Levar a Palavra às periferias

Neste Terceiro Domingo do Tempo Comum pela primeira vez é celebrado em todo o mundo o “Domingo da Palavra de Deus”, Instituído pelo Papa Francisco com a Carta Apostólica “Aperuit illis” (30/09/2019).

O Papa quis “responder aos muitos pedidos que chegam por parte do povo de Deus para que em toda a Igreja se possa celebrar em unidade de intenções o Domingo da Palavra de Deus”. Efetivamente, a Bíblia “não é prerrogativa de poucos, mas pertence a todos, é o livro do povo de Deus” que deve ser ouvido, meditado e pregado a fim de que se possam compreender “a pessoa e a missão de Cristo”.

São Mateus (cf. Mt. 4,12-13) interpreta como um teólogo, a profecia de Isaías (cf. Is 8,23b-9,1) aplicando-a concretamente a Jesus. Na sua visão teológica, em Jesus a promessa de Isaías realiza-se, ele mostra que a ação de Jesus, que chama à conversão, começa na periferia, entre os desprezados. “Jesus é a luz” para o povo que caminhava nas trevas.

Segundo Mateus, a missão de Jesus é universal e não se encaixa na exclusividade judaica do centro. O Messias não vem só para Israel, Ele é a luz para os povos que estavam nas trevas. Para que esta luz esteja entre os pobres e deserdados de todos os tempos, Jesus escolhe homens e mulheres que continuam a sua missão.

Mas Jesus não vai ao centro chamar doutores da lei, pessoas versadas. Antes chama dois pares de irmãos: Pedro e André; Tiago e João que eram pescadores, portanto, pessoas um tanto rudes, sem instrução, provavelmente desconhecedores da Lei. É entre estas pessoas ignorantes que Jesus recruta seus primeiros colaboradores.

O lugar escolhido pelo jovem pregador para iniciar a sua atividade messiânica é a Galileia, tudo começou aí. Esta escolha indica que os destinatários de sua pregação não são apenas seus conterrâneos, mas quantos desembarcavam na cosmopolita “Galileia dos pagãos” assim se chamava.

Quando Jesus deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, tinha plena consciência de sua identidade e de por onde havia de começar. Não foi por casualidade a escolha do lugar para residir. Essa foi a primeira decisão importante que Jesus tomou no início de sua vida pública. Cafarnaum, importante centro, ponto de cruzamento entre o Mediterrâneo e o interior da Mesopotâmia.  Mas, em relação a Jerusalém, aquela terra geograficamente periférica e religiosamente impura é o lugar que Ele encontrou e é dali que se espalhará “a luz” que se difunde precisamente da periferia.

Ali, Jesus teve suas preferências e elegeu o seu lugar entre os mais pobres e excluídos, vítimas daqueles que se faziam donos dos lugares centrais; ali revelou a presença d’Aquele que se faz presente e santifica todos os lugares: o Pai.

Em Cafarnaum, como em toda Galileia moravam judeus de segunda classe, muitos incircuncisos. Estavam sob influência dos pagãos. Estavam longe de Jerusalém e de sua doutrina. Eram ignorantes das leis. Se o Reino de Deus há de ser anunciado a todos, sem exceção, melhor que seja numa encruzilhada de caminhos e de culturas, um lugar significativo e que facilite o encontro com homens e mulheres que multipliquem o efeito da missão. Não se trata de uma missão de conteúdo ideológico, nem de conivências. Trata-se do encontro com Deus ali onde Ele se mostra tal qual é: Jesus Cristo.

Cafarnaum era una cidade de pessoas acostumadas ao trabalho e ao trato ou relacionamento com diferentes pessoas. Ali ser judeu, romano, cobrador de imposto, pescador, prostituta ou chefe da sinagoga se mesclava: vidas cruzadas. A de Jesus, Deus conosco, se mesclou também.

A decisão de Jesus de deixar Nazaré e morar em Cafarnaum é um símbolo significativo de seu projeto missionário e evangelizador. A casa de Jesus não será estável e fechada, inclusive Ele vai adotar uma forma nova de proclamação da Palavra de Deus, vai sair e caminhar; será um pregador itinerante durante todo o seu ministério e fundará um movimento de pregadores ambulantes para alcançar as aldeias e os povoados mais distantes, para anunciar-lhes a Boa Nova da presença do Reino de Deus, para que a luz continue brilhando, pois a luz e a salvação não são para muitos nem poucos, mas para todos, é universal.

Tendo Jesus se encarnado para sempre nas periferias do mundo, porque desejou assumir toda a história a partir daí, também nós, seus seguidores(as), temos de dirigir constantemente o olhar para as “novas periferias”, as “novas Galileias” a partir de onde Ele continua nos questionando.

“O discípulo-missionário é enviado para as periferias existenciais. A posição do discípulo-missionário não é a de centro, mas de periferias: vive em tensão para as periferias” (Papa Francisco)

Que significa “fronteiras geográficas e existenciais”? É preciso sair dos limites conhecidos; sair de nossas seguranças para adentrar-nos no terreno do incerto; sair dos espaços onde nos sentimos fortes para arriscar-nos a transitar por lugares onde somos frágeis; sair do inquestionável para assumir o novo…

“Nós, cristãos de hoje, temos a alegria de proclamar e testemunhar a nossa fé porque houve aquele primeiro anúncio, porque houve aqueles homens humildes e corajosos que responderam generosamente ao chamado de Jesus. Nas margens do lago, numa terra inimaginável, nasceu a primeira comunidade dos discípulos de Cristo. A consciência destes primórdios suscite em nós o desejo de levar a palavra, o amor e a ternura de Jesus a todos os contextos, inclusive ao mais inacessível e relutante. Levar a Palavra a todas as periferias! Todos os espaços de vivência humana são terreno no qual lançar a semente do Evangelho, a fim de que traga frutos de salvação.” (Papa Francisco)

Esta é uma reflexão muito interessante para nós nos questionarmos neste Domingo da Palavra de Deus: “A Sagrada Escritura está no centro de tudo aquilo que a Igreja faz. Ajuda-nos a entender o mundo e dá forma à visão que temos dele; ensina-nos a viver e a relacionar-nos uns com os outros; desafia-nos continuamente a encarnar a Palavra de Deus na cotidianidade.” É através dela que o Senhor “fala a seu povo, mostrando-lhe o caminho a ser percorrido para fazer de modo que o Evangelho da salvação alcance todos”.

Perto de quem ou onde nos situamos, nós os cristãos evangelizadores de hoje? Será que nos situamos na periferia ou fronteira missionária e desafiadora das “Galileias” de hoje? Não estaríamos nós acomodados ou por demais instalados em situações de manutenção, administrativas e conservadoras?

Padre Assis Pereira Soares – Pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus.

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