Tocar as chagas do Ressuscitado e da humanidade

Neste II Domingo da Páscoa somos convidados a reconhecer a presença de Jesus Ressuscitado no meio da comunidade cristã no difícil momento de pandemia, de distanciamento social que estamos vivendo.

Um pequeno texto dos Atos dos Apóstolos (cf. At 2,42-47) nos mostra uma imagem de como era o estilo de vida das primeiras comunidades cristãs: “partiam o pão pelas casas e, unidos, tomavam a refeição com alegria e simplicidade de coração.” Comunidades eclesiais que vivem de forma simples e alegre mostrando que estes sinais que contagiam a todos: alegria e simplicidade são frutos do Espírito.

Assim a leitura do livro dos Atos neste tempo pascal nos ensina que o ideal de comunidade cristã está em criar um “lugar” onde se construa comunhão e, por conseguinte, se construam pessoas. Que sejam lugares de acolhimento, encontro fraterno e não de passagem; lugares onde se vive e se sente, onde se compartilha o pão e a vida, se reza e se celebra. Esta visão de comunidade cristã deveria ser uma sacudida no hoje de nossas comunidades, no impulso para retomar o trabalho de construção dessas comunidades vivas. Começando por aquilo que identificava as primeiras comunidades cristãs: a alegria e a simplicidade. Talvez sendo comunidades alegres e simples estejamos antecipando a verdadeira plenitude a que está destinada toda a humanidade e que aqui só alcançamos de forma limitada e provisória: “uma esperança viva, uma herança incorruptível que não mancha nem murcha.” (cf. Pd 1,3-9)

O evangelho deste domingo nos mostra o relato fascinante que só se encontra no evangelho de João (cf. Jo 20,19-31). A dupla aparição do Ressuscitado aos discípulos reunidos no primeiro dia da semana; primeiro na ausência de Tomé, e depois na sua presença, nos diz algo sobre a comunidade cristã primitiva, mas também traz luz sobre as nossas comunidades hoje.

O Ressuscitado vive, não é um fantasma, não é uma visão. Não há porque temer, ao contrário, Ele lhes faz experimentar uma paz intensa e verdadeira junto a uma alegria incontida. A nova comunidade pascal é uma comunidade animada pelo sopro do Espirito de Jesus; que por isso não pode se fechar sobre si mesma, alienada das chagas da humanidade, mas que deve ser aberta como Ele ao amor universal, capaz de viver o perdão e ser presença misericordiosa.

“Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloco-a no meu lado.” (v. 27) Chama-nos muito a atenção que o Ressuscitado tenha tanto interesse em mostrar a seus discípulos as chagas de suas mãos e de seu lado aberto. Diante de um martirizado ressuscitado, qualquer um esperaria ver um corpo totalmente renovado, limpo, sem feridas e marcas do martírio. E, no entanto, Jesus Ressuscitado deixa-se ver assim com suas marcas.

As chagas do Ressuscitado são algo mais que um modo de dizer “sou eu mesmo”. Elas são expressão de sua identidade, ou seja, pertencem a seu novo ser de Ressuscitado. A fragilidade da carne foi assumida na glória do Corpo Ressuscitado. Por isso, suas chagas são terapêuticas, pois curam as nossas chagas do medo, da tristeza, da solidão, da dor… São feridas que curam feridas.

Mas a comunidade dos discípulos passa por um momento de crise, de incredulidade, fruto do seu fechamento e de seus temores. No meio dessa comunidade está a figura de Tomé, ele é a expressão de toda pessoa a quem custa crer na ressurreição do Jesus Histórico, do Jesus das chagas nas mãos e no lado, do Jesus do povo crucificado. Ele representa todos os que passam por crises de fé, quer ver, quer tocar; exige provas da ressurreição, que lhes tire de suas duvidas.

Provavelmente, Tomé acreditava em um “Jesus espiritual”, puramente interior, sem necessidade de compromisso comunitário, sem chagas no seu corpo. Talvez, ele estivesse mais centrado no Cristo glorioso, desligado da sua história, das mãos que tocaram os pobres e curaram os doentes, do coração que amou os excluídos. Tomé queria tocar em Jesus, mas só de modo espiritual, distanciando-se da sua humanidade e vivendo, portanto, uma religião desumanizadora, longe dos pobres, e centrada só em ritos, doutrinas, normas…

Contra isso, a comunidade lhe diz que é preciso “tocar nas chagas de Jesus”, que o Ressuscitado é o mesmo Crucificado da história, aquele que foi ferido pela violência e pela rejeição. O Ressuscitado continua sendo aquele que carrega as feridas de sua entrega, os sinais de seu amor crucificado em favor de todos.

O Jesus pascal continua presente nas chagas e feridas dos homens e mulheres que sofrem. Ao mostrar suas chagas, o Ressuscitado revela que as chagas da humanidade continuam abertas, esperando que seus seguidores prolonguem os gestos de cura e cuidado do mesmo Jesus. São estes que hoje testemunham o Ressuscitado.

No entanto, não há mais o Cristo visível para tocar. Os únicos traços para ver e tocar, que confirmam a realidade de sua presença, são os pobres, os excluídos, os desprezados, tocar neles é tocar a carne de Cristo, é tocar as suas chagas. Portanto, crer na Ressurreição não é simples adesão a um dogma de fé, é compromisso com a vida.

O toque pascal de Tomé no Ressuscitado é o toque das chagas, é a experiência do toque e do cuidado dos crucificados do mundo. Só podemos tocar em Jesus de verdade, e confessar sua Páscoa, tocando, ajudando os crucificados da história. Não há experiência pascal se não descobrimos Jesus Ressuscitado nas chagas dos pobres, doentes e excluídos de nosso mundo; tocar estas chagas vai além de um gesto físico; implica ser presença solidária, acolher, acompanhar, ajudar, alimentar uma sintonia e comunhão com aqueles que clamam por uma presença consoladora, carregada de ternura.

O Ressuscitado quer que Tomé, nós e a comunidade eclesial abram as portas que ainda estão fechadas, vençam seus medos, toquemos as chagas da humanidade, sejamos participantes da mesma alegria e paz que a Ressurreição traz. E como Tomé, façamos a mais bela confissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus!” (v. 28)

Pe. José Assis Pereira Soares
Pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus 

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