Sair do sepulcro e abraçar a Vida

Neste V Domingo da Quaresma batismal e penitencial, a sagrada Liturgia nos convida a meditar sobre o grande sinal da ressurreição de Lázaro (cf. Jo 11,1-45), profecia da ressurreição de Jesus e de futuras vitórias sobre todo tipo de mortes: Cristo veio para que “tenhamos vida e a tenhamos em abundância.” (Jo 10,10) Ele nos repete: “Ó meu povo, vou abrir as vossas sepulturas… sabereis que eu sou o Senhor.” (cf. Ez 37,12-14)

Toda a narrativa da ressurreição de Lázaro (cf. Jo 11,1-45) é para nos mostrar que Jesus é, para nós, a Ressurreição e a Vida, em virtude da sua morte. O irmão de Marta e Maria, Lázaro “aquele que amas está doente.” (v. 3) Sim, Jesus amava muito esses amigos, cuja casa, no povoado de Betânia Ele frequentava encontrando ali a acolhida carinhosa de Marta, a escuta atenta da Maria que “ungira o Senhor com perfume e enxugara os pés dele com seus cabelos” (v. 2) e o afeto fiel de Lázaro, provavelmente o “discípulo amado”.

Como Jesus pode permitir que um amigo seu a quem Ele tanto amava fique doente, sofra e morra? Essa interrogação, que certamente surgiu no coração dos seus amigos, também nos toca quando nos sentimos ameaçados pela doença e a morte. Ao ser avisado da doença de Lázaro Jesus não se apressa, fica no lugar onde está, não reage imediatamente e com essa atitude quer nos ensinar algo.

Podemos perguntar-nos, qual é a doença de Lázaro? Pensamos certamente numa doença física, mas há outros tipos de doença, como o medo, o egoísmo, o orgulho, a raiva, o individualismo, a incerteza de não saber o que pode acontecer na vida de uma pessoa, ser escravos dos nossos próprios desejos de rancor ou vingança, e assim podemos descrever vários tipos de doenças.

Como disse o papa Francisco, nesta sexta-feira: “Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face às guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente.” Sim o mundo está doente da ganância do lucro, da crueldade, dor, ódio e tristeza.

Há meses está transitando uma doença que atinge a vida da humanidade inteira sem distinção de nível econômico, social, cultural ou de desenvolvimento. Em apenas algumas semanas, a vida nos mudou drasticamente e decisivamente como consequência da pandemia e COVID-19 que anda devastando nossa terra: 600 mil casos e 28 mil mortos. É impossível não se sentir vulnerável nessa situação, especialmente devido à incerteza de seu verdadeiro alcance, às implicações que ela terá para nossa vida futura, que certamente experimentará mudanças no futuro próximo. Depois dessa pandemia não seremos os mesmos.

Assim como Marta e Maria procuram Jesus e mandam avisá-lo da doença do irmão, porque elas tinham esperança nele, neste tempo também nós somos chamados a não ficar na desesperança e no medo. Elas o procuram para que saiba o difícil momento que estão passando. Jesus amava esses amigos como hoje continua amando nossa humanidade e cada um de nós.

Hoje podemos até esperar que Jesus reagisse imediatamente diante dessa pandemia e isso aparentemente não está acontecendo ou será que não somos nós que não temos a capacidade para descobrir a vida nova que está emergindo ao nosso redor? Assim como Marta e Maria, hoje estamos diante da nossa fragilidade e das nossas limitações.

Quando Jesus chega a Betânia, Lázaro, seu amigo já está morto há quatro dias. Marta vai encontrá-lo, manifesta sua confiança, mas também se queixa: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido! Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele te concederá.” (vv. 21-22) Ela crê em Jesus e confessa a própria fé na ressurreição final da carne. Mas Jesus a convida a dar um passo a mais, fazendo-lhe a revelação decisiva: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais”, (v. 25) ao que Marta responde: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo.” (v. 27)

Maria também corre ao encontro de Jesus e, jogando-se aos seus pés, exclama entre lágrimas: “Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido.” (v. 32) Maria expressa com lágrimas a sua dor. Ela ama Jesus e sabe-se amada por Ele, mas não dá sinais de uma fé que possa vencer o seu sofrimento: está inteiramente definida pela sua dor inconsolável, pela sua prostração. As suas lágrimas são contagiosas: choram os judeus presentes, e Jesus estremece de comoção pela injustiça da morte, fica perturbado com a morte daquele que ama e chora. A sua dor é sinal do seu amor por Lázaro e todos assim entendem: “Vede como ele o amava!” (v. 36)

Somos chamados a expressar nossa dor diante de Jesus como Marta e Maria. No texto evangélico os judeus são solidários com a dor delas e foram lá para consolá-las. (v. 31) Nós também somos convidados a ser solidários com a dor que há ao nosso redor. A dor da insegurança com uma doença que não sabemos o que vai acontecer, mas também a dor da solidão do isolamento de muitas pessoas, sobretudo os idosos; a falta de recursos para viver este tempo difícil, a dor das possibilidades de contágio, o sofrimento das consequências do novo corona vírus.

Diante do túmulo Jesus reage de uma forma inesperada: “Tirai a pedra! Marta, interveio: Senhor, já cheira mal.” (v. 39) Confia em Jesus, mas ainda não pode pensar numa realidade totalmente diferente. Qual a pedra que hoje somos convidados a retirar? Qual é o túmulo que nossa sociedade, nossa cultura e nosso estilo de vida mantêm sepultadas tantas pessoas consideradas “mortas” para uma sociedade capitalista baseada numa economia do lucro?

Essa epidemia terá muito a nos ensinar: em primeiro lugar, apenas a solidariedade e a cooperação em todos os níveis, nacional e internacional, poderão nos ajudar a sair dela em um tempo razoável, embora longo. É um desafio global e isso vale para todos e em qualquer lugar. O outro horizonte é a justiça social, porque as doenças não são neutras, mas se enfurecem contra os mais fracos e isso corre o risco de ser particularmente verdadeiro em um mundo e um país de tantas desigualdades sociais como o nosso. Depois, há a questão ambiental que não pode mais ser enfrentada apenas com palavras. As crises trazem à tona o pior, mas também o melhor das sociedades.

O Evangelho nos chama a repensar nossa vida desde os acontecimentos que vivemos no dia a dia e acrescentar nossa esperança numa realidade desconhecida, mas que pode ser possível. Somos todos convidados a sair do sepulcro dos nossos medos e abraçar a Vida!

 

Padre Assis Pereira Soares – Pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus.

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