Jesus manso e humilde de coração

A passagem do evangelho de São Mateus que nos é proposta para este Domingo (cf. Mt 11,25-30) é de um lirismo refrescante que nos permite entrever timidamente, é claro, na ponta dos pés, o clima íntimo da comunicação cheia de confiança de Jesus com o Pai: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos.” (v. 25) E também as palavras consoladoras de Jesus: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” (vv. 28-30)

“Carregar o jugo” era expressão apreciada pelos rabinos e se referia ao jugo da “Torá”, da Lei, dos preceitos. Mas a Lei já não era para muitos, fonte de vida, mas de opressão, tinha-se transformado num fardo insuportável porque ao povo era exigido seguir as tradições dos doutores da Lei, suas próprias interpretações. Jesus não é recebido nem aceito por este grupo, pelos “sábios e entendidos”, pelos lideres religiosos que impõem cargas pesadas ao povo simples e marginalizado.

“Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados…” (v. 28) Quem não está cansado? De que está cansado o mundo? De quem e do que estão cansadas as pessoas? Por que esta sociedade e a humanidade andam tão fatigadas? Frequentemente nos sentimos possuídos por um espírito desanimado. Que fazer para ter um espírito alegre, criativo e esperançoso? Não é fácil viver em um mundo tão complexo e tão contraditório. Cada situação perversa, como esta pandemia, deixa sua marca em nosso espírito.  Jesus nos diz que devemos vir a Ele, porque encontraremos nele alívio e descanso.

Cansados, angustiados e oprimidos estão todos os que sofrem na vida por alguma razão, mas também pessoas frequentemente atormentadas entre a angústia e a esperança, abatidas pela sensação de seus limites, perturbadas e divididas no coração. A religião ou a fé cristã não podem ser um peso opressor, algo colocado nos ombros das pessoas, para submetê-las em vez de libertá-las; Não pode ser uma imposição de regras, preceitos e normas, um jugo imposto e uma carga insuportável.

Como é leve e diferente o anúncio de Jesus, “manso”, que convida a aproximar-nos dele com confiança: “Vinde a mim!” A nossa prática religiosa cristã é realmente acolhedora ou um jugo pesado que oprima ainda mais o ser humano? Será que não criamos barreiras e exigências, pesos dificilmente suportáveis para as pessoas? Será que os pobres, muitas vezes não estão se sentindo, não só excluídos na sociedade, mas também rejeitados por Deus?

“Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração…” (29) Jesus sempre conseguiu se mostrar manso e, ao mesmo tempo, ser mestre dos outros, sem lhes impor pesos insuportáveis a eles, sem alimentar um olhar cínico ou duro e autoritário para com os pecadores. Jesus sofreu a dura carga de sua cruz, dos insultos, das acusações injustas, das ameaças e da morte, mas foi seu amor ao Pai o que pôs asas e alívio a seu dolorido caminho. Foi o amor ao Pai o que lhe deu forças para aceitar a dor que lhe causavam os injustos sofrimentos que lhe infligíamos nós, os humanos. Lutemos sempre contra a dor, mas lutemos sempre com amor, sem perder a ternura, porque só o amor pode redimir nossa dor e a dor de outras pessoas.

Ao se apresentar como referência para os seus discípulos “aprendei de mim…” Jesus frisou duas atitudes pelas quais pautava a sua vida: a mansidão e a humildade. Estas virtudes são instrumentos poderosos para abrir o coração das pessoas, para atraí-las para Deus. Neste tempo de distanciamento social aprendemos que devemos ter um distanciamento físico das pessoas, mas o evangelho nos ensina hoje que mesmo quando a situação impede que nossas mãos os corpos se encontrem no abraço, os corações se abraçam, pois a mansidão e a humildade são os únicos remédios que substituem as expressões de afeto ou expressões táteis, porque elas brotam do coração.

A mansidão e a humildade de coração, bem-aventuranças, nos trazem para o chão da vida e nos possibilitam viver com mais humanidade. E estas duas virtudes estão disponíveis, em abundância, no nosso interior, mas é preciso abrir espaço para elas em nosso cotidiano, em nossas relações, em nossa espiritualidade e em nossa ação pastoral.

Jesus é Mestre humilde e manso, nenhum autoritarismo arrogante ou presunçoso se encontra nele. Quanto bem se pode fazer a nossos irmãos e irmãs se dirigirmo-nos sempre a eles com humildade, ternura, mansidão e paciência ante as nossas e suas limitações pessoais. Quanto bem se pode fazer evitando disputas internas em nossas comunidades, palavras mal ditas, gestos ou atitudes bruscas e agressivas que possam ferir a sensibilidade de nossos irmãos e irmãs. Quanto bem se pode fazer acolhendo com ternura e bondade pobres, aflitos, enfermos, pecadores, cansados, fazendo-os encontrar descanso, tornando o seguimento de Cristo um pouco mais suave e o peso da vida mais leve. Vivendo esta face do amor misericordioso com todos os membros da comunidade eclesial e nas nossas relações na sociedade.

Nunca, como hoje, a humanidade dispõe de tantos meios de comunicação (oral, visual, virtual e escrita) e nunca como hoje o ser humano tem tanta necessidade de contar suas penas e suas misérias a alguém que o escute. O que ocorre então? É que as pessoas, entre elas muitos de nós, não querem mais problemas que os seus próprios. Nossas dificuldades e “jugos” pessoais preocupam-nos, nos oprimem e nos levam a dizer: “já tenho bastantes problemas!” Jesus, pelo contrário, alivia nossas cargas. Dá-nos asas, dá-nos força para seguir adiante e nos faz descobrir, na debilidade ou na humildade, o segredo para sermos fortes.

Deus nos ama como dizia Jesus: com as entranhas de uma mãe, a Igreja precisa aprender e assimilar esse amor terno e misericordioso e ser qual Mãe da Misericórdia, Mãe da humanidade. Deve praticar a íntima misericórdia, especialmente com os pecadores, pobres e excluídos: praticar a compaixão e a acolhida com tantas pessoas que estão sofrendo por sua condição. Assim o tem proclamado insistentemente o Papa Francisco. É o melhor serviço que a Igreja pode prestar à sociedade, ser “alívio” para os cansados, ser abrigo acolhedor para os perdidos, ser colo acolhedor de mãe para todos. “Faz falta uma Igreja capaz de redescobrir as entranhas maternais da misericórdia. Sem a misericórdia, poucas possibilidades têm hoje de inserir-nos em um mundo de feridos, que têm necessidade de compreensão, de perdão, de amor.” (Papa Francisco)

 

Pe. José Assis Pereira Soares
Pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus 

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