Memória Histórica – 50 anos do Concílio Vaticano II: A Música Sacra na Liturgia

São Tomás diz: “Mediante o louvor de Deus, o homem se eleva até Deus”. Louvar é elevar-se, “tocar aquele que habita no louvor dos anjos”. Tal elevação arranca o homem do que está contra Deus. “Sabe-o bem quem experimentou a forma transformadora de uma grande liturgia, de uma grande arte, de uma grande música. O louvor que ressoa melodicamente induz todos nós a uma profunda reverência, observa além disso São Tomás”

No nosso espaço Memória Histórica – 50 anos do Concílio Vaticano II, vamos falar hoje sobre a Música Sacra na Liturgia.

Dentro do tema da reforma litúrgica, padre Gerson Schmidt (incardinado da Arquidiocese de Porto Alegre), tem nos proposto algumas reflexões sobre os Cantos na Liturgia. A Igreja Católica, de fato, desde a Idade Média, sempre dispôs por meio de documentos orientações sobre a Música Sacra. A Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia, por exemplo, dedica seu Capítulo VI à Música Sacra, onde fala sobre “Importância para a Liturgia”, sobre a “Adaptação às diferentes culturas”, os “Instrumentos músicos sagrados”,  chegando a indicar até mesmo “Normas para os compositores” .

“A tradição musical da Igreja é um tesouro de inestimável valor, que excede todas as outras expressões de arte, sobretudo porque o canto sagrado, intimamente unido com o texto, constitui parte necessária ou integrante da Liturgia solene”, diz no n. 112.

Mas quem nos explica melhor sobre “A Música Sacra na Liturgia” é padre Gerson Schmidt:

“O Concílio Vaticano II recomendou que o “tesouro da música sacra seja conservado e favorecido com suma diligência. Promovam-se com empenho, sobretudo nas igrejas catedrais, as “Scholae cantorum” (SC, 114). Essa conservação e favorecimento da música sacra, porém, não diz que seja necessariamente dentro da liturgia. Na orientação acima frisada, o Concílio dá a entender que ela seja incentivada sobretudo nas catedrais e tende a querer aludir que seja apenas nas catedrais e com a reserva de que não sejam obstáculo à participação ativa do povo. Reforça a criação dos Institutos Superiores de Música Sacra (SC, 115), recomendando o canto gregoriano, a polifonia, o uso de órgão de tubos e segundo condições formuladas pela tradição, também outros instrumentos (SC, 120).

O Concílio faz uma abertura incondicional da Liturgia a todos. “Deseja-se a participação ativa comum de todos no evento litúrgico e, portanto, também no canto litúrgico, e, com isso, adquirem elementos que obstaculizam a afirmação do aspecto artístico”[1]. Ou seja, nem todos os fiéis possuem a arte e o jeito certo de cantar, de forma que o aspecto artístico do canto se empobrece. Torna-se clara uma tensão entre a exigência da arte e a simplicidade da liturgia, o embelezamento do canto com a participação de todos[2]. O excesso da preocupação pastoral ocasiona um empobrecimento no canto e no aprimoramento da música sacra. “…o equilíbrio se torna uma receita muito cômoda: música utilitária para a liturgia, enquanto a música sacra verdadeira pode ser cultivada em outro lugar – ela não se adaptaria mais a liturgia”[3]. Seria isso uma conclusão precipitada e descompassada.

Na obra preciosa traduzida no Brasil pelas edições da CNBB, de Joseph Ratzinger sobre a Teologia da Liturgia, o autor diz assim: “Nos anos transcorridos desde então (depois do Concilio), tornou-se cada vez mais claramente perceptível o espantoso empobrecimento que se verifica na Igreja lá onde se fecha a porta à beleza sem finalidade e tudo se submete, ao contrário, exclusivamente ao ‘uso’. Mas os calafrios que a liturgia pós-conciliar privada de esplendor incute ou simplesmente o tédio provoca com o seu gosto pela banalidade e com a sua falta de exigência artística, não esclarecem o problema”[4]. Ratzinger afirma ainda que “o recuo na utilidade não tornou a liturgia mais aberta, mas apenas mais pobre. A necessária simplicidade não é realizada por meio do empobrecimento”[5]. Segundo Ratzinger, percebe-se aí perceptível “a miséria de uma época ferida, cuja racionalidade criou o dilema entre especialização e banalidade, e cujo funcionalismo, minando o sentido de totalidade, tira, amplamente, o terreno também para uma expressão artística original e vital”[6].

Segundo São Tomás de Aquino, o louvor não é necessário para Deus, mas para a própria pessoa que louva[7]. São Tomás ainda diz: “Mediante o louvor de Deus, o homem se eleva até Deus”. Louvar é elevar-se, “tocar aquele que habita no louvor dos anjos”[8]. Tal elevação arranca o homem do que está contra Deus. “Sabe-o bem quem experimentou a forma transformadora de uma grande liturgia, de uma grande arte, de uma grande música. O louvor que ressoa melodicamente induz todos nós a uma profunda reverência, observa além disso São Tomás”[9].”

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[1] RATZINGER, Joseph., “Teologia da Liturgia – o fundamento sacramental da existência Humana” – Obras completas, Volume XI, edições da CNBB, Editor em Lingua alemã: Cardeal Gerhard Muller e Editor em Lingua Portuguesa Antonio Luiz Catelan Ferreira, Brasilia-DF, 2019, p.468.

[2] Idem, 468.

[3] Ibidem.

[4] Idem, 469.

[5] Idem, 470.

[6] Ibidem.

[7] Summa Theologiae II-IIae q 91 a 1 resp.

[8] RATZINGER, Joseph., “Teologia da Liturgia – o fundamento sacramental da existência Humana” – Obras completas, Volume XI, edições da CNBB, Editor em Lingua alemã: Cardeal Gerhard Muller e Editor em Lingua Portuguesa Antonio Luiz Catelan Ferreira, Brasilia-DF, 2019, p.482.

[9] Ibidem.

Fonte: Vatican News

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