Não ter medo

Para melhor entender o texto que nos apresenta este domingo o evangelho (cf. Mt 10,26-33) é importante que nos situemos no contexto histórico em que se desenvolve a ação: Jesus não queria que seus discípulos tivessem falsas esperanças e lhes deixa claro que eles poderão de alguma maneira ter a mesma sorte que Ele, por isso lhes disse que em algum momento alguém os rejeitará, os maltratará, os insultará ou os condenará à morte. Não há missão cristã sob o signo da tranquilidade! As dificuldades fazem parte da obra de evangelização, o que fazer então? Diz Jesus repetidas vezes: “Não tenham medo”. (vv. 26.28.31)

Segundo a tradição, os destinatários do evangelho de São Mateus são os cristãos de origem judaica. Ao longo de seu escrito, o evangelista mostra de diferentes formas o ambiente de claro confronto com as autoridades religiosas judaicas. No momento em que foi escrito o evangelho de Mateus, os cristãos sofriam além da hostilidade dos judeus a opressão do Império Romano e ainda existiam grupos rebeldes dispostos a eliminar os que não estivessem de acordo com eles. Por isso a perseguição até a morte aparecia no horizonte próximo das comunidades cristãs.

A comunidade vive e cresce no meio dessas diferentes tensões, buscando levar adiante a proposta de Jesus que obviamente entrava em confronto com as autoridades religiosas, com os interesses do império e dos grupos rebeldes. É a partir desta realidade que se centra a reflexão de Jesus para os seus discípulos.

Mateus se dirige a uma comunidade missionária, que experimenta a perseguição que é uma realidade vivida pelos cristãos das primeiras gerações e ainda hoje, silenciosamente, por inúmeros cristãos em muitas partes do mundo, portanto o discurso sobre a missão dos apóstolos do cap. 10 do evangelho de são Mateus é como um manual do missionário cristão. O evangelista recolhe as palavras que Jesus dirige principalmente àqueles que foram chamados por Ele e lhe seguiram, aos quais lhes envia agora em missão.

“Não tenham medo”. Jesus traz conforto a sua comunidade missionária: Haverá perseguições, dificuldades, incompreensões que podem gerar um medo que os paralise ou os faça desistir da sua missão, mas Jesus, ante esses momentos aos quais vão passar seus discípulos, não se limita a lhes transmitir confiança e valor na perseguição e hostilidade violenta que eles terão de sofrer, mas os exorta e infunde neles a “parrhesia”, aquela coragem que nasce de uma fé sólida e da confiança em Deus.

Para que os discípulos superem seus temores e a angustia que supõe a perseguição, Jesus lhes dará coragem e força através de três motivações: a primeira – “Nada há de encoberto que não seja revelado.” (v.26) Jesus diz que o medo não deve impedir a proclamação da mensagem do Reino que Ele encarregou a seus discípulos de anunciar “à luz do dia e sobre os telhados” (v.27) e que essa mensagem, ao final, acabará sendo conhecida por todos.

Na segunda motivação – “Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma!” (v.28) Jesus está transmitindo aos discípulos missionários a confiança em Deus. Os perseguidores poderão dar a morte “do corpo”, mas nunca poderão nos afastar de Deus e nem tirar a verdadeira liberdade e vida, que nos é dada pelo Pai. Assim, Jesus nos convida a permanecer firmes naquele abandono confiante ao Pai, que foi a verdadeira força da sua vida, aquele abandono que, na iminência do seu fim, o levou a rezar: “Meu Pai, se é possível, que passe de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas como tu queres.” (Mt 26,39)

E a terceira motivação – “Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais” (v.31). Quer dizer, Jesus está transmitindo a confiança que os discípulos têm que ter nele, pois se para Deus todas as coisas são importantes, muito mais o homem e a mulher. Para isso Jesus recorre a uma comparação: Se o Pai cuida até dos pequeninos pássaros, aparentemente insignificantes e têm contados os nossos cabelos, como não vai ocupar-se destes que são seus filhos e filhas queridos? (vv. 29.30)

O medo é mau, paralisa, mas nunca deve paralisar os discípulos de Jesus. Não devem calar-se. Não devem cessar de propagar a sua mensagem por nenhum motivo. A confiança em Deus tira o temor. A vida cristã e a fé são um bom antídoto contra os medos. Quem tem fé sente-se livre, não teme nada nem a ninguém. Ao medo se contrapõe a coragem. O medo não faz parte da atitude cristã. Uma das virtudes que se requer do cristão é a “parrhesia”, de modo especial quando se trata de dar testemunho público de sua fé. Sem essa coragem o discípulo fracassará diante da primeira dificuldade.

Frequentemente o cristão é posto à prova de muitos modos. São múltiplos os medos que nos invadem, aprisionam e paralisam. Basta percebermos o clima de pavor e medo ante o “corona vírus”. A Igreja pós- pandemia deverá aprender a se lançar sem medo ante as realidades complexas do mundo. No mundo contemporâneo sofisticado e complexo, as pessoas experimentam uma forma de angústia ainda mais radical, a da própria existência. Este mundo lhe parece por vezes uma realidade tão hostil e ameaçadora, capaz de esmagá-lo.

Frente a um ambiente social pouco favorável à fé e aos valores cristãos, uma das tentações mais frequentes do cristão atual é o “medo religioso” que se disfarça de “silêncio” cauteloso, prudente ou diríamos até conivente. O medo produz em uns a inibição ou paralisia, em outros a fuga no “pietismo”; e não falta quem chegue até a esconder ou negar a sua fé. Envergonhar-se de suas próprias crenças, ter medo de se mostrar diferente, é ceder ao pretenso e velho respeito ou falsa prudência humana.

“Não tenham medo” são palavras de Jesus que se repetem uma e outra vez ao longo dos evangelhos. As palavras que mais se deveriam repetir também hoje na Igreja. É certo que a vida está cheia de experiências negativas e que a fé não oferece receitas mágicas para resolver os problemas, mas também é verdade que a fé em Deus, a muitas pessoas, em muitos momentos difíceis de sua vida, lhes tem ajudado a saber superar essas situações, esses medos, essas dificuldades, essas incertezas, porque escutaram a esse Deus e se confiaram nele quando os convida a “não ter medo”, porque esta fé em Deus não leva à evasão ou a passividade mas sim transmite coragem para tomar decisões e assumir responsabilidades. Como disse o teólogo espanhol José Antonio Pagola: “Esta fé em Deus nos conduz a afrontar riscos e a aceitar sacrifícios. O próprio do verdadeiro crente não é a covardia e a resignação, mas sim a audácia e a criatividade”.

Cristo nos convida mais uma vez a escutar suas palavras e não deixar que o medo condicione nosso agir, mas, pelo contrário, colocar nossa confiança nele que está no meio de nós! Como disse o Papa Francisco ante esta pandemia: “Sintam-se chamados a colocar as suas vidas em jogo. Não tenham medo de gastá-la por Deus e pelos outros”.

Pe. José Assis Pereira Soares
Pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus 

 

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