Jesus o verdadeiro interprete da Lei

O Evangelho que a Igreja propõe para este Domingo (cf. Mt 5,17-37) junto com as Bem-aventuranças e as parábolas do sal e da luz tem como cenário o “Sermão da Montanha”. Para compreender toda a riqueza deste discurso deve-se considerar Moisés e o Monte Sinai como pano de fundo. O evangelista quer apresentar Jesus como o novo Moisés, pois ele escreve para uma comunidade cristã que anteriormente pertencia ao judaísmo e procura reorganizar-se no seu estilo de vida e por isso é necessário aprofundar sua nova identidade. Possivelmente a ruptura com o judaísmo tinha-lhes deixado numa situação de marginalização social e religiosa naquele tempo. Pessoas desprezadas por causa do seu estilo de vida escolhido pelo seu seguimento a Jesus. Por isso é fundamental aprofundar a identidade do cristão.

Mateus dirige-se aos cristãos em contraposição com os escribas e mestres da Lei. Apresentando os valores do Reino convida os cristãos a descobrir a riqueza do seguimento de Jesus considerando também as dificuldades pelas quais devem percorrer e os perigos que pode trazer cumprir simplesmente a Lei. Ora, os judeus falavam com orgulho da Lei de Moisés. Segundo a tradição, foi Deus que a entregou a seu povo no Sinai. Era o melhor que tinham recebido dele. Nessa lei, encontra-se a vontade do único Deus verdadeiro. Aí podem encontrar tudo o que necessitam para serem fiéis a Deus.

Também para Jesus a Lei é importante, mas já não ocupa o lugar central: “Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento.” (v.17) Possivelmente havia uma pergunta ou até discussão entre os cristãos sobre a necessidade de cumprir a Lei. Nas suas palavras Jesus responde a esta pergunta propondo uma atitude essencial para viver como cristão. Sua proposta não é abolir a lei ou desvalorizar suas exigências senão todo o contrário. Jesus procurar levar a um entendimento mais profundo da Lei: “Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus.” (v. 19) Jesus vive e comunica outra experiência: o “Reino de Deus está chegando”. Não basta contentar-nos em cumprir a letra da Lei. É necessário abrir-nos ao Pai e colaborar com Ele para fazer a vida mais justa e fraterna através de relações mais humanizadoras.

Por isso, segundo Jesus, não basta cumprir a Lei, que ordena “não matarás”. É necessário, também, arrancar da nossa vida a agressividade, o desprezo pelo outro, os insultos ou as vinganças. Aquele que não mata cumpre a Lei, mas se não se liberta da violência, no seu coração ainda não reina esse Deus que procura construir conosco, uma vida mais humana.

Não se trata de cumprir normas externas, mas de assumir uma atitude interior de adesão a Deus e ao seu Reino. Por isso Ele não vem abolir, desconsiderando suas propostas senão pelo contrário “dar pleno cumprimento”. A mensagem que Jesus prega é o coração da vida cristã. Sua normativa vem de dentro e deve impregnar toda a vida da pessoa: seu sentir, seu pensar, seu agir, seu comportamento com as outras pessoas, sua atitude diante da injustiça. A vida do cristão não está regida por meras atitudes externas que não o comprometem. O que importa e conta é o coração, a disposição interior. No cumprimento das leis, não basta a simples execução exterior. Seguir Jesus leva a um compromisso mais profundo e sincero.

Somos chamados a refletir sobre nossa atitude interior, sobre nossos pensamentos e sentimentos e levar adiante uma conversão de vida que nos faça crescer no amor e na caridade com as demais pessoas. Nada pode ser exclusivo nem excludente. O Reino proclamado por Jesus é Boa Notícia para cada um de nós que nos consideramos seus seguidores e seguidoras e vivemos o estilo de vida anunciado por Ele, com sua novidade transformadora e revolucionária quando no próximo se reconhece o rosto do irmão.

Segundo alguns observadores, se está espalhando na sociedade atual uma linguagem que reflete o crescimento da agressividade e da violência. Cada vez são mais frequentes os insultos ofensivos, proferidos apenas para humilhar, desprezar e magoar. Palavras agressivas nascidas da rejeição, do ressentimento, do ódio ou da vingança. Por outro lado, as conversações estão frequentemente tecidas de palavras injustas que espalham condenações e semeiam suspeitas. Palavras ditas sem amor e sem respeito que viciam a convivência e fazem mal, “palavras malditas”. Palavras nascidas quase sempre da irritação, da mesquinhez ou da baixeza.

Lamentavelmente isto não acontece somente na vida social. É também um grave problema no interior da Igreja atual. É inaceitável que irmãos se injuriem, se ofendam e se ataquem mutuamente.  O Papa Francisco sofre ao ver divisões, conflitos e confrontos de “cristãos em guerra contra outros cristãos”. É um estado de coisas tão contrário ao Evangelho que sentiu a necessidade de nos dirigir uma chamada urgente: “Não à guerra entre nós. Dói-me verificar como, em algumas comunidades cristãs, e ainda entre pessoas consagradas, consentimos diversas formas de ódios, calúnias, difamações, vinganças, ciúmes, desejo de impor as próprias ideias à custa de qualquer coisa e até perseguições que parecem uma implacável caça às bruxas. A quem vamos evangelizar com esses comportamentos?” Deixemos ressoar essas palavras em nossos corações.

Padre Assis Pereira Soares – Pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus.

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