Tentações de Jesus e tentações do homem

Neste Primeiro Domingo da Quaresma a figura de Jesus no deserto (cf. Mt 4,1-11) abre a Quaresma. O estilo é bastante sóbrio e direto: “o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo” (v. 1). Os quarenta dias e quarenta noites que Ele passou no deserto jejuando é uma alusão clara não só  à caminhada de Israel pelo deserto, mas principalmente à estada de Moisés no monte durante quarenta dias e quarenta noites (cf. Ex 34,28; Dt 9,9).

O deserto era na tradição profética do Antigo Testamento, o lugar ideal do encontro do homem com Deus (cf. Dt 32,10; Os 2,16) ou no imaginário judaico, o lugar da “prova”. O deserto é situação humana e cenário de prova, mais do que lugar geográfico e faz parte da paisagem da Quaresma.

O personagem que dialoga com Jesus nas tentações é o “diabo”, cujo significado etimológico é: “acusador”, “caluniador”. Por experiência sabemos que tentação, é uma prova, um momento de risco no qual podemos ser vitoriosos ou derrotados. Se põe à prova nossa adesão a Deus. Por isso, a tentação se nos apresenta como certo sofrimento, como um tempo ou estado de combate ou luta espiritual. No sentido popular se considera a tentação como um mal. Sem dúvida, mas, se olharmos a fundo, a tentação é o momento de luta pelo Amado e nos oferece uma ocasião para manifestar o amor. O homem e a mulher têm a oportunidade de expressar sua condição de criatura diante do Criador e demonstrar sua adesão incondicional a Deus acima dos sofrimentos, se submetendo humildemente à sua vontade.

Jesus Cristo, homem e Deus verdadeiro experimenta no deserto a tentação do diabo a não seguir a vontade do Pai; e a ceder às propostas de um messianismo diferente do que o Pai  lhe indicava.

Na primeira tentação (v. 3) o diabo sugere a Jesus usar de seu poder messiânico para transformar pedras em pães e assim saciar a sua fome. Jesus responde-lhe: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (v. 4).

Na segunda tentação (v. 5), Jesus se vê colocado no cimo do templo e o diabo desafia, novamente, seu poder messiânico: “Se és Filho de Deus, atira-te para baixo” (v. 5). E o diabo justifica a sua proposta por meio do Salmo 91: “Ele dará ordem a seus anjos a teu respeito – e eles te tomarão pelas mãos, – para que não tropeces em pedra alguma”. A resposta de Jesus reassume o texto de Dt 6,16 que alude ao episódio de Massá e Meribá, no deserto, onde os israelitas exigiram de Deus um milagre para não morrer de sede (cf. Ex 17,1-7; Nm 10,1-13).

A terceira tentação (v. 9) evoca, sem dúvida, a cena de Moisés sobre o monte, tendo diante dos olhos toda a terra prometida (cf. Ex 34,1-4). Mas, o diabo não mostra apenas a terra prometida. Ele oferece a Jesus todos os reinos e riquezas da terra. Uma única condição lhe é imposta: “… se prostrado me adorares” (v. 9). A resposta de Jesus no v. 10 constitui o ponto culminante do relato: “vai-te Satanás! Ao Senhor teu Deus adorarás e a ele só prestarás culto”.

O relato de Mateus não tem pretensão de ser histórico no sentido moderno do termo. Mateus formou o relato da tentação de Jesus no deserto, com uma finalidade bíblico-teológica: apresentar Jesus como o novo Moisés que no deserto se prepara para conduzir o novo povo de Deus. Nele o novo povo de Deus vence as forças do mal e opta pela vontade de Deus. Jesus não é como um de nós que tentamos viver correspondendo mais os menos com a vontade de Deus. Jesus é a plena e total submissão ao amor e à vontade do Pai. Para Ele, só o Pai é Absoluto e só Ele deve ser adorado (v. 10).

Como no caso de Jesus podemos perceber três das tentações mais frequentes para o cristão de hoje no deserto da vida: Primeiro o consumismo desmedido, desejo supremo de pão material de ter e gastar coisas, esquecendo-se da primazia do reino de Deus e dos seus valores; é primado do ter sobre o ser; é dissociar a fé da vida; é esquecer-se de que não só de pão vive o homem, mas também da Palavra de Deus. No fundo da questão subjaz um dilema básico, uma opção ineludível: ser ou ter. Como cristãos, temos de optar pelo ser sobre o ter.

Segunda grande tentação dos dias atuais: A religião mercantilista, mágica e supersticiosa, infantil e triunfalista, espetacular e exibicionista. Tentação mais frequente entre crentes e praticantes do que à primeira vista pode parecer. É querer manipular e domesticar Deus, assegurando a todo o custo os seus favores, à base de mecanismos pseudo-religiosos; é entender a fé como um seguro de vida contra os riscos; é ter um conceito avassalador da religião e um cálculo mercantil da prática religiosa, chegando até a pedir milagres ao serviço dos nossos interesses. Mas Jesus avisa-nos: Não tentarás o Senhor teu Deus.

E terceira tentação os ídolos atuais, sucedâneos do Deus autêntico, revelado por Jesus Cristo. O homem e o mundo atuais estão marcados pelo sinal da descrença, e às vezes até, pelo ateísmo militante e, quase sempre, pelo agnosticismo indiferente.

Quando a criatura humana esquece o Deus da Vida e o seu projeto de amor e se fecha egoisticamente em sua auto-suficiência, facilmente cai na escravidão dos ídolos que, no entanto, estão longe de assegurar vida plena e felicidade duradoura.

Nenhum momento é mais alto na vida como quando o homem ou a mulher, fazendo ouvidos surdos às tentações do diabo, adere incondicionalmente a Deus. A questão essencial é: Jesus recusou, de forma absoluta, conduzir a sua vida à margem do Pai e da sua vontade. Para Ele, só uma coisa é verdadeiramente decisiva e fundamental: “Desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6, 38); E para nós cristãos, o que é decisivo na nossa vida: as propostas de Deus, ou os meus projetos pessoais?

 

Padre Assis Pereira Soares – Pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus.

 

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