Primeira Turma do Clero Diocesano Realiza Retiro Anual no Centro Diocesano São João XXIII

Atualizado em 26/02/26 às 19:1317 minutos de leitura75 views

Entre os dias 23 e 26 de fevereiro de 2026, na primeira semana da Quaresma, 41 padres da Diocese de Campina Grande participaram da primeira turma do Retiro Anual do Clero, realizado no Centro Diocesano de Eventos São João XXIII (Antigo Marista), em Lagoa Seca. O retiro contou com a presença do Bispo Diocesano, Dom Dulcênio Fontes de Matos, e foi orientado por Dom Marcony Vinícius Ferreira, Arcebispo do Ordinariado Militar do Brasil, tendo como tema: “O chamado de Cristo a sermos padres nos dias de hoje”.

Esta foi a primeira vez que o retiro do clero diocesano aconteceu no novo espaço adquirido pela Diocese no ano passado. A divisão do presbitério em duas turmas — sendo a segunda de 2 a 6 de março — visa favorecer maior recolhimento, melhor aproveitamento espiritual e um clima mais intenso de silêncio, fraternidade e interioridade. O novo espaço, agora plenamente inserido na vida pastoral da Diocese, tornou-se cenário providencial para este tempo forte de conversão e renovação sacerdotal.

Desde a acolhida inicial, na segunda-feira à noite, conduzida por Dom Dulcênio, o retiro foi marcado por profundo espírito quaresmal. Invocando as luzes do Espírito Santo, o Bispo Diocesano exortou os presbíteros a viverem aqueles dias como verdadeiro êxodo interior: sair das urgências pastorais, das demandas administrativas e do ritmo acelerado do cotidiano para retornar à fonte da própria vocação.

O chamado a ser padre “nos dias de hoje”

Nas conferências, Dom Marcony partiu de sua experiência pastoral como Arcebispo do Ordinariado Militar, partilhando aspectos concretos do ministério junto às Forças Armadas, ambiente marcado por mobilidade constante, desafios humanos intensos e exigência de presença pastoral firme e serena. A partir dessa vivência, conduziu os padres a uma reflexão profunda sobre a identidade sacerdotal no contexto contemporâneo.

O pregador recordou que o retiro não é simples pausa funcional, mas tempo de reorientação espiritual. Perguntou, de modo provocativo e paterno: quem somos nós como padres hoje?

A distinção entre “ser padre” e “estar padre” tornou-se eixo central das reflexões. O sacerdócio não é um papel circunstancial nem uma função social exercida provisoriamente, mas uma realidade ontológica que configura o homem a Cristo Cabeça e Pastor. O padre não desempenha um ofício externo: ele é sacramentalmente transformado.

A vida sacerdotal à luz da Santíssima Trindade

Um dos pontos mais profundos das conferências foi a contemplação da vida presbiteral à luz do mistério trinitário.

            •          Com o Pai, o sacerdote é gerado e chamado. Tudo vem d’Ele e tudo a Ele retorna. A vocação nasce do coração do Pai. O padre vive da consciência filial e da confiança absoluta naquele que o escolheu.

            •          Com o Filho, o sacerdote encontra seu modelo. À luz de Filipenses 2,5-11, contemplou-se a kenosis de Cristo: humildade, obediência, entrega total e gratuidade. A alteridade do sacerdote — viver para o outro — é reflexo direto da atitude de Cristo.

            •          Com o Espírito Santo, o padre é continuamente inspirado, santificado e sustentado. Os frutos do Espírito não são adorno espiritual, mas virtudes necessárias ao ministério, como: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (Cf. Gl 5,22-23).

À luz de João 17, o pregador sublinhou que o padre é consagrado na verdade e enviado ao mundo, mas sem pertencer ao mundo. Vive na tensão fecunda entre consagração e missão.

Inspirado em Efésios 4, destacou-se que a unidade presbiteral não é simples organização pastoral, mas expressão concreta da comunhão eclesial. A caridade sacerdotal é testemunho visível da presença de Cristo.

Em sintonia com o decreto conciliar Presbyterorum Ordinis (nn. 8 e 12), Dom Marcony recordou que a fraternidade sacerdotal pertence à própria natureza do ministério e que o padre deve buscar constantemente aquilo que favorece sua salvação e a salvação do povo que lhe foi confiado.

Vida de oração: falar com Deus antes de falar de Deus

O eixo estruturante do retiro foi a primazia da oração.

Recordando 1Tm 4, o pregador exortou os presbíteros à vigilância constante sobre si mesmos e sobre a doutrina. A autenticidade pastoral nasce da vida interior. Com força particular, afirmou: “Ofício essencial do padre: falar COM Deus antes mesmo de falar DE Deus.” Essa frase tornou-se síntese espiritual do retiro.

Foram destacados os elementos constitutivos da vida sacerdotal:

            •          Missa diária, centro do dia e fonte da identidade sacerdotal.

            •          Liturgia das Horas, oração oficial da Igreja.

            •          Meditação e alimento constante da Palavra.

            •          Confissão frequente.

            •          Adoração ao Santíssimo Sacramento.

            •          Devoção mariana.

            •          Caridade concreta aos pobres.

Recordou-se ainda que há gestos que pertencem exclusivamente ao sacerdote: celebrar a Eucaristia, absolver no Sacramento da Penitência e ungir os enfermos. Tais atos manifestam a singularidade do sacerdócio ministerial.

Foi apresentado o “tripé salvífico” da ação da Igreja: Evangelização, Catequese e Liturgia — dimensões que devem brotar da intimidade com Deus.

Fraternidade e caridade presbiteral

A fraternidade foi tratada não como aspecto secundário, mas como condição de perseverança e santidade.

Dom Marcony recordou orientações recentes do Papa Leão XIV aos presbíteros: amizade sacerdotal, cuidado com a inveja clerical, humildade, estudo conjunto, proximidade com padres idosos e testemunho aos jovens.

O pregador destacou que a unidade presbiteral é força missionária. Padres divididos enfraquecem o testemunho; padres unidos tornam visível o Cristo que reúne.

O clima do retiro foi marcado por silêncio, recolhimento e verdadeira comunhão fraterna, vividos no coração da Quaresma.

Um momento de comunhão na dor

Na terça-feira, após a conferência da tarde, com licença de Dom Dulcênio, os padres dirigiram-se ao Lar Sacerdotal São João Maria Vianney para participar da missa exequial do Pe. Dorivaldo de Souza, falecido naquele mesmo dia, 24 de fevereiro.

A celebração reuniu os sacerdotes do retiro, o bispo diocesano, o bispo pregador, demais padres e numerosos fiéis de várias localidades da Diocese.

O momento foi marcado por profunda comoção, mas também por forte experiência de esperança cristã. Celebrar a páscoa de um irmão sacerdote no contexto do retiro deu ainda mais densidade espiritual àqueles dias, recordando a todos a dimensão escatológica da vocação presbiteral.

Após a celebração, o grupo retornou ao Centro Diocesano, retomando o recolhimento e a oração.

Estrutura espiritual do retiro

A dinâmica diária foi estruturada em torno da Liturgia das Horas, conferências com exposição do Santíssimo, tempos prolongados de meditação pessoal, celebração diária da Eucaristia com Vésperas, Momento Mariano e Celebração Penitencial com confissões individuais.

O ritmo harmonizou oração comunitária e silêncio pessoal, escuta e interiorização, fortalecendo o espírito de conversão próprio da Quaresma.

O sacerdote e a Virgem Maria

Na conferência conclusiva da manhã, Dom Marcony aprofundou a dimensão mariana do sacerdócio. O pregador apresentou a Virgem Maria como modelo permanente para o presbítero, destacando nela virtudes fundamentais à vida sacerdotal: humildade, fé, disposição interior, prontidão ao chamado e sabedoria espiritual.

Recordou que Maria é “cheia de graça” (cf. Lc 1,28) e que também o sacerdote é chamado a viver nessa plenitude da graça, permitindo que Deus realize nele Sua obra. A firmeza de Maria ao pé da cruz foi apresentada como paradigma da perseverança sacerdotal: permanecer de pé, sem desanimar, mesmo quando faltam respostas humanas e consoladoras.

O sacerdote que se espelha em Maria, afirmou o pregador, gera constantemente Cristo para si e para os outros. Assim como a Virgem O concebeu no silêncio da fé e O ofereceu ao mundo, o padre é chamado a conceber Cristo na intimidade da oração e a gerá-Lo sacramentalmente na Eucaristia e na vida pastoral.

Apresentação da Carta Apostólica sobre a fidelidade sacerdotal

Na tarde do último dia, os padres participaram da apresentação da Carta Apostólica “Uma fidelidade que gera futuro”, publicada por Papa Leão XIV em 08 de dezembro de 2025, por ocasião do LX aniversário dos decretos conciliares Optatam Totius e Presbyterorum Ordinis.

A exposição foi conduzida pelo Pe. Joseque Borges, que apresentou os principais pontos do documento, sublinhando a fidelidade sacerdotal como caminho de fecundidade espiritual. A carta reafirma que a perseverança no ministério não é mera resistência funcional, mas resposta amorosa e constante à graça recebida.

Recordou-se que a fidelidade do sacerdote é participação na própria fidelidade de Cristo à Igreja. Quando vivida com autenticidade, ela gera fruto: santidade pessoal, edificação do povo de Deus e solidez da comunhão presbiteral.

Santa missa de encerramento

A Santa missa, presidida pelo Bispo Diocesano, Dom Dulcênio, marcou o encerramento do retiro.

Em sua homilia, o bispo propôs a “exegese do clamor” a partir do Livro de Ester, destacando a oração como reconhecimento da própria vulnerabilidade. Assim como Ester, que diante da ameaça recorre ao Senhor, o sacerdote é chamado a deixar-se vulnerabilizar por Deus.

“Caros padres, depois de alguns dias em retiro, encerramos esse nosso retirar-se em Deus e para Deus com uma exegese que eu posso chamar de “a exegese do clamor”; porque a leitura de Ester nos apresenta a oração em sua forma mais pura: o reconhecimento da própria vulnerabilidade. E quantas vezes não nos sentimos vulneráveis? Aliás, o retiro em nossa vida é para nos vulnerabilizar a Deus em nossa vida”, iniciou.

Em sintonia com o salmo, o bispo ressaltou que Deus nem sempre remove o problema, mas fortalece o coração. No Evangelho, o “Pedi, buscai, batei” revela a pedagogia da perseverança confiante.

“A resposta de Deus nem sempre é a remoção imediata do problema, contudo, o fortalecimento interno do orante para enfrentar a batalha... Sabe por quê? Porque Deus responde dilatando o coração de quem pede.... Quem experimenta a generosidade de Deus ao ‘bater à porta’ do céu deve tornar-se uma porta aberta para os irmãos na terra”, disse.

Inspirado nos ensinamentos do Papa Leão XIV, Dom Dulcênio alertou para o uso responsável da tecnologia na evangelização. Recordou que a homilia nasce da escuta da Palavra e da vida, não de algoritmos. Advertiu contra a vaidade por likes e seguidores, reafirmando que a missão digital só tem sentido quando enraizada na oração e centrada em Cristo.

“Esta reflexão nasce da escuta das escrituras e da vida, e não de algoritmos. Caros, padres, a homilia é e deve ser um encontro vivo entre a Palavra e a realidade da comunidade, inclusive, clerical. Portanto, cuidado com a Tecnologia na Evangelização! Quero alerta-lhes a alguns pontos de atenção: Autenticidade na Pregação; Foco na Mensagem central; Segurança e Vigilância; Combate ao Isolamento e Dignidade Humana”, pregou.

O bispo também ecoou a denúncia do Papa Leão XIV sobre a “inveja clerical”, que fere a unidade. Exortou os padres a romperem o isolamento, cultivando amizade e convivência fraterna. Rejeitar a “pedra” da rivalidade para oferecer o “pão” da comunhão é a tradução concreta da Regra de Ouro e o testemunho que fortalece a Igreja.

“Não tenhamos medo de bater à porta do outro, de tomar a iniciativa, de dizer aos companheiros: por que não nos reunimos de vez em quando, para estudar juntos, refletir juntos, um momento de oração e depois um bom almoço? O pároco com a melhor cozinheira pode convidar os outros, e assim fazemos um bom almoço juntos”. É preciso “criar situações para quebrar essa tendência que nos leva à solidão, ao isolamento uns dos outros”. Sejam os primeiros testemunhos do valor imenso da vida fraterna”, trouxe.

Concluiu sua pregação dizendo: “Viver essa unidade presbiteral é a tradução prática da Regra de Ouro de Jesus, transformando a oração pessoal em um testemunho visível de que, tanto na juventude quanto na dor da velhice, o valor imenso da vida se manifesta na iniciativa de “bater à porta” do irmão e caminhar juntos, enraizados não em likes, mas na Verdade que sustenta a Igreja”, findou.

A segunda turma do Retiro Anual do Clero será realizada de 2 a 6 de março, também no Centro Diocesano São João XXIII, dando continuidade a este tempo de graça para o presbitério diocesano.

Com informações: Pe. Danilo César
Fotos: Padres participantes



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