Primeira Turma do Clero Diocesano Realiza Retiro Anual no Centro Diocesano São João XXIII
Entre
os dias 23 e 26 de fevereiro de 2026, na primeira semana da Quaresma, 41 padres
da Diocese de Campina Grande participaram da primeira turma do Retiro Anual do
Clero, realizado no Centro Diocesano de Eventos São João XXIII (Antigo
Marista), em Lagoa Seca. O retiro contou com a presença do Bispo Diocesano, Dom
Dulcênio Fontes de Matos, e foi orientado por Dom Marcony Vinícius Ferreira,
Arcebispo do Ordinariado Militar do Brasil, tendo como tema: “O chamado de
Cristo a sermos padres nos dias de hoje”.
Esta
foi a primeira vez que o retiro do clero diocesano aconteceu no novo espaço
adquirido pela Diocese no ano passado. A divisão do presbitério em duas turmas
— sendo a segunda de 2 a 6 de março — visa favorecer maior recolhimento, melhor
aproveitamento espiritual e um clima mais intenso de silêncio, fraternidade e
interioridade. O novo espaço, agora plenamente inserido na vida pastoral da
Diocese, tornou-se cenário providencial para este tempo forte de conversão e
renovação sacerdotal.
Desde
a acolhida inicial, na segunda-feira à noite, conduzida por Dom Dulcênio, o
retiro foi marcado por profundo espírito quaresmal. Invocando as luzes do
Espírito Santo, o Bispo Diocesano exortou os presbíteros a viverem aqueles dias
como verdadeiro êxodo interior: sair das urgências pastorais, das demandas
administrativas e do ritmo acelerado do cotidiano para retornar à fonte da
própria vocação.
O
chamado a ser padre “nos dias de hoje”
Nas conferências, Dom Marcony partiu de sua experiência pastoral como Arcebispo do Ordinariado Militar, partilhando aspectos concretos do ministério junto às Forças Armadas, ambiente marcado por mobilidade constante, desafios humanos intensos e exigência de presença pastoral firme e serena. A partir dessa vivência, conduziu os padres a uma reflexão profunda sobre a identidade sacerdotal no contexto contemporâneo.
O
pregador recordou que o retiro não é simples pausa funcional, mas tempo de
reorientação espiritual. Perguntou, de modo provocativo e paterno: quem somos
nós como padres hoje?
A
distinção entre “ser padre” e “estar padre” tornou-se eixo central das
reflexões. O sacerdócio não é um papel circunstancial nem uma função social
exercida provisoriamente, mas uma realidade ontológica que configura o homem a
Cristo Cabeça e Pastor. O padre não desempenha um ofício externo: ele é
sacramentalmente transformado.
A
vida sacerdotal à luz da Santíssima Trindade
Um
dos pontos mais profundos das conferências foi a contemplação da vida
presbiteral à luz do mistério trinitário.
• Com
o Pai, o sacerdote é gerado e chamado. Tudo vem d’Ele e tudo a Ele retorna. A
vocação nasce do coração do Pai. O padre vive da consciência filial e da
confiança absoluta naquele que o escolheu.
• Com
o Filho, o sacerdote encontra seu modelo. À luz de Filipenses 2,5-11,
contemplou-se a kenosis de Cristo: humildade, obediência, entrega total e
gratuidade. A alteridade do sacerdote — viver para o outro — é reflexo direto
da atitude de Cristo.
• Com
o Espírito Santo, o padre é continuamente inspirado, santificado e sustentado.
Os frutos do Espírito não são adorno espiritual, mas virtudes necessárias ao
ministério, como: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade,
fidelidade, mansidão e domínio próprio (Cf. Gl 5,22-23).
À luz de João 17, o pregador sublinhou que o padre é consagrado na verdade e enviado ao mundo, mas sem pertencer ao mundo. Vive na tensão fecunda entre consagração e missão.
Inspirado
em Efésios 4, destacou-se que a unidade presbiteral não é simples organização
pastoral, mas expressão concreta da comunhão eclesial. A caridade sacerdotal é
testemunho visível da presença de Cristo.
Em
sintonia com o decreto conciliar Presbyterorum Ordinis (nn. 8 e 12), Dom Marcony
recordou que a fraternidade sacerdotal pertence à própria natureza do
ministério e que o padre deve buscar constantemente aquilo que favorece sua
salvação e a salvação do povo que lhe foi confiado.
Vida
de oração: falar com Deus antes de falar de Deus
O
eixo estruturante do retiro foi a primazia da oração.
Recordando
1Tm 4, o pregador exortou os presbíteros à vigilância constante sobre si mesmos
e sobre a doutrina. A autenticidade pastoral nasce da vida interior. Com força
particular, afirmou: “Ofício essencial do padre: falar COM Deus antes mesmo de
falar DE Deus.” Essa frase tornou-se síntese espiritual do retiro.
Foram
destacados os elementos constitutivos da vida sacerdotal:
• Missa
diária, centro do dia e fonte da identidade sacerdotal.
• Liturgia
das Horas, oração oficial da Igreja.
• Meditação
e alimento constante da Palavra.
• Confissão
frequente.
• Adoração
ao Santíssimo Sacramento.
• Devoção
mariana.
• Caridade
concreta aos pobres.
Recordou-se
ainda que há gestos que pertencem exclusivamente ao sacerdote: celebrar a
Eucaristia, absolver no Sacramento da Penitência e ungir os enfermos. Tais atos
manifestam a singularidade do sacerdócio ministerial.
Foi
apresentado o “tripé salvífico” da ação da Igreja: Evangelização, Catequese e
Liturgia — dimensões que devem brotar da intimidade com Deus.
Fraternidade
e caridade presbiteral
A
fraternidade foi tratada não como aspecto secundário, mas como condição de
perseverança e santidade.
Dom
Marcony recordou orientações recentes do Papa Leão XIV aos presbíteros: amizade
sacerdotal, cuidado com a inveja clerical, humildade, estudo conjunto,
proximidade com padres idosos e testemunho aos jovens.
O
pregador destacou que a unidade presbiteral é força missionária. Padres
divididos enfraquecem o testemunho; padres unidos tornam visível o Cristo que
reúne.
O
clima do retiro foi marcado por silêncio, recolhimento e verdadeira comunhão
fraterna, vividos no coração da Quaresma.
Um
momento de comunhão na dor
Na
terça-feira, após a conferência da tarde, com licença de Dom Dulcênio, os
padres dirigiram-se ao Lar Sacerdotal São João Maria Vianney para participar da
missa exequial do Pe. Dorivaldo de Souza, falecido naquele mesmo dia, 24 de
fevereiro.
A
celebração reuniu os sacerdotes do retiro, o bispo diocesano, o bispo pregador,
demais padres e numerosos fiéis de várias localidades da Diocese.
O
momento foi marcado por profunda comoção, mas também por forte experiência de
esperança cristã. Celebrar a páscoa de um irmão sacerdote no contexto do retiro
deu ainda mais densidade espiritual àqueles dias, recordando a todos a dimensão
escatológica da vocação presbiteral.
Após
a celebração, o grupo retornou ao Centro Diocesano, retomando o recolhimento e
a oração.
Estrutura
espiritual do retiro
A
dinâmica diária foi estruturada em torno da Liturgia das Horas, conferências
com exposição do Santíssimo, tempos prolongados de meditação pessoal,
celebração diária da Eucaristia com Vésperas, Momento Mariano e Celebração
Penitencial com confissões individuais.
O
ritmo harmonizou oração comunitária e silêncio pessoal, escuta e
interiorização, fortalecendo o espírito de conversão próprio da Quaresma.
O
sacerdote e a Virgem Maria
Na
conferência conclusiva da manhã, Dom Marcony aprofundou a dimensão mariana do
sacerdócio. O pregador apresentou a Virgem Maria como modelo permanente para o
presbítero, destacando nela virtudes fundamentais à vida sacerdotal: humildade,
fé, disposição interior, prontidão ao chamado e sabedoria espiritual.
Recordou
que Maria é “cheia de graça” (cf. Lc 1,28) e que também o sacerdote é chamado a
viver nessa plenitude da graça, permitindo que Deus realize nele Sua obra. A
firmeza de Maria ao pé da cruz foi apresentada como paradigma da perseverança
sacerdotal: permanecer de pé, sem desanimar, mesmo quando faltam respostas
humanas e consoladoras.
O
sacerdote que se espelha em Maria, afirmou o pregador, gera constantemente
Cristo para si e para os outros. Assim como a Virgem O concebeu no silêncio da
fé e O ofereceu ao mundo, o padre é chamado a conceber Cristo na intimidade da
oração e a gerá-Lo sacramentalmente na Eucaristia e na vida pastoral.
Apresentação
da Carta Apostólica sobre a fidelidade sacerdotal
Na
tarde do último dia, os padres participaram da apresentação da Carta Apostólica
“Uma fidelidade que gera futuro”, publicada por Papa Leão XIV em 08 de dezembro
de 2025, por ocasião do LX aniversário dos decretos conciliares Optatam Totius
e Presbyterorum Ordinis.
A
exposição foi conduzida pelo Pe. Joseque Borges, que apresentou os principais
pontos do documento, sublinhando a fidelidade sacerdotal como caminho de
fecundidade espiritual. A carta reafirma que a perseverança no ministério não é
mera resistência funcional, mas resposta amorosa e constante à graça recebida.
Recordou-se
que a fidelidade do sacerdote é participação na própria fidelidade de Cristo à
Igreja. Quando vivida com autenticidade, ela gera fruto: santidade pessoal,
edificação do povo de Deus e solidez da comunhão presbiteral.
Santa
missa de encerramento
A
Santa missa, presidida pelo Bispo Diocesano, Dom Dulcênio, marcou o
encerramento do retiro.
Em
sua homilia, o bispo propôs a “exegese do clamor” a partir do Livro de Ester,
destacando a oração como reconhecimento da própria vulnerabilidade. Assim como
Ester, que diante da ameaça recorre ao Senhor, o sacerdote é chamado a deixar-se
vulnerabilizar por Deus.
“Caros
padres, depois de alguns dias em retiro, encerramos esse nosso retirar-se em
Deus e para Deus com uma exegese que eu posso chamar de “a exegese do clamor”;
porque a leitura de Ester nos apresenta a oração em sua forma mais pura: o
reconhecimento da própria vulnerabilidade. E quantas vezes não nos sentimos
vulneráveis? Aliás, o retiro em nossa vida é para nos vulnerabilizar a Deus em
nossa vida”, iniciou.
Em
sintonia com o salmo, o bispo ressaltou que Deus nem sempre remove o problema,
mas fortalece o coração. No Evangelho, o “Pedi, buscai, batei” revela a
pedagogia da perseverança confiante.
“A
resposta de Deus nem sempre é a remoção imediata do problema, contudo, o
fortalecimento interno do orante para enfrentar a batalha... Sabe por quê?
Porque Deus responde dilatando o coração de quem pede.... Quem experimenta a
generosidade de Deus ao ‘bater à porta’ do céu deve tornar-se uma porta aberta
para os irmãos na terra”, disse.
Inspirado
nos ensinamentos do Papa Leão XIV, Dom Dulcênio alertou para o uso responsável
da tecnologia na evangelização. Recordou que a homilia nasce da escuta da
Palavra e da vida, não de algoritmos. Advertiu contra a vaidade por likes e
seguidores, reafirmando que a missão digital só tem sentido quando enraizada na
oração e centrada em Cristo.
“Esta
reflexão nasce da escuta das escrituras e da vida, e não de algoritmos. Caros,
padres, a homilia é e deve ser um encontro vivo entre a Palavra e a realidade
da comunidade, inclusive, clerical. Portanto, cuidado com a Tecnologia na
Evangelização! Quero alerta-lhes a alguns pontos de atenção: Autenticidade na
Pregação; Foco na Mensagem central; Segurança e Vigilância; Combate ao
Isolamento e Dignidade Humana”, pregou.
O
bispo também ecoou a denúncia do Papa Leão XIV sobre a “inveja clerical”, que
fere a unidade. Exortou os padres a romperem o isolamento, cultivando amizade e
convivência fraterna. Rejeitar a “pedra” da rivalidade para oferecer o “pão” da
comunhão é a tradução concreta da Regra de Ouro e o testemunho que fortalece a
Igreja.
“Não
tenhamos medo de bater à porta do outro, de tomar a iniciativa, de dizer aos
companheiros: por que não nos reunimos de vez em quando, para estudar juntos,
refletir juntos, um momento de oração e depois um bom almoço? O pároco com a
melhor cozinheira pode convidar os outros, e assim fazemos um bom almoço
juntos”. É preciso “criar situações para quebrar essa tendência que nos leva à
solidão, ao isolamento uns dos outros”. Sejam os primeiros testemunhos do valor
imenso da vida fraterna”, trouxe.
Concluiu
sua pregação dizendo: “Viver essa unidade presbiteral é a tradução prática da
Regra de Ouro de Jesus, transformando a oração pessoal em um testemunho visível
de que, tanto na juventude quanto na dor da velhice, o valor imenso da vida se
manifesta na iniciativa de “bater à porta” do irmão e caminhar juntos,
enraizados não em likes, mas na Verdade que sustenta a Igreja”, findou.
A
segunda turma do Retiro Anual do Clero será realizada de 2 a 6 de março, também
no Centro Diocesano São João XXIII, dando continuidade a este tempo de graça
para o presbitério diocesano.
Com
informações: Pe. Danilo César
Fotos: Padres participantes











































