-requisito para seu ministério.

Na perspectiva tomista, o conceber Deus pela via natural da razão é o ápice do conhecimento humano. É o mais desejado e buscado, de modo que essa busca goza de um caráter antropológico. Não se trata de uma questão epistemológica ou de teoria do conhecimento meramente, mas antropológica. Para Aristóteles, o homem é um ser racional e tem dois princípios inseparáveis: corpo e alma. Tomás de Aquino, fundamentando-se em Aristóteles, fortalece que essa alma é intelectiva, goza de intelecto e só por isso é capaz de ter fé. É impossível separar a fé da razão, muito pelo contrário, a razão é condição necessária para se ter fé. E esta colabora para o bom uso daquela, gerando virtudes.

Isso que explica o fato de tantas civilizações que nunca se encontraram terem fé em alguma entidade, terem uma abertura para uma transcendência, para uma realidade espiritual. O homem, sendo racional, tem fé. Se não tiver fé em Deus, terá fé no nada ou no não-ser, ou em si mesmo. Essa é a nossa natureza.

Referências

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Tradução de Marie Roguet Aimom et al. São Paulo: Loyola, 2015 (v. I e II).

______. Suma contra gentios. Tradução de Odilão Moura, Ludgero Jasper e Luis Alberto de Boni. Porto Alegre: SULINA, EST, UCS, 1990 (V. I e II).

ALARCÓN, Enrique. Corpus Thomisticum. 2000. Disponível em: <https://www.corpusthomisticum.org/>. Acesso em: 03 out 2020

ARISTÓTELES. Metafisica. Tradução de Edson Bini. Bauru, SP: Edipro, 2006.

BENTO XVI. Carta do Papa Bento XVI aos seminaristas. 2010. Disponível em: <http://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/letters/2010/documents/hf_ben-xvi_let_20101018_seminaristi.html>. Acesso em 30 nov 2020.

GILSON, Etienne. A Filosofia na Idade Média. Tradução de Eduardo Brandão. Revisão de Carlos Eduardo Silveira Matos. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Fides et Ratio. 6. ed. São Paulo: Paulinas, 2006.

MARIE, Joseph Nicolas. Introdução à Suma Teológica. Tradução de Henrique C. de Lima Vaz et. al. São Paulo: Loyola, 2015.

MONDIN, Batistta. Curso de Filosofia: Os filósofos do Ocidente. Tradução de Bênoni Lemos. Revisao de João Bosco de Lavor Medeiros. São Paulo: Paulus, 1981 (V. 1).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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