O legado de Jesus

Estamos nos últimos domingos da Páscoa. Ao longo destes quarenta dias o Ressuscitado permaneceu junto aos seus discípulos preparando-os para que pudessem descobri-lo. A Igreja segue o mesmo caminho de Jesus durante este tempo pascal, através da liturgia, da Palavra e das orações vai preparando de maneira didática a todos para perceberem e descobrirem a presença viva do Ressuscitado em seu meio.

Neste VI Domingo da Páscoa a liturgia continua a nos apresentar as últimas palavras de Jesus aos seus discípulos na última ceia (cf. Jo 14,15-21). Quando uma pessoa sabe que vai morrer, como foi o caso de Jesus, procura dizer as palavras mais importantes. Sabe que essas palavras têm um sentido especial e serão escutadas de uma forma diferente e até guardadas pelos ouvintes como o mais importante de sua vida. Considerado como o Testamento de Jesus, é o seu legado que Ele oferece aos que estiveram sempre com Ele e a toda pessoa que procura segui-lo como seu discípulo ou discípula.

“Se me amais, guardareis os meus mandamentos, e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da Verdade…” (vv. 15-17) Leio e releio estas palavras e noto que Jesus as pronunciou olhando para seus discípulos com um olhar de amor único, pessoal, irrepetível, no desejo de que estas palavras tão carregadas de significado fossem gravadas em suas mentes e corações; e com a mesma certeza as pronuncia para nós hoje.

Que não se perca a minha mensagem. Este é o primeiro desejo de Jesus. Que não esqueçamos o seu Evangelho, a sua Boa Nova. Que seus seguidores mantenham sempre viva a memória do projeto do Pai: esse “Reino de Deus” de que lhes falou tanto.

“Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora quem me ama, será amado por meu Pai e eu o amarei e me manifestarei a ele.” (v. 21) Depois de vinte séculos, o que fizemos da Boa Nova, do Evangelho de Jesus? Guardamos fielmente ou estamos manipulando-o a partir dos nossos próprios interesses? Acolhemos no nosso coração ou vamos esquecendo-o? Apresentamo-lo com autenticidade ou o escondemos com nossas doutrinas?

Acolher ou guardar os seus mandamentos não significa um guardar como uma peça de museu, um guardar frio e exterior, mas, é uma relação de amor, o por em ação. No fundo, é realizar o que eles nos pedem, em nossa vida de cada dia, em todo momento ou situação.

Guardando seus mandamentos, eles se tornam uma experiência do amor, um amor que deve ser comunicado aos outros; deixando em nós transbordar para outros este Amor: “Nisso reconhecerão que sois meus discípulos se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,35). O amor dos cristãos dá testemunho do Cristo Ressuscitado de dois modos: Primeiro, o amor dos cristãos entre si: “Vede como se amam”, dizia-se sobre a geração dos primeiros cristãos. Hoje as pessoas dirão o mesmo ao olhar-nos? Ou nosso comportamento só leva a desconfiar do cristianismo? Em segundo lugar, o amor dos cristãos pelo mundo.

Em cada época nestes vinte séculos da história do cristianismo, a Igreja é chamada a dar uma contribuição especifica, cabe à Igreja agora oferecer à humanidade nestes tempos de pandemia mais uma contribuição original e única, sobretudo na realidade nova pós-pandemia do corona-vírus: recuperar o sentido e o valor do Amor, da convivência, da solidariedade, da proximidade que supera todos os preconceitos, sectarismos, divisões e guetos diversos, lutando contra todos os ódios, exclusões, concretizando um Amor que salve a todos, um Amor que vai até onde nenhum outro pode ir; “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos”. (Jo 15,13) Se o Amor não se dá, se afasta, se transforma em enfermidade, em isolamento, em solidão.

“Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor… Não vos deixarei vocês órfãos. Eu virei a vós”. (v. 18) É o segundo desejo de Jesus. Não quer que seus discípulos fiquem órfãos, sintam-se abandonados. Eles não sentirão sua ausência. O Pai lhes enviará o Espírito Santo que os defenderá do risco de se desviarem e se afastarem dele.

Assim como Jesus não nos deixa órfãos somos chamados a não deixar nossas irmãs e irmãos sós. Pelo contrário, nos convida a caminhar junto aos que estão necessitando de um ouvido que os escute, uma mão estendida, uma pessoa que seja companhia e defensora dos seus direitos. Pensemos neste momento de pandemia, em tantas pessoas que estão sofrendo a solidão.

Estar junto ao nosso irmão e irmã dá sentido e razão da nossa esperança, do Espírito que habita em nós e nos faz continuadores da sua presença hoje na situação do mundo que estamos vivendo. Como disse o Papa Francisco: “Me preocupa a solidão. Terceirizamos a convivência, esquecemos o lado a lado da convivência. Algumas vezes vês uma família que estão comendo juntos, os pais assistindo à televisão e os filhos olhando o celular, porque não podem sair. Eles têm tempo para se encontrar. Hoje temos que resgatar a convivência, e esta será uma das conquistas à qual podemos chegar nessa tragédia muito triste, porém temos que recuperar a convivência humana, a proximidade”.

Como estamos nos preparando para receber ”o Espírito da verdade”? Jesus vê que seus discípulos estão tristes. Brevemente já não o terão. Quem poderá encher o seu vazio? Até agora foi Ele que cuidou deles, defendeu-os, sustentou a sua fé vacilante, foi-lhes mostrando a verdade de Deus e os iniciou no projeto do Pai. Jesus fala-lhes do “outro Defensor” para que “permaneça sempre com eles”, chama-lhe “o Espírito da verdade”, que não deve ser confundido com uma nova doutrina. Esta verdade não tem de se procurar nos livros dos teólogos nem nos documentos da Igreja. É algo muito mais profundo. Jesus diz que “vive conosco e está em nós”. Temos de acolhê-lo com coração simples.

Este “Espírito da verdade” não nos converte em “donos” da verdade. Não vem para que imponhamos aos outros a nossa fé. Vem para não nos deixar órfãos de Jesus, e nos convida a nos abrirmos à sua Verdade escutando, acolhendo e vivendo seu Evangelho. Este “Espírito da verdade” convida-nos a viver na verdade de Jesus no meio de uma sociedade onde com frequência se vive a mentira.

Perguntemo-nos hoje: Que sentido pode ter a Igreja de Jesus se deixamos que o Espírito da Verdade fique esquecido? Quem a poderá salvar dos desvios e da mediocridade generalizada? Quem anunciará a Boa Nova de Jesus numa sociedade tão necessitada de esperança? Depois de vinte séculos, que espírito reina entre os cristãos? Deixamo-nos guiar pelo Espírito de Jesus? Sabemos atualizar sua Boa Nova? Vivemos atentos aos que sofrem? Para onde nos impulsiona hoje seu sopro renovador?

Pe. José Assis Pereira Soares
Pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus 

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