Fonte: Elpídio de Almeida. História de Campina Grande (1962)

Os 250 anos da Matriz – O Cemitério das Boninas

Chegamos ao sexto artigo do Padre Luciano, na Série Os 250 anos da Matriz. Neste artigo ele conta a história do Cemitério das Boninas, um Campo Santo construído por iniciativa do Cônego Luís Aves Pequeno, Vigário da Matriz.

Vale a pena conferir essa história.

Boa Leitura!

 

O Cemitério das Boninas

Até meados do século XIX em toda a Província da Paraíba os mortos eram enterrados nas Igrejas. Não havia cemitérios públicos. O primeiro campo santo que existiu foi construído em Piancó, no começo de 1855.

A febre amarela desde 1850 desolava a Paraíba. Os surtos e as epidemias constantes pelas vilas do interior impuseram grave responsabilidade aos poderes constituídos.  Em 1856 irrompeu em Campina Grande o colera morbus, levando à óbito 1.547 pessoas da  Vila. Uma vez que não havia espaço no recinto das igrejas e das povoações próximas, improvisaram cemitérios cercados de madeira em diversos sítios da redondeza.

Nesta ocasião, por iniciativa do Cônego Luís Aves Pequeno, vigário da Matriz, teve início o Cemitério das Boninas, posteriormente chamado de Cemitério Velho, em contraposição ao novo Campo de Nossa Senhora do Carmo, localizado no Monte Santo.  Este cemitério ficava na atual Rua Félix Araújo. De tamanho reduzido, continha trinta metros de frente por outros tantos de fundo, possuindo dezenas de túmulos. Foi demolido em 1931.

Foi neste contexto vivido aqui que a imagem de São Sebastião foi doada à Igreja Matriz como promessa cumprida pelo livramento de tamanha desgraça. Como se sabe, o mártir do cristianismo antigo que fora soldado romano foi associado, na devoção popular, ao santo recorrido para aplacar as intempéries da fome, da peste e da guerra.

A imagem de São Sebastião foi trazida para a Matriz em 1856 – precisamente no ano da calamidade pública – por doação dos fiéis.  Segundo Esmeraldina Agra, “a imagem veio em procissão da Fazenda Tanques até a cidade, acompanhada a pé”. Muitos doentes foram salvos pela intercessão do santo protetor e com o auxílio do “purgante” homeopático do Dr. Sabino.

De todas estas experiências convém destacar a audácia deste quase desconhecido vigário chamado Cônego Luís Alves Pequeno, que num curto tempo exerceu o sacerdócio em Campina Grande.  Viveu aqui apenas quatro anos e posteriormente renunciou a paróquia, indo residir em Pocinhos. Foi eleito Deputado Provincial para o exercício de 1864-1865, e mais tarde naquela mesma localidade (à época distrito), santamente faleceu.

Em tempos difíceis a coragem deste cônego fez acudir os habitantes da Vila, defendendo-lhes a dignidade do corpo humano. Na velha necrópole quadrilátera das Boninas ele foi arauto da sacralidade da vida.  Na Igreja Matriz, devotando louvores a São Sebastião acendeu uma chama de esperança e de gratidão no coração dos fiéis.

Assim o destemido vigário pastoreou os nossos pais nesta Serra da Borborema.  Nos 250 anos da Matriz trazer presente esta memória é significativo para fazer lembrar o que corriqueiramente esquecemos. O cuidado com os mortos é o cuidado com os vivos, ontem e hoje, pois a sensibilidade e a atitude valem para as duas faces do mesmo mistério que abarcam a condição humana sobre a terra, condição esta para os cristãos sempre aberta ao Cristo Jesus, Senhor do tempo e da eternidade.

Pe. Luciano Guedes do Nascimento Silva

Vigário Geral e Pároco da Catedral

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