Um olhar de compaixão

Depois de percorrermos liturgicamente o itinerário quaresmal e pascal, retomamos ao tempo litúrgico conhecido como “Tempo Comum” (Ano A), seguindo o evangelista São Mateus. Trata-se de uma longa “caminhada contemplativa” de trinta e quatro domingos, deixando-nos inspirar pelo modo de ser e de agir de Cristo. Estamos na escola do discipulado e do Reino, deixando-nos formar por Jesus, o Mestre de Nazaré: seu estilo de vida, sua forma de viver a relação com o Pai, sua maneira de entender o ser humano, sua relação de proximidade com o outro, seu modo de amar, sua liberdade diante da religião e das tradições do seu tempo e do seu povo, sua atitude e sensibilidade diante das vítimas de um sistema opressor: os pobres, os sofredores e excluídos, os pecadores, impuros e que não conheciam a lei.

O Evangelho deste XI Domingo Comum (cf. Mt 9,36-10,8) nos apresenta o olhar de Jesus que vê a multidão e se comove. Ele não fica aborrecido ou incomodado pelas pessoas. Seu coração intui sua desorientação e o seu abandono: “Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor.” (v. 36) Ao deixar-se impactar pela multidão “cansada e abatida”, Jesus desperta suas entranhas ternas e compassivas. Porque esse é o sentido bíblico da palavra “compaixão”: “o amor das entranhas maternas de Deus”.

Os evangelhos falam da compaixão de Jesus como um estremecimento de suas entranhas, do seu interior, eles expressam algo muito profundo e humano. A compaixão que Jesus sentia era obviamente muito diferente dos sentimentos superficiais de pesar, dó, pena ou de simpatia pela situação do outro.

As entranhas são o lugar onde estão localizadas as nossas emoções mais íntimas e mais intensas. Constituem o centro de onde brota o amor que se dá, a empatia que nos move a sair de nós mesmos para entrar em sintonia com a dor e a miséria do outro. Colocar-se no lugar da outra pessoa.

Jesus é a revelação da compaixão e da misericórdia do Pai, Ele sofre ao ver a distância que há entre o sofrimento dos doentes, excluídos e estigmatizados pela sociedade, e a vida que o Pai quer para todos. Então, põe em marcha um “movimento compassivo”, chamando e enviando discípulos para continuar o mesmo compromisso compassivo do Mestre em anunciar que o “Reino dos céus está próximo”. (v. 7)

Como Jesus reagiu ao ver as multidões os seus discípulos e discípulas devem aprender como tratar as pessoas; as comunidades cristãs, ao longo de sua história, se moveram entre duas atitudes: a insensibilidade diante do sofrimento humano e a compaixão para com as vítimas. Hoje como ontem, o cristianismo só terá credibilidade se se recordar como era Jesus com as pessoas “cansadas e abatidas”, descartadas, perdidas no anonimato, aquelas com as quais ninguém se preocupa, que são “como ovelhas que não têm pastor” e deixar-se afetar pela situação do outro realizando gestos compassivos.

Jesus fixa seu olhar na multidão e de imediato desperta nele a compaixão. Ele sabe olhar não só às pessoas que têm visibilidade social, concretas e próximas, mas as “invisíveis”, a massa de gente formada por homens e mulheres sem rosto, sem voz e sem importância especial, que são apenas um número nas estatísticas. Ele não pode evitar, “teve compaixão”, suas vidas importam, leva-os todos dentro do seu coração, jamais os abandonará. A compaixão é, portanto, o ponto de partida da sua atuação, por isso, dedicou-lhes tempo, atenção e cuidados: “curou os doentes, ressuscitou os mortos, purificou os leprosos, expulsou os demônios”. (v. 8)

Sentindo a dor de seu povo, seu cansaço e abatimento dali brotam as palavras que Jesus dirige aos discípulos: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!” (vv. 37-38) Jesus chama os doze discípulos não para aderir a um mero programa ou nova doutrina, mas faz-lhes o convite ao discipulado, a um seguimento. Para isso, requer-se uma resposta sem reservas, com a marca da compaixão.

Sem compaixão, todo seguimento de Jesus torna-se vazio, burocrático, tedioso e rotineiro. A compaixão é expressão da identidade do ser humano. Na sua essência, a pessoa pode ser definida como ser compassivo. Sem compaixão, não há humanidade, pois predomina a dureza de coração, a indiferença, o fechamento. Enquanto compassivo, o ser humano se sente solidário, próximo tanto diante da situação dos outros seres humanos, vítimas de exclusão e violência, como diante da natureza ferida da nossa “casa comum”. Sem compaixão não há respeito a vida.

A compaixão não é passiva, mas sim altamente ativa; é a capacidade de compartilhar a própria paixão com a paixão do outro. É a empatia, o sair de si mesmo e de seu próprio quadrado e entrar no universo do outro enquanto outro, para sofrer com ele, para cuidar dele, para alegrar-se com ele e caminhar junto a ele, e para construir uma vida em comunhão e solidariedade. Essa deverá ser uma das atitudes que marcará nosso novo jeito de ser no pós isolamento social, no pós pandemia.

Às notas tradicionais aplicadas à Igreja: una, santa, católica, apostólica, poderíamos acrescentar compassiva. Não parece evangélica uma Igreja só preocupada com ritos e liturgias, devoções e sacramentos, normas, dogmas e doutrinas, desprovida de compaixão. É na vivência compassiva que a Igreja mais se identifica com Jesus Compassivo.

A Igreja, para ser Igreja evangélica, precisa inspirar-se na compaixão de Jesus. Ele não estabeleceu nenhum código de normas e nem um sistema de ritos. Não é fundador de uma religião, mas de um movimento vivo do amor e da compaixão. Um dia seremos julgados no amor e teremos que rever ante Jesus (cf. Mt 25), como vemos e tratamos essas multidões que se estão afastando pouco a pouco da Igreja, talvez porque não escutam entre nós o Evangelho de Cristo e porque já não lhes diz nada os nossos discursos anacrônicos.

Pessoas simples e boas que estamos decepcionando porque não veem em nós a encarnação da ternura e compaixão de Cristo. Pessoas que não sabem a quem acudir nem que caminhos seguir para encontrar-se com um Deus mais humano que o que as religiões apresentam. Cristãos que se calam porque sabem que a sua palavra não será tida em conta por ninguém na Igreja.

Mas um dia o rosto desta Igreja mudará. Aprenderá a atuar com mais ternura, misericórdia e compaixão; esquecerá os seus próprios interesses e discursos e escutará o sofrimento das pessoas. Jesus tem força para transformar o nosso olhar e os nossos corações e renovar a nossa Igreja.

 

Pe. José Assis Pereira Soares
Pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus 

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