Somos todos cegos “Bartimeus”

Quando nos Evangelhos se dá o nome de um personagem ao qual Jesus fez o bem, é porque, com muita probabilidade, essa pessoa passou a tomar parte de uma comunidade cristã. Por isso o evangelista conhece seu nome. Há um conhecido personagem de Jericó que se converteu em discípulo de Jesus: o cobrador de impostos Zaqueu (cf. Lc 19,1-10). Ele subiu numa árvore para poder ver Jesus, mas foi o próprio Jesus quem o viu e foi jantar em sua casa e ele se converteu.

Pois bem, a passagem do Evangelho de hoje (cf. Mc 10, 46-52) nos fala de outra conversão que teve lugar também em Jericó. Essa cidade que é uma das mais célebres do mundo do ponto de vista histórico e do ponto de vista bíblico é símbolo da entrada na terra Prometida como nos lembra o livro de Josué. É o lugar onde Jesus fez, segundo o evangelho de São Marcos, o seu último milagre, curando o cego Bartimeu.

Este cego e mendigo, como Zaqueu, também queria conhecer Jesus: “Quando ouviu dizer que Jesus, o Nazareno, estava passando, começou a gritar: Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!” (v. 47) Ele se pôs a gritar para chamar atenção de Jesus e conseguiu: Jesus, que estava saindo da cidade, parou e pediu a seus discípulos para chamá-lo. Os discípulos disseram ao cego: “Coragem, levanta-te, Jesus te chama! O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus.” (vv. 49-50)

Jesus disse a seus discípulos para chamá-lo, não disse: “tragam-no” ou “vai buscá-lo”. O termo “chamar” tem um significado muito concreto nos evangelhos: Jesus chama seus discípulos. O chamado de Jesus àquele que é cego tem um significado muito grande. Jesus chamou para segui-lo várias pessoas; agora “chama” a um cego para que venha até Ele. Não lhe chama aparentemente para segui-lo, mas sim para curá-lo, mas a cura verdadeira será “segui-lo” pelo caminho até Jerusalém, em uma atitude totalmente diferente dos outros discípulos que haviam discutido pelo caminho “quem era o maior”. O cego não está preocupado consigo mesmo, ânimo não lhe falta e lhe sobrava fé no que Jesus podia fazer por ele. Por isso Bartimeu deixando o manto foi até Jesus e tornou-se modelo de todos aqueles a quem Jesus chama. Na radicalidade cristã é proposto ao cego deixar provavelmente a única coisa que possuía, o seu manto.

Há um impressionante contraste entre o discipulado de Bartimeu e o não-discipulado do homem rico (cf. Mc 10,17-30). Bartimeu, como o homem rico não podia desfazer-se de sua fortuna, mas ele abandona sua capa, seu único elemento de sobrevivência (os mendigos estendiam suas roupas para receberem esmolas). Um, no ápice da escala social, recusa o convite, mas o outro, no fundo da pobreza, na parte inferior da escala social, sequer chega a esperar ser chamado, “no mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho”. (v. 52)

O significado da composição da narrativa de Marcos é claro. Os primeiros se tornam os últimos e os últimos os primeiros. Também o texto está em paralelo com o pedido dos discípulos (cf. Mc 10, 35-45) enquanto Jesus perguntava a Tiago e João “o que quereis que vos faça?” (Mc 10,36). Ao pedido do mendigo, Jesus responde exatamente com as mesmas palavras. Mas como são diferentes os pedidos! Os discípulos desejavam “status” e privilégios; o mendigo simplesmente pedia: “Mestre, que eu te veja”. Uma solicitação Jesus não pode atender, a outra Ele pode. E é o mendigo quem segue Jesus. Está tudo tão claro, somente quando renunciamos à nossa sede de poder, a aventura do discipulado pode prosseguir.

Jesus viu que Bartimeu foi capaz de desprender-se de tudo porque queria vê-lo. Tanto seu desesperado grito, como seu desprendimento radical, fizeram ver a Jesus: Bartimeu não queria vê-lo buscando simplesmente sua cura. Jesus sabia que ele buscava algo muito mais, algo que só Deus lhe podia dar.

Bartimeu se converteu em discípulo de Jesus e, mais tarde, passou a ser um cristão conhecido, pois sua história de conversão correu de boca em boca pelas primeiras comunidades cristãs, chegando aos ouvidos dos evangelistas, os quais, inspirados pelo Espírito Santo, a incluíram nos textos evangélicos.

Esta passagem nos deixa vários questionamentos importantes. E, o mais significativo desta passagem: se Jesus nos perguntasse o que queremos que Ele faça por nós, que lhe diríamos? Bartimeu tinha muito claro que era o que mais necessitava. Somos conscientes do que realmente necessitamos para salvar-nos?

Quantos “Bartimeus”, quantas pessoas vivem como cegos diante da realidade de sofrimento e injustiça do nosso povo. Aos cristãos se interessem as questões sociais e as olham com olhos da fé? Os cristãos devem interessar-se por esta dupla salvação: a melhoria social do povo e a salvação eterna. Hoje há a tendência para separar as questões sociais da consciência religiosa, como se uma coisa nada tivesse a ver com a outra. Há muitos cristãos que se confessam das faltas religiosas e deixam de lado as responsabilidades sociais, e entre os que assumiram tarefas sociais e políticas muitos não as relacionam com sua fé.

O cego e mendigo Bartimeu grita a plenos pulmões, vencendo as ordens para que se calasse. O grito de Bartimeu não é o grito histérico dos fanáticos das torcidas dos comícios ou das redes sociais, pagas para ovacionar os grandes. É o grito e o clamor da pessoa de fé indignada com a situação. O cego Bartimeu não se resigna a continuar nas trevas em que está envolvido; ele não se conforma em ter de sobreviver passivamente das esmolas dos passantes, das migalhas da sociedade que o exclui. Bartimeu, consciente da situação intui que algo está para acontecer e pode mudar sua vida. Supera o medo e o acanhamento, e grita. O clamor do cego atrai a atenção de Jesus e depois de enxergar, não voltará mais à sociedade que o marginalizou, mas seguirá Jesus.

Na prática da vida das comunidades, nos bairros, em muitos locais, algo novo só acontece graças à resistência perseverante e ao grito indignado de algumas pessoas que, movidos pela fé, não deixam as coisas se acomodarem, vencem o imobilismo. Mas, infelizmente na nossa realidade, onde está a consciência da indignidade da situação de mendicância a que estamos secularmente submetidos? Não ouvimos muitos gritos indignados do povo.

O povo parece que ainda não tomou consciência da sua cegueira e da condição indigna de viver a mendigar migalhas que sobram dos ricos e dos poderes públicos. Reina uma cegueira total, fruto da acomodação e de muitos que se apresentam como porta-vozes, “messias”, salvadores do povo, quando na verdade calam a voz do povo e defendem seus próprios interesses, ou preferem que a miséria permaneça oculta, que não se mostre, que não perturbe os sonhos de quem está bem.

Quando é que o nosso povo vai tomar consciência como Bartimeu de que viver de esmolas não é vida? Como o cego de Jericó, temos de pedir ao Senhor com fé, olhos novos para ver a nossa própria realidade, a vida, o mundo e as pessoas na perspectiva, na ótica de Deus, para iluminar e dar sentido à existência individual e comunitária de cada dia. Para entender a realidade pessoal e social, mesmo quando já não se lhes vê valor humano. E sabermos caminhar com Jesus pelo caminho da verdade, da justiça e da paz.

Pe. José Assis Pereira Soares

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