O cântico forte e revolucionário de Maria

Os cristãos católicos celebram hoje uma das mais antigas e importantes festas marianas do Ano Litúrgico: A assunção da Virgem Maria ao céu. Foi Pio XII em 1950 quem promulgou este dogma mariano fazendo-se assim a Igreja eco da fé dos crentes de todos os tempos.

A assunção é uma forma privilegiada de Ressurreição. A assunção da Virgem Maria tem seu sentido da experiência da Ressurreição de Jesus. A Páscoa de Jesus manifesta a emergência de uma nova humanidade, em que Cristo é a cabeça, como novo Adão. Ele abriu a todos as portas do Reino de Deus. Um Reino que começa com Jesus e que chega à sua plenitude na casa do Pai.

A salvação é um processo dinâmico, do qual é sinal poderoso a assunção de Maria.  A assunção recorda-nos que a sua vida, como a de cada cristão, é um caminho no seguimento de Jesus, caminho que tem uma meta: a vitória definitiva sobre o pecado e sobre a morte, e a comunhão plena com Deus. No núcleo da nossa fé na assunção está a nossa fé que Maria, como Cristo seu Filho, já venceu a morte e já triunfa na glória celeste. Na Assunção de Maria contemplamos aquilo a que somos chamados a alcançar no seguimento de Cristo e na obediência à sua Palavra, no final de nossa caminhada terrena.

O Evangelho de São Lucas (cf. Lc 1,39-56) que proclamamos nesta festa litúrgica, relata o encontro de Maria com Isabel. A atitude de Maria, saindo apressadamente ao encontro de quem lhe necessita, é modelo da vocação de serviço de cada cristão. A Igreja é chamada a sair ao encontro de quem necessita. A disponibilidade é uma característica inerente em cada pessoa que tome a sério o Evangelho e o queira fazer vida. Como Maria, não podemos ficar impassíveis ante a necessidade ou sofrimento dos que temos que considerar irmãos.

Existe uma clara cumplicidade entre Maria e Isabel. O que lhes acontece em ambas, a maternidade de ambas, seu estado de esperança, é uma experiência religiosa porque é obra do Espírito. Sua relação passa da familiaridade a uma experiência profunda de fé. Tomam consciência, compartilhando o que estão vivendo cada uma em primeira pessoa, de como Deus quis contar com elas para levar a cabo o momento decisivo da história da Salvação: a encarnação de seu Filho, do qual João Batista será o precursor.

E é o Espírito Santo que abre os olhos de Isabel e a leva a reconhecer em Maria “a mãe do Senhor” e a se considerar indigna de tão importante visita: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre! Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?”(vv. 42-43)

Maria então entoa o “magnificat” (vv. 46-55), este grande poema, oração e profecia que Lucas pôs nos seus lábios, ou melhor, no seu coração, recapitula a esperança messiânica do povo eleito.

O “magnificat” é o canto de duas mulheres que fazem teologia do povo, dos pequenos, dos pobres, dos sem nome, da voz silenciada de tantas mulheres que têm sido testemunhas na história do cuidado que Deus teve por elas e que nós, nem sempre soubemos praticar como Igreja.

O “magnificat” é o canto a um Deus que busca e promete a justiça, a igualdade de direitos, a comunhão de bens e a fraternidade, não uma pura inversão de papéis sociais. Assim o evangelho da salvação eterna é também evangelho da libertação humana. Maria, a primeira cristã, é também a primeira revolucionária na nova ordem.

Na primeira parte do seu cântico Maria agradece a Deus por tudo quanto operou nela (vv. 46-50); depois o louva pelo cumprimento das promessas (vv. 51-55).

Antes de tudo, convém realçar a situação concreta na qual se encontra Maria, depois da anunciação-encarnação e o encontro com Isabel que na velhice está grávida. Ela entoa o seu cântico, cheia de humildade e agradecimento ao Deus de Israel. Maria não fala, nem pensa, em algum mérito seu; se fixa na imensa grandeza e graça de seu Senhor. O que proclama sua alma não é sua própria grandeza, mas sim a “grandeza do Senhor”; se se alegra não é nela mesma, senão “em Deus, meu salvador, porque olhou para a humildade de sua serva” (v. 48); se pensa nos elogios que lhe darão as futuras gerações não crê em nenhum momento que se devam a seus méritos, senão a que “o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor” (v.49).

A segunda parte do cântico é um hino de ação de graças e de louvor coletivo inspirado no cântico de Ana (cf. 1Sm 2,1-10). São surpreendentes as expressões fortes derivadas daquele cântico veterotestamentário e colocadas nos lábios daquela jovem mãe judia. Ela fica verdadeiramente admirada da força, da justiça e do poder do Senhor, porque Ele “mostrou a força de seu braço: dispersou os soberbos de coração. Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias“ (vv. 51-53). Sempre é o Senhor o único grande e digno de louvor: ela só é sua humilde serva.

Neste cântico de Maria se reflete toda a sua alma, toda a sua personalidade. São Lucas apresenta Maria como mulher vigorosa, que exemplifica, como prenúncio, uma transformação na história, com repercussões concretas na situação social do mundo. Ela celebra a salvação operada por Deus em favor dos pobres e dos que vivem à margem, contra as prepotências e opressões provocadas pelo egoísmo e pecado.

O “magnificat” é um cântico forte e revolucionário, cântico da luta de Deus travada na história humana, luta pelo estabelecimento de um mundo de relações igualitárias, de profundo respeito por cada ser em quem habita a divindade. A imagem da mulher grávida, capaz de dar à luz o novo, é a imagem de Deus que, pela força do seu Espírito, dá à luz homens e mulheres dedicados à justiça, vivendo o relacionamento com Deus no relacionamento amoroso com seus semelhantes. O canto de Maria é o “programa do reino de Deus”, paralelo ao discurso programático de Jesus, dito na sinagoga de Nazaré (cf. Lc 4, 16-21).

Maria reconhece a predileção de Deus pelos pobres e abandonados deste mundo. Seu hino antecipa quanto Jesus com sua vida e sua palavra vai deixar claro em todo o Evangelho. O Deus de Jesus é Pai cheio de amor e de misericórdia. Um Deus que acredita no ser humano e sai ao seu encontro.

Ao celebrar a Assunção de Maria, cada um de nós podemos perguntar-nos se vivemos nossa existência como verdadeira história de salvação. Movidos pelo Espírito, necessitamos viver em estado de esperança. Deus, como um dia contou com Maria, quer contar com cada um de nós. Peçamos a sua intercessão para que ela nos ajude a termos disponibilidade e espirito de serviço e saibamos fazer de nossa vida um canto de louvor. Assim poderemos um dia chegar como Maria à glória.

Padre Assis Pereira Soares
Pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus.

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