Santa Missa Marca o Encerramento do Lançamento da Campanha da Fraternidade do Regional Nordeste 2
Após uma manhã intensa de formação, reflexão e partilha sobre o
tema da Campanha da Fraternidade 2026 — “Fraternidade e Moradia” — e o lema
“Ele veio morar entre nós”, o lançamento promovido pelo CNBB Regional Nordeste
2 foi encerrado com a celebração da Santa Missa na tarde desta sexta-feira, 20
de fevereiro. O momento reuniu bispos, padres, diáconos e fiéis leigos das
dioceses dos estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Alagoas,
fortalecendo a comunhão e a unidade pastoral do Regional.
A celebração aconteceu na Paróquia São João Paulo II e Nossa
Senhora de Fátima, localizada no bairro habitacional Aluísio Campos, em Campina
Grande, um cenário que dialoga diretamente com o tema da campanha. A Santa
Missa foi presidida por Dom Francisco de Sales, Bispo Presidente do Regional
Nordeste 2, e contou com a pregação do Bispo anfitrião, Dom Dulcênio Fontes de
Matos, que destacou a necessidade de a Igreja ser presença concreta junto às
famílias que mais necessitam de moradia digna.
Sobre o Conjunto Habitacional Aluísio Campos:
O conjunto habitacional do bairro Aluísio Campos, entregue em 2019
com 4.100 unidades habitacionais destinadas a famílias em situação de
vulnerabilidade social, é hoje um dos maiores conjuntos habitacionais da
região. Antes mesmo da conclusão das casas, a Igreja Particular de Campina
Grande, motivada pelo espírito de “Igreja em saída” tão incentivado pelo Papa
Papa Francisco, iniciou a construção da igreja matriz.
Em sua fala de acolhida, o Pároco, Padre Rodolfo Lucena, recordou
o processo de implantação do bairro e os primeiros passos da presença da Igreja
no local, destacando o empenho missionário desde a chegada de Dom Dulcênio à
diocese. Ele ressaltou o que chamou de “milagre da Paróquia no Aluísio Campos”,
referindo-se ao impacto social e pastoral da iniciativa que uniu política
pública e ação evangelizadora em favor das famílias que ali passaram a residir.
Ao final da celebração, Dom Paulo Jackson, Bispo Referencial para
as Campanhas no Regional, agradeceu a acolhida fraterna da Diocese de Campina
Grande e a dedicação de todos os envolvidos na organização do evento. Em sua
exortação, convidou os fiéis a viverem concretamente a Campanha da
Fraternidade, permitindo que ela produza frutos de conversão e gestos reais de
solidariedade.
Dom Francisco de Sales também expressou gratidão à Diocese de
Campina Grande, na pessoa de Dom Dulcênio, destacando a alegria de estar em
solo campinense e a hospitalidade recebida. Em sua mensagem final, exortou os presentes
a responderem com sinceridade ao chamado quaresmal de penitência, conversão e
solidariedade, preparando-se com autenticidade para a Páscoa do Senhor.
Após a Missa, foi abençoado e inaugurado o monumento “Jesus sem
teto”, inspirado no cartaz oficial da Campanha da Fraternidade deste ano. A
obra, que já possui réplicas em cidades como Toronto, Cafarnaum, na sede da
ONU, no Rio de Janeiro e em Roma, agora também está presente em Campina Grande.
O monumento torna visível a realidade de tantas pessoas que não possuem moradia
e reforça o apelo da Igreja para que a sociedade se comprometa com a dignidade
humana, fazendo da fraternidade um caminho concreto de transformação social.
Homilia de Dom Dulcênio
Dom Dulcênio convidou a uma “arqueologia do coração”, propondo uma
conversão que ultrapasse práticas externas. Recordou que fomos criados para
Deus e só n’Ele encontramos repouso; contudo, essa morada espiritual se concretiza
no cuidado com o irmão.
“Não se trata apenas de mudar comportamentos externos, mas de
permitir que a Palavra de Deus julgue as nossas estruturas de vida. Além de
realizar (em nós) uma profunda metanóia. Fomos criados por Ele e para Ele, e
nossa alma só repousa quando “mora” na Sua vontade. No entanto, essa “morada em
Deus” não é uma abstração; ela se encarna na forma como cuidamos uns dos outros
nesta nossa casa comum”, iniciou a pregação.
Ao refletir sobre Isaías, o Bispo denunciou o jejum vazio e
destacou que o verdadeiro culto passa pela justiça: libertar, repartir e
acolher. A terra é dom divino e bem comum; por isso, a moradia digna não é
privilégio, mas expressão da dignidade humana.
“o verdadeiro jejum não é subir a voz ao céu, mas abaixar-se até o
oprimido. [...] Quando a Campanha da Fraternidade 2026 nos fala de Moradia, ela
se fundamenta neste imperativo de Isaías: “recolher em casa os pobres sem
abrigo”. No hebraico, a expressão para “pobres sem abrigo” alude aos
“errantes”, àqueles que perderam o seu lugar no mundo. Teologicamente, privar
alguém de um teto é uma forma de exílio forçado dentro da própria pátria”,
pregou.
Meditando o Evangelho — “Ele armou sua tenda entre nós” (Jo 1,14)
— Dom Dulcênio apresentou a Encarnação como fundamento da teologia da
habitação. Deus não apenas visitou a humanidade, mas fez-Se morador da nossa
história, identificando-Se com os desabrigados de todos os tempos.
“Ele armou sua tenda” (Jo 1, 14). O lema desta Campanha, “Ele veio
morar entre nós”, traz o verbo grego eskenosen (de skene, tenda). Há aqui uma
profundidade teológica imensa: A Tenda do Encontro: No Êxodo, a tenda era o
lugar da Shekinah (da Glória de Deus). Ou seja, estamos diante do mistério da
Encarnação como Moradia: ao se encarnar, Deus não apenas “visitou” a
humanidade; Ele se tornou “inquilino” da nossa história; morador no mundo”.
Por fim, exortou a Igreja a ser casa de portas abertas e
comunidade acolhedora. Recordou, em sintonia com o chamado de Papa Leão XIV,
que a fraternidade vence o egoísmo e reconstrói laços. A Eucaristia deve nos
impulsionar a garantir não só o pão do altar, mas também o “pão do teto”.
“como podemos dizer que “moramos em Deus” se fechamos o coração
para o irmão que não tem onde morar? A fraternidade com Deus exige a
fraternidade com o próximo. [...] A fraternidade concedida por Cristo
liberta-nos da lógica negativa do egoísmo, da divisão e da prepotência, e nos
reconduz à nossa vocação original, em nome de um amor e de uma esperança que se
renovam todos os dias”, findou.
Por:
Ascom
Fotos: Pascom Diocesana
Confira a homilia de Dom Dulcênio na íntegra:
A Tenda de Deus e o Teto do Irmão
Amados irmãos e irmãs, nesta caminhada quaresmal, a Palavra de
Deus nos convida a uma arqueologia do coração. Não se trata apenas de mudar
comportamentos externos, mas de permitir que a Palavra de Deus julgue as nossas
estruturas de vida. Além de realizar (em nós) uma profunda metanóia. O
Catecismo da Igreja Católica, por exemplo, nos recorda uma verdade
antropológica e espiritual imutável: a vocação do homem é estar voltado para
Deus (CIC, 27). Fomos criados por Ele e para Ele, e nossa alma só repousa
quando “mora” na Sua vontade. No entanto, essa “morada em Deus” não é uma
abstração; ela se encarna na forma como cuidamos uns dos outros nesta nossa
casa comum.
No texto de Isaías, encontramos uma denúncia contra o “ritualismo
performático”. Percebemos que segundo o Profeta, o povo praticava o jejum como
uma técnica de barganha com a divindade. Deus, porém, inverte a lógica: o
verdadeiro jejum não é subir a voz ao céu, mas abaixar-se até o oprimido. O
profeta, ousa mais, pois, utiliza verbos de ação social: soltar, desatar,
quebrar, repartir.
A teologia bíblica, meus irmãos, ensina que a “terra” é um
presente de Deus. Ora, na história de Israel, a posse da terra nunca foi
absoluta, mas relativa à aliança com o Criador. O Povo de Deus, outrora
escravizado no Egito, foi conduzido à Terra Prometida não para repetir o
sistema de opressão, mas para viver a fraternidade. Isto quer dizer que, a
Bíblia é clara: a terra é um bem comum. Quando os profetas levantavam a voz
contra aqueles que “juntavam casa a casa e campo a campo”, eles não faziam
política partidária, mas recordavam o plano original de Deus. A moradia digna é
um direito que nasce da dignidade de sermos imagem e semelhança de Deus, e não
um mérito que se conquista por esforço isolado.
Quando a Campanha da Fraternidade 2026 nos fala de Moradia, ela se
fundamenta neste imperativo de Isaías: “recolher em casa os pobres sem abrigo”.
No hebraico, a expressão para “pobres sem abrigo” alude aos “errantes”, àqueles
que perderam o seu lugar no mundo. Teologicamente, privar alguém de um teto é
uma forma de exílio forçado dentro da própria pátria.
Não tenho dúvidas de que hoje foi o dia que o Senhor não só fez
para nós, contudo, também designou para abrirmos a Campanha em nosso Regional,
tendo em vista as leituras que, com grande maestria se afinam ao que meditamos
e discutimos durante todo esse dia e, iremos vivenciar durante esse período
quaresmal: A Teologia da Habitação. “Ele armou sua tenda” (Jo 1, 14). O lema
desta Campanha, “Ele veio morar entre nós”, traz o verbo grego eskenosen (de
skene, tenda). Há aqui uma profundidade teológica imensa: A Tenda do Encontro:
No Êxodo, a tenda era o lugar da Shekinah (da Glória de Deus). Ou seja, estamos
diante do mistério da Encarnação como Moradia: ao se encarnar, Deus não apenas
“visitou” a humanidade; Ele se tornou “inquilino” da nossa história; morador no
mundo.
Se o Verbo se fez carne e “habitou” (armou sua tenda), o corpo
humano e o espaço onde esse corpo descansa tornam-se sagrados. A falta de
moradia digna é, portanto, uma profanação do mistério da Encarnação. Se Cristo
não teve “onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20), foi para identificar-se com os
desabrigados de todos os tempos, tornando-se Ele mesmo o fundamento de nossa
esperança.
Contemplemos, por exemplo, o mistério da Encarnação sob a ótica da
moradia:
1. Em Belém: Jesus
nasce em um estábulo porque “não havia lugar para eles na hospedaria”. A
Sagrada Família viveu a realidade de migrantes e refugiados.
2. Em Nazaré: Jesus
cresce na periferia. Se Nazaré fosse hoje, seria uma comunidade popular, muitas
vezes estigmatizada.
3. Na Vida Pública: O
Filho do Homem não tinha onde reclinar a cabeça, fazendo das casas dos
discípulos e amigos o espaço da partilha.
A Igreja, portanto, ao defender o direito à moradia, não segue uma
ideologia humana, mas imita o seu Senhor. Quando alguém é privado de um teto
por desemprego, conflitos ou injustiça, é a própria “carne de Cristo” que sofre
a intempérie.
Peço até licença aos meus irmãos para aprofundar ainda mais sobre
o Evangelho intitulando-o como “O Mistério do Noivo e da Escatologia”, uma vez
que no Evangelho, a imagem do Noivo é central e na teologia bíblica, o banquete
nupcial exige uma casa, um lar preparado.
Alguém tem alguma dúvida de que Jesus é o Noivo que inaugura o
tempo da Graça? O jejum que os discípulos farão “quando o noivo for tirado” é o
jejum da saudade, mas também o jejum da vigilância. Jejuamos para que o Reino
venha. E o Reino de Deus, na visão bíblica, é frequentemente descrito como uma
cidade (a Nova Jerusalém) onde há moradas para todos.
Portanto, o jejum quaresmal deste ano deve ser uma ascese; um
voltar-se à hospitalidade. Como Bispo, recordo-lhes que a Igreja é, por definição,
“casa de portas abertas”, porém, não adianta portas abertas se não há quem
acolha após os umbrais abertos. As nossas Dioceses não podem ser apenas
estruturas administrativas, contudo, comunidades que lutam para que cada
família tenha a estabilidade de um lar, refletindo a estabilidade do amor de
Deus por nós. A responsabilidade do cristão deve ser, morar em Deus, servir no
Mundo, porque a nossa vocação é a comunhão com Deus. Mas, como podemos dizer
que “moramos em Deus” se fechamos o coração para o irmão que não tem onde
morar? A fraternidade com Deus exige a fraternidade com o próximo. O que
queremos nesta Quaresma?
1. Ver a Realidade:
Superar o preconceito de que quem vive na rua é “preguiçoso”. Muitas vezes são
vítimas de dependência, violência ou abandono social.
2. Discernir a
Justiça: Entender que a casa é o santuário da vida, onde os vínculos familiares
são tecidos. Sem moradia, a família, “Igreja Doméstica”, fica fragilizada.
3. Agir como
Comunidade: Como as primeiras comunidades cristãs em Atos dos Apóstolos,
precisamos entender que a cidade é um bem comum. Uma cidade que exclui não
reflete o Reino de Deus.
De Belém à Jerusalém Celeste deve ser o nosso ímpeto. É um mandato
para nós: nossas casas e nossa Igreja devem ser lugares de hospitalidade e
solidariedade. O pão da Eucaristia que recebemos no altar deve nos impelir a
contribuir para que cada irmão tenha o “pão do teto” e a dignidade do lar.
Sinto-me muito feliz em recebê-los e nossa Diocese. Saibam que ela
será sempre moradia e berço para todos vocês, irmãos no Episcopado, padres
visitantes e amigos, e aos leigos aqui presentes. Mais que isso: será lugar de
fraternidade, pois, verdadeiramente “Ele veio morar entre nós” e permanece
conosco neste Planalto.
Que nossa oração quaresmal nos ajude a reconhecer que nossa morada
definitiva é o Coração de Deus, mas que o caminho para lá passa,
necessariamente, pela construção de um mundo mais justo aqui na terra. Que
ninguém seja invisível aos nossos olhos, (a partir da teoria perversa que assola
nossa humanidade: O INDIFERENTISMO) pois em cada rosto sem teto, brilha a face
do Noivo que veio morar entre nós e de um homem que dorme em um banco e clama
(embora coberto por um trapo) pedindo o que lhe é devido, como nos bem ensina a
justiça.
Porque, como nos dizia a Encíclica Mira Vos (1832), de Papa
Gregório XVI: “Desta fonte infecta do indiferentismo promana aquela sentença
absurda e errônea, ou melhor, delírio, de que se deve garantir e assegurar a
cada um a liberdade de consciência.” E não é assim! Basta-nos lembrar que o
Papa Leão XIV nos alertou que, viver a fraternidade não é impossível; mas,
atenção ao narcisismo, pois “precisamos vencer o egoísmo, reconstruindo os
laços que unem a humanidade”. “A fraternidade concedida por Cristo liberta-nos
da lógica negativa do egoísmo, da divisão e da prepotência, e nos reconduz à
nossa vocação original, em nome de um amor e de uma esperança que se renovam
todos os dias.”
Abençoo-vos, exortando-os à caridade que não passa e à fé que se
traduz em obras de justiça. Reitero, nossas paróquias estarão de portas abertas
para que vocês não aguardem nas “marquises” da rua. Venham! Aqui terão Moradia
e Fraternidade!

































