O poder das chaves

Quem tem as chaves de uma casa tem o poder sobre ela. Com as chaves se fecha e se abre, entra, sai, faz e desfaz. Em um oráculo do profeta Isaías (cf. Is 22,19-23) usando o simbolismo das chaves quer mostrar a atuação de Deus. Sobna, administrador do palácio do rei Ezequias (716-687 a.C), homem rico e ambicioso, se aproveita em benefício próprio de sua situação privilegiada como encarregado do palácio real e estava construindo um mausoléu que escandaliza o profeta, frente à situação que vive o povo. Isaías diz que Deus vai intervir restituindo a ordem, destituindo este administrador: “Eu farei levar aos ombros a chave da casa de Davi; ele abrirá, e ninguém poderá fechar; ele fechará e ninguém poderá abrir”.

O oráculo diz tudo: um pai para o povo e em suas mãos estarão as chaves do reino de Davi; Eliacim era o homem de confiança que necessitava o rei Ezequias naquele momento. Será um administrador justo para um povo destroçado, onde os pobres são mais pobres e os ricos mais ricos. Essa é a situação que deve mudar. Quem tem as chaves, deve saber que é o administrador de Deus. E que não tem direito a impedir liberdades nem permitir misérias.

A chave é sinal, mais que de poder, de uma responsabilidade muito maior que tem que cumprir com autêntica fidelidade. Os Santos Padres viram no texto profético um sentido messiânico enlaçando-o com o Evangelho (cf. Mt 16,13-20), onde Jesus concede a Pedro uma grande responsabilidade: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”(v. 19).

Ter as chaves não é um privilégio mas sim uma responsabilidade de serviço que Pedro terá que ir aprendendo e que o levará a entregar a vida como seu Mestre e Senhor, o “Messias, o Filho do Deus vivo”. O poder refletido nas chaves, conferido por Jesus à sua Igreja na pessoa de Pedro, “pedra”, é o de abrir, “dar acesso”, ao caminho e ao projeto do Reino de Deus, assim como “fechá-lo” a todo aquele que se comporta mal ou luta ousadamente contra este projeto de vida nova que Deus nos oferece.

Conta-nos o evangelho de hoje que “pelos lados de Cesaréia de Filipe”, ostentação do poder romano, região pagã do antigo território da Palestina; a localização da cena não é um dado insignificante para ver o alcance do que se nos narra o texto. Jesus perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (v. 13) para chegar à uma outra que a Ele interessa mais: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (v. 15)

O povo tinha uma opinião formada sobre Jesus: Ele é João Batista ressuscitado, Elias, que precede à chegada do Messias, ou um profeta. Estas opiniões apontam para a singularidade da pessoa de Jesus, é alguém especial, mas e para os discípulos? Pedro se adianta e responde que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. Trata-se de uma resposta “inspirada”. Pedro não sabe na realidade seu significado mais profundo. Entre a concepção que os discípulos e o povo em geral têm do messianismo de Jesus e a verdade de Jesus-Messias, há uma distância muito grande. O estilo de Messias que Jesus encarna choca-se fortemente com as expectativas dos sumos sacerdotes e mestres de Israel, que esperavam um messianismo glorioso, de poder político. Jesus, no entanto, é um Messias pobre e servidor, sem linhagem sacerdotal, isso para a tradição judaica era algo incompreensível.

A partir da resposta de Pedro Jesus vai confirmá-lo em uma missão que para levá-la adiante, ele necessitará saber o verdadeiro significado da mesma e não o que ele imagina. Seguindo a Jesus, dia a dia, irá compreender a responsabilidade de sua missão de ser “pedra” da Igreja de Jesus. Entendendo pouco a pouco o messianismo de Jesus estará preparado para desempenhar seu serviço e sua própria entrega.

Pedro não estará isento de erros e quedas: pelo contrário, como veremos depois, de rocha sólida ele se tornará “pedra de tropeço” e por causa dos seus sentimentos mundanos será até chamado por Jesus de “satanás” (cf. Mt 16,23). Mas isso não deve nos escandalizar, nem nos induzir a diminuir a autoridade de Pedro. Pelo contrário, devemos nos encantar com a extraordinária condescendência com que Jesus confiou a ele, homem frágil, o ministério decisivo para a comunhão e a unidade da Igreja; e, ao mesmo tempo, recordar que, na comunidade cristã, a autoridade só pode ser exercida conformando-se ao sentimento de Cristo, a única verdadeira Rocha sobre a qual se funda a Igreja (cf. 1Cor 3,11; 1Pd 2, 4-8)!

Diante da pergunta de Jesus o evangelho realça a resposta de Pedro e a missão que Jesus lhe confere. Assim o Apóstolo é instigado a entrar no caminho do poder-serviço, amor-serviço do Mestre; e isso não pode ser confundido com “transferência de poder”. Pior ainda é quando confundimos o “poder das chaves” com a “chave do poder”. Quem tem a chave tem o poder.

Todo “poder” corrompe, é o que se diz, ou ainda, quer conhecer alguém dê-lhe poder! Nenhum exercício do poder é evangélico; muito menos o “poder religioso”. Não há nada mais contrário à mensagem de Jesus que o poder. Jesus não transfere “poder” a Pedro, ele não “toma posse”; reforça nele a liderança para o cuidado e o serviço aos outros. Nenhum ser humano é mais que outro, nem está acima do outro. “Não chameis a ninguém de pai, não chameis a ninguém chefe, não chameis a ninguém senhor, porque todos vós sois irmãos” (cf. Mt 23, 8-12). A única autoridade que Jesus admite é o serviço.

O Messias despojou-se, despiu-se de todo poder, não exerceu poder porque o poder nunca é mediação para a libertação do ser humano, seja poder político, religioso, ou qualquer outra expressão de poder. Jesus tem autoridade: “ensinava-lhes com autoridade e não como os escribas” (Mt 7,29). Sua autoridade é caminho para o serviço e a promoção da vida. Por isso a autoridade de Jesus não tem nada a ver com o poder que domina ou a liderança que se impõe, às vezes autoritariamente pela força.

Jesus tem “autoridade” porque o “centro” está no outro; Ele veio para servir. Quem tem “poder”, ao contrário, o centro está em si mesmo, no seu ego autoritário; por isso é que toda expressão de poder é violenta, exclui, impõe-se ao outro, decide por ele… O poder alimenta dependência e submissão. Precisamos repensar nossas relações de poder na Igreja e na comunidade cristã.

Também hoje, Jesus dirige a cada um de nós a mesma pergunta feita aos seus discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Ele não nos pergunta para saber nossa resposta teológica sobre a identidade d’Ele, mas para que revisemos nossa relação com Ele. Somos seus seguidores, da pessoa de Jesus ou de uma religião, doutrina, normas, leis? Conhecemos cada vez melhor a Jesus, ou o fechamos em nossos velhos esquemas doutrinários? Somos comunidades vivas, formadas por servidores que colocam Jesus no centro de nossas vidas e de nossas atividades, ou vivemos estancados na rotina e na mediocridade?

Padre Assis Pereira Soares
Pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus.

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