Ver o Ressuscitado

Por: Pe. José Assis Pereira Soares, Vigário Geral

 

O tempo pascal, estes cinquenta dias pascais que estamos celebrando na Sagrada Liturgia é um tempo forte de graça e de vida nova em que a Igreja nos convida a amadurecermos em nossa fé, sintamos mais intimamente nossa pertença à comunidade cristã, e nos comprometamos com a grande missão de testemunharmos nossa fé cristã neste mundo tão hostil.

A notícia: “Cristo ressuscitou!” Mudou radicalmente a História e a vida humana, criou a comunidade com pessoas antes envolvidas pelo medo e pela tristeza; provocou uma mudança radical nos seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré, operando neles a fé na ressurreição, que João em sua primeira carta (cf. 1Jo 5,1-6) anima aos cristãos de todos os tempos a viver esta experiência da ressurreição como um novo nascimento: “Todo o que crê que Jesus é o Cristo, nasceu de Deus… todo o que nasceu de Deus vence o mundo. E esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé…”

Mas, como entendemos nós a ressurreição de Cristo? Estamos acostumados a imaginá-la como uma cena cinematográfica com um destampar do túmulo e o sair de Jesus envolto numa nuvem, liberando-se no ar, segurando um estandarte da vitória na mão, como em alguns quadros o imaginaram os artistas.

Da ressurreição de Cristo não se pode dizer que Ele tornou a viver, porque não se trata da mesma vida de antes, não é uma reanimação cadavérica, Ele começou a viver uma “vida nova”, uma vida “segundo o Espírito” que é a vida no poder de Deus, em sua glória e em sua liberdade. Esta “vida nova” do Ressuscitado nos é dada no Sacramento do Batismo: “Pelo batismo nós fomos sepultados com Cristo na morte para que como Ele foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova.”  (cf. Rm 6,3ss)

O evangelho (cf. Jo 20,19-31) nos dá a chave do que significou o anúncio: “Cristo ressuscitou!” E nos apresenta Jesus no centro, como ponto de referência da comunidade que vive num clima de insegurança e fragilidade. Aquele pequeno grupo de homens e mulheres cheios de medo, inclusive como Tomé, com suas dificuldades em crer no que alguns irmãos e irmãs testemunhavam como algo vivido por eles: “Vimos o Senhor!”

A esta comunidade antes fechada, mergulhada nas trevas de um mundo hostil, Jesus transmite “a paz”, harmonia, serenidade, tranquilidade, confiança e torna possível a “alegria”. Abre caminho à esperança no coração de quem descobre, finalmente, na vida de Cristo, não um percurso de morte e de fracasso, mas o cumprimento de todas as expectativas: o perdão dos pecados, a reconciliação com Deus. Assegura-se, assim, aos discípulos que Ele venceu aquilo que os assustava: a morte e a hostilidade do mundo; e que, doravante, os discípulos não têm qualquer razão para temer. Assim são enviados pela força do Espírito a comunicar a mesma paz e perdão dos pecados que havia comunicado o próprio Ressuscitado através de sua vida, paixão, morte.

Este encontro com Jesus Ressuscitado gera a comunidade. Lucas num sumário sintético, mas intenso, dá-nos uma imagem sugestiva da comunidade das origens (cf. At 4,32-35): ”A multidão dos fieis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava como próprias as coisas que possuía, mas tudo era posto em comum… entre eles ninguém passava necessidade”. A fé em Cristo torna-se concretamente visível na comunhão de vida e sentimentos que os que haviam abraçado a fé viviam no interior da comunidade, mas, sobretudo na prática da caridade e são estes dois aspectos do testemunho dos cristãos que atrai a admiração e a simpatia dos pagãos.

A comunidade cristã é uma comunidade que testemunha o Ressuscitado não simplesmente através de uma bem elaborada doutrina ou ideologia, de um discurso feito de palavras elegantes, discurso bem elaborado capaz de seduzir e de manipular as massas. O testemunho mais impressionante, convincente e credível será precisamente o feito de ações e gestos concretos de comunhão de vida dos discípulos… Daí deriva que a primeira e insubstituível forma de evangelizar é a comunhão, a solidariedade que os cristãos conseguem viver entre si.

A fé cristã se vive na comunidade. A mediação da comunidade é indispensável para uma caminhada de fé autêntica e madura, como é também verdade que é graças à ação do Espírito que se chega ao reconhecimento de Jesus como “Messias e Filho de Deus” (cf. 1Jo 5,15).

O apóstolo Tomé depois de experimentar, na comunidade reunida, o encontro com o Senhor se dá conta e reconhece a divindade de Jesus de Nazaré, na mais bela profissão de fé do Novo Testamento: “Meu Senhor e meu Deus!”

A experiência dos apóstolos, verificada “ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana”, é a que todos os crentes vivem, todas as vezes que se celebra a Eucaristia: o Ressuscitado torna-se presente e vêm ao encontro das pessoas carregadas de tristezas, medos e angústias. A quem anda triste e perdido, o Ressuscitado anuncia a paz e traz a alegria.

A celebração Eucarística é para nós cristãos católicos o lugar privilegiado para o encontro com o Ressuscitado. Este relato evangélico (cf. Jo 20,19-31) não podemos lê-lo como uma narração histórica dos acontecimentos. É uma verdadeira meditação pascal que a comunidade cristã faz no dia em que se reunia para celebrar a Eucaristia. Esta celebração, no dia do Senhor (o domingo), é o lugar privilegiado do encontro com o Ressuscitado para aqueles que “creem sem o terem visto”. E o mesmo Jesus lhes declara felizes, “bem aventurados”.

Esta bem-aventurança esplêndida é uma resposta às preocupações dos cristãos do final do I século que se perguntavam onde apoiar sua fé. E o evangelista lhes recorda que o caminho é o Jesus real e humano. A fé entra assim no campo das bem-aventuranças. Felizes os que se fiam do testemunho em favor de Jesus. Mas esta dinâmica produzirá sempre dificuldades, porque os motivos de credibilidade, de fé, ficam muito curtos ante a realidade à que querem conduzir. Por isso se declara felizes aos que são capazes de superar a precariedade dos motivos de credibilidade e se abrem à ação e presença do Ressuscitado reconhecido ao partilhar o pão em uma comunidade de fé.

Portanto, a Palavra de Deus deste Domingo nos convida a interpelar-nos sobre o modo como vivemos nossa fé. A notícia da Ressurreição nos impulsiona a viver a fé reconhecendo Jesus como nosso Senhor e nosso Deus? E mais, nos ajuda a viver esta fé na comunidade? Temos consciência de nossa pertença a Igreja? Não podemos separar a vivência de nossa fé da pertença à comunidade. Com esta dupla atitude podemos receber, como a primeira comunidade, a paz, a força do Espírito e o envio, para que esta fé seja a que “vence o mundo”.

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