Centenário de Dom Luís Fernandes: 4º Bispo de Campina Grande
Dom
Genival Saraiva
Bispo Emérito de Palmares (PE)
Aniversários são comemorados anualmente, via de regra. São
diversas as formas de se vivenciar a comemoração de um aniversário, estando
presente ou ausente o aniversariante. De conformidade com a sua personalidade,
há aniversariantes que promovem a comemoração, que a aceitam com alegria, que
aderem à iniciativa, por cortesia, a dispensam ou se ausentam, discretamente.
Algumas datas têm uma significação própria na vida de uma pessoa, de um casal,
de uma família, de uma instituição, daí haver forma especial de comemoração.
Entre essas datas, o centenário de nascimento de uma pessoa se
reveste de significação particular, no universo de seu relacionamento humano e
institucional. Nesse sentido, num período muito próximo, a Igreja no Brasil
está comemorando, provavelmente pela primeira vez, o centenário de nascimento
de quatro bispos – Dom Manuel Edmilson da Cruz, Bispo Emérito de Limoeiro do
Norte-CE, n. 03/10/2024, residindo, atualmente, em Fortaleza, Dom Hildebrando
Mendes Costa, Bispo Emérito de Estância-SE, n. 17/06/1926, com residência em
Arapiraca, Dom Heitor de Araújo Sales, Arcebispo Emérito de Natal-RN, n.
29/07/1926, com residência em Natal, e Dom Pedro Antônio Marchetti Fedalto,
Arcebispo Emérito de Curitiba-PR, n. 11/08/1926, residindo em Curitiba. Trata-se
de uma longevidade abençoada desses homens de Deus, cuja Ação de Graças, vivida
por cada aniversariante no Altar da Eucaristia, é experimentada com a forte
expressão da sua emoção e, felizmente, com a “consciência da razão”, com sua
“capacidade autorreflexiva”.
Por outro lado, não deixa de ter linguagem própria a comemoração
de aniversário de nascimento de pessoa falecida. À sua maneira, a comemoração
“in memoriam” encontra lugar no coração e na mente das pessoas, das famílias e
dos amigos que a promovem, ao considerar sua motivação, sua finalidade. “A
comemoração do centenário de nascimento de uma pessoa falecida é um marco
especial dedicado a celebrar seu legado, manter sua memória viva e reunir a
família e amigos para relembrar sua história.” Longe de ser “culto à
personalidade”, a programação comemorativa contém elementos de natureza
religiosa, cultural, científica, conforme o caso. Certamente, a razão
fundamental da comemoração, chave de leitura preponderante para contemporâneos
e pósteros do homenageado, é o seu “legado de vida” que deve ser compreendido,
na sua essência. “Um legado de vida é o impacto positivo, os ensinamentos e as
memórias que uma pessoa deixa para o mundo e para as próximas gerações.” “Um
legado de vida é o impacto positivo, os ensinamentos, os valores e as
lembranças que uma pessoa deixa nas outras e no mundo ao longo de sua
existência. Vai muito além de bens materiais ou dinheiro; é a marca humana que
continua viva e inspirando gerações futuras mesmo após a partida de alguém.” Esse
legado não se circunscreve à condição terrestre, à esfera dos bens perecíveis,
nem à preservação de determinados valores. Compreende, igualmente, a dimensão
espiritual da existência, a face eterna da vida humana. Por essa razão, o
legado é visto, biblicamente, e personagens são identificadas por seu legado
histórico, religioso, espiritual, a exemplo de Abraão, “o pai da fé”, com “um
legado de confiança incondicional em Deus”, Moisés, “o libertador de Israel”,
com “um legado de liderança e obediência à lei divina”, Davi, “o rei salmista”,
com um legado de adoração profunda”, Jesus Cristo “cujo sacrifício transformou
a história humana”, deixou “o maior legado de amor, graça e salvação eterna,
mudando o destino espiritual de toda a humanidade.”
Sob essa ótica, familiares, amigos e instituições, como a Diocese
de Campina Grande, reverentemente, comemoram o centenário de Dom Luís Gonzaga
Fernandes, que nasceu em Pau dos Ferros, RN, no dia 24 de agosto de 1926, e
faleceu no dia 4 de abril de 2003, em João Pessoa, e fazem esse gesto de
reconhecimento com profundo sentimento de gratidão. Quem conviveu com ele, se
pergunta como ele viveria este 24 de agosto de 2026. Avesso a homenagens
festivas, que o tinham como centro, como referência, porventura, ausentar-se-ia
a cidade, como comumente fazia? Presumivelmente, valer-se-ia da virtude da
humildade e, com simplicidade, se curvaria diante da programação que lhe fosse
apresentada, permaneceria em sua casa, em respeito às pessoas e à comunidade.
Nesse sentido, recordam os membros do clero e os que estavam com ele, mais
proximamente, que assim procedeu, por exemplo, na comemoração do Jubileu Áureo
de sua Ordenação Presbiteral, na tarde do dia 8 de dezembro do ano 2000, na
Concelebração Eucarística no Parque do Povo. Sabia que quem estava sendo
reverenciado, solenemente, era o sacerdócio de Cristo do qual se tornou
partícipe, sacramentalmente, ao exercer, ativamente, como “Alter Christus”, o
sacerdócio ministerial, como presbítero e bispo.
A Arquidiocese da Paraíba tem registros de multiplicadas
atividades do Pe. Luís Fernandes, como sacerdote, professor, reitor, durante
cerca de quinze anos. A Arquidiocese de Vitória-ES tem a marca do ministério de
Dom Luís Fernandes, criativo Bispo Auxiliar, ao longo de dezesseis anos. A
Diocese de Campina Grande foi o chão palmilhado por Dom Luís Fernandes durante
quase vinte anos, entre 17 de outubro de 1981, ao tomar Posse, e 29 de agosto
de 2001, com sua emeritude. Nela “viveu plenamente a experiência humana,
caminhando fisicamente pelo nosso mundo e compartilhando das nossas realidades,
dores e alegrias.”
São muitos os aspectos sobre os quais é possível fazer-se a
leitura do pastoreio de Dom Luís em Campina Grande. Diante da pluralidade
sociocultural, da diversidade sociopolítica no universo diocesano, seu
ministério foi visivelmente exercido com as luzes da razão, da lógica, com o
traço da retidão, da coerência, da autenticidade, da verdade, da sensibilidade
humana, do zelo pastoral, da consciência missionária. Percebia situações com
clarividência. Não estando essa clarividência ao alcance de todos, por motivos
óbvios, em alguns casos, essas situações geraram distanciamento humano e
resistência pastoral. Isso ocorreu, num caso concreto, quando começou o
Encontro da Nova Consciência, em 1992, em Campina Grande, durante o período do
Carnaval. Ele enxergou a importância dessa iniciativa, abraçando-a, pessoal e
institucionalmente, com participação na Comissão de preparação e na realização
desse evento. A posição de Dom Luís estava fundamentada na doutrina do Concílio
Vaticano II, nos termos da Constituição Dogmática Lumen Gentium, ao tratar do
relacionamento da Igreja com os “não cristãos”, da Constituição Pastoral
Gaudium et Spes, ao promover o cultivo do diálogo entre as pessoas e instituições,
e, especialmente, do Decreto Unitatis Redintegratio, sobre o Ecumenismo, ao
favorecer o “conhecimento mútuo dos irmãos” e a “colaboração com os irmãos
separados”, bem como da prática do Diálogo inter-religioso. “O diálogo
inter-religioso não foi criado por uma única pessoa ou entidade, mas é o
resultado de séculos de interação e encontro entre diferentes tradições
religiosas ao redor do mundo.” “Um dos marcos importantes na história do
diálogo inter-religioso foi o Concílio Vaticano II, realizado pela Igreja
Católica Romana entre 1962 e 1965. Nesse concílio, a Igreja reconheceu a
importância do diálogo com outras tradições e promoveu uma abertura
significativa para o ecumenismo e o diálogo inter-religioso.”
A clarividência ministerial de Dom Luís encontrou inspirações e
luzes no triênio de preparação para o Grande Jubileu do Ano 2000, “convocado
pelo Papa João Paulo II na carta apostólica Tertio Millennio Adveniente”, e na
comemoração do Grande Jubileu do Ano 2000. O “Novo Millenio ineunte”, o
terceiro milênio da era cristã “que começou em 1º de janeiro de 2001 e vai
terminar em 31 de dezembro de 3000”, falou à sua razão, em face da “mudança de
época”, já em curso na civilização contemporânea. Por certo, considerou um
grande desafio ao seu pastoreio a estatística do crescimento demográfico da
população e a do registro do número insuficiente de ministros ordenados e de
vocacionados da Diocese de Campina Grande. Seguramente, tocou o seu coração
sacerdotal o estado de desequilíbrio, de discrepância dessa estatística, ao
constatar que seu rebanho necessitava e necessetaria de operários para o
trabalho na messe do Senhor. Entende-se, nesse contexto, seu empenho para a
reabertura do Seminário São João Maria Vianney, no ano 2000, como Seminário
Maior, para oferecer o ensino superior de Filosofia e Teologia. Essa
providência constitui um precioso legado de natureza formativa! O Seminário do
Alto, facilmente localizado no cenário urbanístico de Campina Grande, é
identificado, sobretudo, como casa de formação de futuros presbíteros dessa
“porção do povo de Deus”, a Igreja Particular de Campina Grande, e de outras
Dioceses.
Deus seja louvado pela vida e pelo ministério episcopal de Dom Luís Fernandes na Diocese de Campina Grande. Seu pastoreio, norteado pelo lema episcopal “IN CRISTO JESU”, teve a marca do tempo, enquanto semeadura, e, graças à sua fertilidade, continua produzindo frutos, saboreados eclesialmente, no Planalto da Borborema e alhures.
Créditos da foto: Pe. Rômulo
