Formação Permanente do Clero Debate Inteligência Artificial, Ética e Evangelização no Mundo Digital

Atualizado em 14/05/26 às 19:2613 minutos de leitura50 views

A Formação Permanente do Clero da Diocese de Campina Grande promoveu, entre os dias 12 e 14 de maio, um amplo aprofundamento sobre os desafios éticos, pastorais e antropológicos ligados à Inteligência Artificial e à cultura digital. O encontro reuniu o Bispo Diocesano, Dom Dulcênio Fontes de Matos, além de padres e diáconos da Diocese, em momentos de estudo, partilha e reflexão à luz do Magistério da Igreja, da Doutrina Social e de recentes documentos publicados pela Santa Sé e por organismos eclesiais internacionais.

A formação foi conduzida pelo Padre Janilson Rolim, da Diocese de Cajazeiras, que apresentou reflexões sobre os impactos das novas tecnologias na missão evangelizadora da Igreja e na vida humana, ressaltando a necessidade de um discernimento ético e pastoral diante das transformações provocadas pela cultura digital.

Sobre as reflexões

Entre os textos estudados estiveram a nota Antiqua et Nova, do Dicastério para a Doutrina da Fé e para a Cultura e Educação; o documento “Rome Call for AI Ethics”; reflexões do CELAM; trechos das futuras Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil; além de mensagens do Papa Francisco e do Papa Leão XIV sobre comunicação, redes digitais e discernimento pastoral.

As reflexões destacaram a preocupação da Igreja diante de uma cultura digital cada vez mais invasiva, marcada pela lógica dos algoritmos, da fragmentação das relações humanas e da manipulação das consciências. Os participantes aprofundaram temas ligados à dignidade da pessoa humana, à liberdade, à responsabilidade moral e ao perigo de transformar a tecnologia em substituta da interioridade, da convivência e até mesmo da própria experiência de Deus.

Os estudos recordaram que a Inteligência Artificial pode auxiliar processos administrativos, educativos e comunicacionais, mas jamais substituir aquilo que é próprio do ser humano: a consciência moral, a liberdade, a capacidade de discernimento, o amor, a empatia e a abertura ao transcendente. Também foi ressaltado que a Igreja rejeita tanto a tecnofobia quanto uma adesão ingênua e acrítica às novas tecnologias.

Durante a formação, refletiu-se ainda sobre os impactos da cultura digital na vida espiritual, sobretudo no enfraquecimento da atenção, do silêncio interior e da profundidade das relações. Em diversos momentos, os textos apresentados advertiram para o risco de uma sociedade excessivamente conduzida por algoritmos, fake news, bolhas ideológicas e interesses econômicos que podem instrumentalizar a pessoa humana.

Outro ponto amplamente abordado foi a missão evangelizadora da Igreja nas redes sociais. As reflexões insistiram que o sacerdote não deve ocupar o ambiente digital como celebridade ou influenciador, mas como testemunha do Evangelho. A presença nas redes, segundo os documentos apresentados, deve gerar vínculos, favorecer a escuta, despertar reflexão e conduzir as pessoas ao encontro verdadeiro com Cristo.

A formação também destacou a necessidade de um discernimento ético contínuo sobre o uso das tecnologias emergentes, especialmente da Inteligência Artificial, para que a inovação permaneça sempre a serviço do bem comum, da justiça, da paz e da dignidade humana.

Videoconferência com Pe. Shérmishon Phérikllys

Na parte da tarde deste último dia, os participantes acompanharam uma videoconferência conduzida pelo Padre Shérmishon Phérikllys, sacerdote da Diocese de Campina Grande, que atualmente reside em Roma, onde realiza mestrado em Bioética, com aprofundamento na área da Inteligência Artificial.

Durante sua participação, o sacerdote apresentou reflexões sobre os impactos e desafios da Inteligência Artificial no campo da bioética, evidenciando a importância de um olhar ético e humano diante das rápidas transformações tecnológicas da atualidade.

A conferência também destacou a necessidade de a Igreja estar atenta às novas realidades trazidas pelo avanço da tecnologia, promovendo um diálogo entre fé, ciência e sociedade.

Santa Missa em Ação de Graças pelos 77 anos da Diocese

Em meio à programação da Formação Permanente do Clero, todos se reuniram, na manhã desta quinta-feira, 14 de maio, para celebrar a Santa Missa em ação de graças pelos 77 anos de criação da Diocese de Campina Grande.

A celebração aconteceu na capela do Centro Diocesano e foi presidida por Dom Dulcênio que, no início da Santa Missa, destacou a alegria de celebrar mais um aniversário da Diocese em um momento de comunhão e formação de todo o clero diocesano.

O Padre Luciano Guedes, Vigário Geral, recordou o significado histórico do Centro Diocesano para a vida da Diocese de Campina Grande. Segundo ele, a história da atual casa de formação se confunde com a própria história da Diocese, já que, apenas um ano após a criação da Diocese, em 1950, foi lançada e abençoada a pedra fundamental do terreno onde hoje está localizado o Centro Diocesano, antigo espaço pertencente aos Maristas.

Padre Luciano destacou ainda que celebrar os 77 anos da Diocese naquele espaço representa um verdadeiro motivo de graça e gratidão a Deus, sobretudo por se tratar de uma casa voltada à formação do clero e à vivência da comunhão eclesial. Na ocasião, também expressou agradecimento a Dom Dulcênio Fontes pelos seus oito anos de pastoreio à frente da Diocese de Campina Grande, marcados pela dedicação, cuidado pastoral e contribuição para a caminhada evangelizadora da Igreja Particular.

Homilia de Dom Dulcênio

Dom Dulcênio refletiu sobre a Festa de São Matias e o sentido da sucessão apostólica na vida da Igreja. Inspirado pela leitura dos Atos dos Apóstolos, o bispo destacou que a Igreja é sustentada pela fidelidade de Deus e conduzida pelo Espírito Santo, mesmo diante das fragilidades humanas.

O bispo ressaltou que o chamado apostólico nasce da convivência e da permanência no amor de Cristo. Ao recordar as palavras do Evangelho, Dom Dulcênio enfatizou que a vocação cristã é fruto da graça divina e da amizade com o Senhor.

“Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi’. A teologia de Matias é a teologia do Amor-Permanência. O comando de Jesus, “Permanecei no meu amor”, que no quarto Evangelho indica uma habitação mútua e ininterrupta. A alegria de Matias, e a nossa, reside em saber que o apostolado não é um cargo de poder, mas uma extensão da amizade com Cristo”, disse.

Relacionando a liturgia à Diocese, Dom Dulcênio afirmou que a mesma ação de Deus que guiou a Igreja nascente continua presente na caminhada da Diocese ao longo de seus 77 anos. No coração do Planalto da Borborema, a Igreja permanece firme na missão evangelizadora.

“Essa mesma eleição divina que repousou sobre Matias manifestou-se de forma singular no coração da Paraíba. Hoje, ao celebrarmos os 77 anos da Diocese de Campina Grande, reconhecemos que o Senhor também lançou Sua sorte sobre esta terra do Planalto da Borborema. Assim como a comunidade apostólica se manteve unida na oração, nossa Diocese tem sido, ao longo de quase oito décadas, um farol de fé e resistência no semiárido”, destacou.

Ao concluir, o bispo confiou a Diocese à proteção da Imaculada Conceição e à intercessão de São Matias. Celebrar os 77 anos da Diocese, segundo Dom Dulcênio, é reconhecer a ação providente de Deus na história e renovar o compromisso de continuar anunciando Cristo com esperança e perseverança.

“Campina Grande, sob o olhar vigilante e terno da Imaculada Conceição, nossa padroeira, é uma porção do povo de Deus que aprendeu a “permanecer no amor” mesmo diante dos desafios do tempo. Que a intercessão de São Matias renove em nosso clero e em nosso laicato o zelo missionário, para que a Igreja de Campina continue sendo o lugar onde o Senhor “levanta o fraco” e manifesta Sua glória, protegida sempre pelo manto da Virgem que, no alto da Borborema, nos ensina a fazer tudo o que o Seu Filho disser”, findou.

Encerrando o encontro, os participantes foram convidados a compreender que a missão evangelizadora da Igreja continua a mesma, mesmo diante das transformações tecnológicas do tempo presente: anunciar Jesus Cristo com verdade, prudência, humanidade e esperança. Em meio aos avanços digitais, a Igreja reafirma que nenhuma tecnologia pode substituir o valor da pessoa humana, criada à imagem de Deus e chamada à comunhão, ao amor e à vida plena.

Por: Ascom e Padre Márcio Henrique
Fotos: Pascom Diocesana e Padres


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