Jesus, tem compaixão de nós!

Ao escutarmos as leituras propostas para este Domingo reparamos na importância dada ao sinal messiânico da cura dos leprosos. A extraordinária cura do leproso Naamã e sua gratidão ao profeta Eliseu (cf. 2Rs 5,14-17) bem como à cura dos dez leprosos que pediram a intercessão de Jesus: “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!”(cf. Lc 17,11-19) pretende chamar a nossa atenção também para duas virtude humanas esquecidas por muitos de nós: a gratuidade e a gratidão.

Ao general do exército da Síria, isto é, um estrangeiro que sofre de uma doença de pele; sua escrava hebreia lhe fala do profeta Eliseu e de seus prodígios; ele se dirige ao profeta com grande pompa. Mas, aprendeu o significado da humildade quando teve que obedecer, embora a contra gosto, e banhar-se no rio; Eliseu, não realiza nenhum rito mágico, nem lhe pede nada de extraordinário. Pede-lhe apenas para confiar em Deus e mergulhar num rio pequeno como o Jordão. Quando obedeceu ficou curado! Naamã reconhece que a cura se deve a Deus. “Deus surpreende-nos; é precisamente na pobreza, na fraqueza, na humildade que Ele se manifesta e nos dá o seu amor que nos salva, cura, dá força. Pede somente que sigamos a sua palavra e tenhamos confiança nele.” (Papa Francisco)

Tal como aconteceu com o sírio, assim acontece com o samaritano do evangelho. Jesus vê dez leprosos que se aproximam dele e lhe pedem: “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!” (v. 13) Na Bíblia o número dez significa a totalidade, simbolicamente, estes dez leprosos representam a totalidade de todo o povo, de toda a humanidade.

A narração deste episódio quer chamar-nos a atenção para as nossas fragilidades; ninguém está sem lepra: Todos estão sujeitos à lepra do pecado, todos procuram a salvação do Senhor. A lepra simboliza a condição de pecado, da miséria humana, da situação de afastamento de Deus e dos irmãos.

Quando nos sentimos justos, perfeitos, começamos a erguer muros que nos separam: pomos os bons do nosso lado e os que julgamos não serem, do outro; exigimos que aqueles que consideramos pecadores fiquem longe de nós, a fim de não sermos atingidos. Os leprosos viviam fora dos povoados e os lugares onde viviam eram considerados impuros; a lepra é uma enfermidade contagiosa que era um perigo para a sociedade inteira. Mas ao não ter clara a diferença entre a lepra e outras infecções da pele, se declarava lepra qualquer sintoma que se pudesse suspeitar essa enfermidade. Muitas dessas infecções se curavam espontaneamente e o sacerdote declarava puro o enfermo, dando-lhe como um atestado para retornar ao convívio na comunidade. A esta maneira de atuar tão lesiva, Jesus quer opor uma fé-confiança que deve mudar também a atitude da sociedade.

A lepra que rouba a vida a esses dez homens representa a desgraça que atinge a totalidade da humanidade e que gera exclusão, marginalidade, opressão, injustiça. É a condição de uma humanidade marcada pelo sofrimento, pela miséria, pelo preconceito, pela exclusão e pelo afastamento de Deus e dos irmãos, que aqui nos é pintada.

São Lucas garante no entanto, que Deus tem um projeto de salvação para a humanidade, para todos sem exceção; e que é em Jesus e através de Jesus que esse projeto atinge todos os que se sentem leprosos e os faz encontrar a vida plena, a reintegração total na família de Deus e na comunidade humana.

“Um dos leprosos, ao perceber que estava curado, voltou glorificando a Deus e agradeceu a Jesus. E este era um samaritano.” (v. 16) Jesus deve ter-se alegrado com a prova de gratidão desse samaritano, mas ao mesmo tempo encheu-se de tristeza ao verificar a ausência dos outros. Jesus esperava o regresso de todos e manifestou a sua surpresa, perguntando: “Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?” (v. 18)

Só um voltou para dar graças. Só um se deixou levar pelo impulso vital. Os nove restantes (se supõe que eram judeus), se sentiram obrigados a cumprir o que a lei mandava: apresentar-se ao sacerdote para que lhes declarasse puros e pudesse assim voltar a participar da sociedade. Para eles, voltar a fazer parte do organograma religioso e social, era a verdadeira salvação. Os nove voltam a submeter-se ao refúgio da instituição; vão ao encontro com Deus no templo, nos ritos, na obediência às normas.

O samaritano acreditou mais urgente voltar e agradecer. Foi o que acertou, porque, livre das ataduras da Lei, se atreveu a expressar sua vivência profunda na gratuidade. Este encontra a presença de Deus em Jesus. É mais importante responder vitalmente ao dom de Deus, que ao cumprimento de uns ritos externos.

A verdadeira salvação para o leproso chega no reconhecimento e agradecimento do dom. Os outras nove leprosos foram curados, mas não encontraram a verdadeira salvação; porque tinham suficiente com a libertação da lepra a recuperação do tecido religioso. Estamos ante o dilema: salvação material ou salvação espiritual.

Sem nos dar-nos conta, muitas vezes nos sentimos inclinados a buscar a salvação nas seguranças e a nos conformar com ela. Inclusive metemos Deus em nossa própria dinâmica e a salvação que nós buscamos é a material.

O seguimento de Jesus é uma forma de vida. Não basta o cumprimento escrupuloso das normas, como faziam os fariseus, tem que viver a presença de Deus. Todos seguimos tendo algo de fariseus. Todas as normas, todos os ritos, todas as doutrinas são só meios para alcançar a vida espiritual.

A gratidão é uma coisa que todos levamos tão dentro de nós mesmos, tão inato, tão humano, que não há nada que nos magoe tanto quanto os que não nos agradecem quando lhes fazemos algum favor. E essa atitude do ingrato que passa por longe do seu benfeitor também magoou Jesus.

Temos perdido o sentido da gratidão, da gratuidade, do agradecimento, da ação de graças, da Eucaristia. Em nível de nossa prática religiosa é mais frequente pedir que dar graças e até a Eucaristia se transforma em Missa para pedir curas, bênçãos, graças… Que nos curemos da lepra da ingratidão e elevemos nosso coração agradecido a Deus pelo dom da fé.

Ao celebrar a Eucaristia, não sei se somos conscientes de que significa ação de graças. Além disso, nela repetimos várias vezes: “Senhor, tende piedade de nós!” como os dez leprosos o fizeram. O Evangelho de hoje deve ser estímulo para celebrar conscientemente esta Eucaristia-Ação de Graças. Que de verdade nossa Eucaristia seja uma manifestação comunitária de agradecimento e louvor ao Deus da Vida.

Pe. José Assis Pereira Soares

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