O Nordeste e a Economia de Francisco e Clara

O Nordeste e a Economia de Francisco e Clara

“Acredito nessas minorias capazes de compreender a Ação, Justiça e Paz e de adotá-la como campo de estudo e de atuação. Chamo-as Minorias Abraâmicas porque, como Abraão, esperamos contra toda esperança”.
Dom Helder Câmara

“Não acontecerá que um construa e outro more, tampouco um plantará e outro comerá; pois meu povo alcançará a idade das árvores, e meus eleitos consumirão o produto do seu trabalho”
Isaías, 65:22.

O Papa Francisco, através da Carta de 01 de maio de 2019, dia do trabalhador/a, convocou um Encontro sobre Economia que deverá ser realizado na cidade de Assis, na Itália. Já no seu primeiro parágrafo se dirigindo aos jovens, economistas, empreendedores empresariais e sociais de até 35 anos, público alvo do encontro, já indica a missão de pensar e articular uma nova economia:  “(…)economia diferente, que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da criação e não a devasta. Um acontecimento que nos ajude a estar unidos, a conhecer-nos uns aos outros, e que nos leve a estabelecer um “pacto” para mudar a economia atual e atribuir uma alma à economia de amanhã.”

A cidade de Assis, foi escolhida para o construto de novas ideias sobre uma economia voltada para sustentar a força da vida por causa de São Francisco, o jovem que se fez pobre para viver a radicalidade do evangelho. O Papa Francisco na esperança da radicalidade do amor que refaz percursos e regenerar o pensar deu o nome do Encontro/Movimento Economia de Francisco.

O Encontro estava programado para os dias 26 a 28 de março deste ano, e foi adiado em função da pandemia, mas seu processo de construção e articulação não parou, pelo contrário com a ajuda dos espaços virtuais vem crescendo e ampliando os vários debates, textos, seminários virtuais e lives.

 O adiamento acabou ajudando a promover um amplo processo de construção do movimento por uma nova economia, este processo somado ao agravo da pandemia, nos mostrou o quanto o mundo é desigual e necessitado de uma virada humanista da solidariedade e da justiça social e ambiental.

O Encontro acontecerá com a participação de mais de 2.000 delegadas/os de todo o mundo. Do Brasil, são mais de 280 e eu tive a surpresa e graça de ser um dos selecionados para participar deste momento em Assis. Mais que um Encontro com o Papa Francisco, é um processo, um chamado a um movimento que desde as bases possa ensaiar iniciativas que promovam a economia da vida e não da morte, iniciativas desde das cooperativas de agricultores, de artesãos, dos catadores/as e tantas outras, a iniciativas de formação e formulação de propostas de política econômica comprometidas com o cuidado da criação e com a superação das desigualdades.

“Deus não nos fez bispos de almas desencarnadas”
Dom Helder Câmara, durante o I Encontro dos Bispos do Nordeste em 1956.

O chamado do Papa Francisco, encontra aqui no Nordeste um protagonismo social da Igreja que não começou hoje. Arrisco a dizer que a mesma inspiração que faz o Papa Francisco convocar um Encontro, fez Dom Helder Câmara articular o I Encontro dos Bispos do Nordeste que teve como o objetivo refletir e propor saídas para o desenvolvimento e a justiça social no Nordeste, encontro acontecido em maio de 1956, na cidade de Campina Grande – PB, uma cidade média do semiárido nordestino. Daquele encontro participou o então Presidente da República Juscelino Kubitschek e parte do seu ministério, ao final o Presidente assinou vários decretos com obras estruturantes para os estados nordestinos e cria o Grupo de Trabalho pelo Desenvolvimento do Nordeste – GTDN que em seguida seria coordenado pelo paraibano e economista Celso Furtado. A Igreja do Nordeste saía do encontro com uma Agenda de promoção humana comprometida com a justiça social e com o diálogo com os governos nesta perspectiva. E em maio de 1959, dessa vez na capital do Rio Grande do Norte, Natal, aconteceria o II Encontro dos Bispos do Nordeste com a participação do então Presidente da República e do Coordenador do GTDN, Celso Furtado. Uma das razões do II Encontro era avaliar o caminho feito entre 1956 e 1959 e propor novas políticas para a região. Entre tantos frutos, o mais notável foi a Criação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE, sucedendo o GTDN e assumindo as propostas destes encontros. Esta fase representou a opção pelo diálogo com os governos a favor dos pobres e da justiça social. Vale destacar nesta fase, a importante contribuição da Ação Católica, das Juventudes Agrária, Estudantil, Independente, Operária e Universitária Católicas, como também os movimentos de evangelização no meio rural, entre outros.

O Pontificado do Papa João XXIII e o próprio Concílio Vaticano II, chegavam no Nordeste e já encontravam uma Igreja em busca de renovação, o Concílio impulsionou ainda mais este movimento de renovação e compromisso social e ao mesmo tempo formou uma geração de bispos, padres, religiosas/os, leigos/as que fizeram dos seus ministérios um serviço de comunhão e participação.

Uma segunda fase de protagonismo social da Igreja Nordestina, foi a fase da resistência da ditadura militar, a luta pelos direitos humanos, pela democracia e da organização dos trabalhadores/as, a Igreja entendia que não bastava apenas dialogar com o poder público, mas era fundamental apostar na conscientização cidadã e na própria organização popular. Os pobres e trabalhadores/as sujeitos da sua história e partícipes das mudanças da sociedade. Destaque nesta fase para o Documento dos Bispos e Superiores Religiosos “Ouvi os Clamores do meu Povo/1973”, documento que denunciava as injustiças do nordeste e a ditadura e assumia a defesa dos direitos humanos. Outro destaque para as Comunidades Eclesiais de Base (CEB,s), estas foram o espaço da vivência de uma Igreja Povo de Deus e da inserção social como compromisso e sinal do Reino e missão batismal, da terra prometida, terra sem males. As comunidades se espalharam pelo chão do Nordeste como sementes de uma nova terra e um novo céu.

A terceira fase importante foi a luta e articulação a favor do semiárido. Num primeiro momento desenvolvendo um trabalho contra os efeitos das secas, mas aos poucos foi crescendo a consciência que não se combate seca e sim convive. O problema maior era a indústria da seca e as suas estruturas de concentração da água, da terra, da renda, foi aí que cresceu o movimento pela convivência com o semiárido. Nesta fase cresceu a pluralidade de organizações da sociedade civil, e as universidades ganharam um importante papel na região contribuindo para a expansão do campo da pesquisa, dos estudos sobre a região e novas propostas. É marcante o importante documento de número 31 da CNBB cujo o título era Nordeste: desafio à missão da Igreja no Brasil.

Uma outra fase se deu no surgimento e fortalecimento das Pastorais Sociais; pastorais específicas, as pastorais de juventude, PJ, PJMP, PJR que floresceram como respostas aos vários gritos sociais, possibilitando também iniciativas de economia solidária, projetos de geração de renda e outras iniciativas no campo da formação sociopolítica à luz da Fé e da Doutrina Social Igreja, as Semanas Sociais, as escolas de Fé e Política, a importante ação das Casas e Instituições de Promoção Humana e Assistencial. Só para citar alguns momentos e iniciativas do protagonismo social da Igreja no Nordeste.

Este protagonismo deve nos ajudar a responder com ousadia, criatividade e esperança ao chamado do Papa Francisco para trabalharmos por uma nova economia; chamado profético que nos faz desde o começo de seu pontificado e que ficou tão claro na sua encíclica Laudato Si, renovado ao proclamar o ano 2020 – 2021 como o Ano Laudato Si.

Um chamado para pensarmos o Nordeste e o semiárido de hoje, os atuais desafios e as possibilidades de uma economia com rosto nordestino, mas conectada ao Brasil e América Latina para superarmos as desigualdades. Em comunhão com a Articulação Brasileira da Economia de Francisco e Clara (ABEFC), queremos fomentar o regional Nordeste da Articulação e ao mesmo tempo aprofundar o diálogo no campo eclesial, com as várias instituições, e movimentos da sociedade civil. Para Celso Furtado, só se resolveria os problemas do Brasil resolvendo os problemas do Nordeste e, resolvendo-se os problemas do Nordeste, estaríamos resolvendo os problemas do Brasil.

Nordeste e a Economia de Francisco e Clara, uma economia que é feminina, que encontra nas mulheres a dura resistência e recriação da vida neste chão do semiárido e das cidades nordestinas marcadas com as desigualdades e exploração de todo tipo. Em Clara não perdemos o ponto de partida, o ponto da radicalidade evangélica da promoção da vida e da vida em abundância.

Que o exemplo de Dom Helder Câmara, Pe. Ibiapina, Pe. Cícero, Santa Dulce dos Pobres e Margarida Maria Alves e de tantas outras e outros, nos ajude a encontrar os caminhos a partir de nossa realidade, das nossas potencialidades e biodiversidade, a economia da vida, da justiça social e ambiental e com isso aprofundarmos a democracia e a solidariedade.

Caminhemos!

Viva o Nordeste! Viva Francisco de Assis e de Canindé! Viva Clara de Assis e de Canindé!

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Roberto Jefferson Normando
Formação em Filosofia
Inscrito no Encontro Economia de Francisco
Agente de Pastoral Social
Coordenação Colegiada da Escola Diocesana de Fé e Política Dom Manuel Pereira de Campina Grande – PB
Coordenador Executivo do Observatório Social do Nordeste – Obserne

 

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