O essencial é o amor

O evangelho deste Domingo (cf. Mt 22,34-45) continua na mesma linha do domingo passado; os fariseus voltam ao ataque, montam armadilhas destinadas a surpreender afirmações polêmicas de Jesus, capazes de ser usadas para conseguir a sua condenação.

São Mateus situa o relato evangélico da obrigação do amor a Deus e ao próximo no Templo de Jerusalém, no lugar religioso e santo por excelência para um judeu do tempo de Jesus. Era o lugar do sacrifício, do perdão, do encontro, a morada que Deus havia escolhido, o santuário por excelência, ali estava o verdadeiro sacrário, ali se conservava, no lugar mais sagrado e santo, o código da Aliança, o pacto entre Deus e o povo. Foi no Templo onde Jesus declarou que o amor é o princípio e fundamento da verdadeira religião.

Os fariseus fazem uma pergunta a Jesus: “qual é o maior mandamento da lei?” (v.36) Ele respondeu recordando umas palavras que todo judeu repetia diariamente no começo e no fim do dia: “Escuta, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu ser”. Em seguida acrescentou algo que ninguém lhe tinha perguntado: “O segundo mandamento é semelhante a esse: amarás o teu próximo como a ti mesmo”. (v. 39) Mandamento que se encontra igualmente no Antigo Testamento (cf. Lv 19,18).

A novidade de Jesus é unir estes dois textos basilares e declarar que este segundo mandamento é semelhante ao primeiro. Nada é mais importante do que estes dois mandamentos. Para Jesus são inseparáveis. Não se pode amar a Deus e ignorar o seu próximo. Há uma perfeita unidade, quando se ama a Deus. Temos que amar tudo aquilo que Deus ama.

Sem amor a Lei os preceitos se tornam tirania, sem amor nada seríamos, quer dizer, não seríamos humanos (uma pessoa inumana é aquela que não conhece o amor), sem amor tudo vira obscuro, estéril, vazio. O amor a Deus que não seja ao mesmo tempo amor ao próximo (sobretudo aos mais necessitados) é uma fraude, um engano, uma mentira.

Sem um vivo reconhecimento do Senhor e da relação que existe com Ele, não se pode amar adequadamente. A partir da revelação de Jesus não se trata do amor a um ser divino abstrato, mas do amor ao Deus que se encarnou e revelou a sua face em seu Filho, Jesus. Ele vai nos ensinar um amor que faz nosso coração bater no ritmo do coração de Deus.

Este amor deve brotar do coração, da alma e da mente. O coração representa o centro vital do ser humano, de onde tem sua origem e sua sede o pensamento, a vontade e os sentimentos. A alma reúne em si a energia vital e a vontade de viver e ao mencionar a mente se põe em relevo uma vez mais o pensar. Estas três faculdades definem e representam todas as capacidades da pessoa humana.

Dizia Santo Agostinho: “Ama e faz o que quiseres”. Quem ama não pode senão cumprir a lei inteira. A plenitude do ser, da existência é amar e fazê-lo de coração, com entrega total, com o que cada um é, com o que somos. Deus, em Jesus, se entregou a nós totalmente por puro amor e por este mesmo amor nos deixou sua Palavra para que alcancemos nosso consolo.

“Mas a palavra ‘amor’, uma das mais usadas, muitas vezes aparece desfigurada”, diz o Papa Francisco na “Amoris Laetitia”. O verbo amar tem sido conjugado com múltiplos significados em nossa vida. Por “amor” se pode matar e salvar, construir ou destruir, ser feliz ou desgraçadamente infeliz, libertar ou escravizar… Por isso, é necessário, quando os cristãos falamos de amor, acrescentar a esta palavra o adjetivo “cristão”.

Em nossa sociedade onde abunda o egoísmo, a indiferença, o anonimato, a solidão, o vazio interior, a falta de afeto, carinho e ternura, é necessário mais que nunca anunciar que “Deus é Amor” e que Ele nos ama, não como nós nos amamos, pois nossa forma de amar é muitas vezes a de apropriar-nos as pessoas e torná-las nossas. Eu amo, mas quero dominar, eu amo, mas quero ser proprietário e o amor de Deus é diferente: Deus ama libertando, Deus ama promovendo, Deus ama emancipando, dando autonomia e esta é a grande diferença entre esta forma gulosa que nós humanos temos de amar intuitivamente e um amor gratuito que se aprende de Deus.

O cristianismo neste século XXI tem como missão fazer ecoar a principal mensagem de Cristo, levando ao ar as notas alegres do amor cristão, do amor fraterno, da paz, da luta pelo bem, da esperança… Deus conta com nossa cooperação sincera e generosa para difundir esse novo estilo de vida. Não basta só a luta por justiça, é preciso amar, porque as pessoas são carentes e necessitam ser amadas. Porém esse amor por Deus e de Deus se faz visível e concreto no amor ao próximo. Já o disse São João: “Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia o seu irmão é um mentiroso: pois quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus que não vê, não poderá amar.” (1Jo 4,20)

Temos de entender o amor como Cristo o entendeu: como autodoação, como entrega de si mesmo, amar é dar-se e entregar-se num mistério de comunhão com outro, é “ágape”, é experiência de unidade e fraternidade. Viver como irmãos, supõe assumir um novo estilo de vida, valores novos que nos levam a viver em comunhão com todos, sobretudo os que o mundo não ama, despreza ou descarta.

Em uma sociedade que exclui com preconceitos e violência, o Papa Francisco fala da misericórdia e compaixão e, nos chama a sermos todos irmãos. Diz o Papa na Encíclica “Fratelli tutti”: “A estatura espiritual duma vida humana é medida pelo amor, que constitui o critério para a decisão definitiva sobre o valor ou a inutilidade duma vida humana. Todavia há crentes que pensam que a sua grandeza está na imposição das suas ideologias aos outros, ou na defesa violenta da verdade, ou em grandes demonstrações de força. Todos nós, crentes, devemos reconhecer isto: em primeiro lugar está o amor, o amor nunca deve ser colocado em risco, o maior perigo é não amar […] O amor implica algo mais do que uma série de ações benéficas… O amor ao outro por ser quem é, impele-nos a procurar o melhor para a sua vida. Só cultivando esta forma de nos relacionarmos é que tornaremos possível aquela amizade social que não exclui ninguém e a fraternidade aberta a todos”.

Esta semana ao falar dos direitos das pessoas homoafetivas, o Papa Francisco quis confirmar que ainda existe, em muitos lugares do mundo, pessoas discriminadas, violentadas, abandonadas e até mortas por causa de sua condição homoafetiva. Isso fere diretamente o respeito à dignidade humana, ao mandamento do amor ao próximo e a fé que temos que todas as pessoas são amadas e queridas por Deus.

Padre Assis Pereira Soares
Pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus.

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