Homilia integral da Missa dos Santos Óleos

A celebração da Missa dos Santos Óleos nesta quinta-feira Santa (09) na Catedral Diocesana de Nossa Senhora da Conceição, em Campina Grande, totalmente diferente do que costumamos ver. A Missa foi presidida pelo Bispo Diocesano, Dom Dulcênio Fontes de Matos, sem a presença de fiéis e com alguns padres do Conselho Presbiteral, que representaram todo o clero!

 

HOMILIA PARA A MISSA CRISMAL
(Catedral Diocesana de Campina Grande, 09.04.2020)

Sacerdote, quem és?

Nestes dias marcados por ameaças à vida e à saúde do nosso povo, do nosso rebanho, dias marcados por igrejas fechadas em todo o mundo, sem a participação dos nossos fiéis nos sacramentos, dias de apreensão e melancolia, mas antes de tudo, ocasiões de orações e esperança mais fevorosas, que pululam do peito de tantos e tantos, questiono-me: quem é o sacerdote?

Percebo muito exemplos de heroísmo por parte do Clero: padres que renunciam a própria vida (como o Padre Giuseppe Berardelli, que ofereceu o seu respirador doado pelos seus paroquianos para salvar a vida de um jovem); que se aventuram em levar consolo e esperança sem olhar a quem, e, nisto, acabam sendo contagiados pela peste que assola o mundo; curas de almas que não ficam de braços cruzados, mas inovam na evangelização, achando métodos para estarem próximos àqueles que o Bom Pastor lhes confiou como filhos; que se consomem na preocupação e oferecem a Deus suas penitências e preces em prol da saúde da humanidade; enfim, tantos e tantos demonstrativos de amor, de renúncia, de zelo por aquilo que é causa de Deus: a Sua Santa Igreja.

Pensei bastante sobre o que deveria dizer ao meu Clero nesta Quinta-Feira Santa tão diferente. Nos outros anos, os presbíteros, juntamente com o povo de Deus, lotavam esta Catedral para a Missa dos Santos Óleos. Neste ano, vivemos a experiência dos primeiros cristãos trancafiados nas catacumbas. Boa parte dos meus filhos sacerdotes estão a acompanhar-nos espiritualmente, enquanto confinados, rezamos em comunhão presbiteral com o Bispo. Que dor! Alguns deles, no primeiro ano de sua novel vida ministerial… Mas estamos aqui, porque, como nos diz Santo Inácio de Antioquia: “Onde está o Bispo, aí está toda a Igreja”. Todo o meu presbitério está aqui – ainda que pela espiritualidade da comunhão -, mas está aqui!

Porém, mesmo na ausência do seu povo, dos nossos fiéis, os sacerdotes celebrarão a Semana Santa, não se importando com a quantidade; recordando-se, sim, da fé da Igreja-Esposa, que acompanha o Seu Esposo divino neste Sacro Tríduo Pascal, a ser iniciado nesta tarde; recordando-se dos seus filhos espirituais, que se beneficiarão com os frutos pascais. O gesto de imolação, de doação repete-se no coração desses sacerdotes, porque o zelo é fruto do amor que se tem e se dispensa ao que é amado.

Com tudo isso, cheguei – mais uma vez – à conclusão de que o sacerdote não se pertence. E foi isto que me convenceu a falar do radical “sac-” com o qual se iniciam os termos ‘sacerdote’, ‘sacrifício’ e ‘sacro ou sagrado’.

Primeiramente, falemos da palavra ‘sacro’ ou ‘sagrado’. Sabemos que ‘santo’ (do hebraico, ‘kadosh’), significa separado. Sagrado vai no mesmo pensamento. Porém, pode-se estabelecer a sua origem à ideia de dedicado a Deus. E isto, exclusivamente, o sacerdote o é. E a esta sua pertença damos o nome de “consagrado”. A Carta aos Hebreus vai trazer esta ideia, quando afirma: “Todo sumo sacerdote é tirado do meio dos homens e instituído em favor dos homens nas coisas que se referem a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. Sabe ter compaixão dos que estão na ignorância e no erro, porque ele mesmo está cercado de fraqueza. Por isso, deve oferecer sacrifícios tanto pelos pecados do povo, quanto pelos seus próprios” (Hb 5,1-3).

Cada um, chamado na sua história de vida, com contextos diferentes, foi escolhido por Deus para continuar, com todo o seu ser entregue – e transformado em Cristo pelo Sacramento da Ordem – a obra mesma de salvação, operada por Cristo Sumo e Eterno Sacerdote, no altar da Cruz. Porém, mesmo com magna missão, com o ser transmutado no de Cristo Sacerdote, pessoalmente falando, o homem-sacerdote é rodeado de fraquezas. Mas, num espírito de constante conversão, deve-se moldar à santidade do próprio Senhor que o chamou. E o Sacrifício de Cristo que oferece, único e perfeito, perpetuado pela Santa Missa, fala da misericórdia do Senhor também para si. Santificando-se, o sacerdote é chamado a ser modelo para o rebanho, porque está configurado na essência e no procedimento a Cristo. E assim, a palavra ‘consagrado’ ganha a sua força, o seu sentido: sagrado com Cristo, à Sua altura, para sagrar, santificar aqueles que o Cristo lhe confiou.

Apesar de já termos falado na palavra sacrifício, falta-nos, ainda, refletir sobre ela. Enquanto o termo sacro designa “dedicado a Deus”, sacrifício, por sua vez, significa “o que manifesta o sagrado”, e aqui podemos dizer: manifesta Deus. Não quero me deter a um estudo complexo (até porque aqui não é ocasião para tanto), mas detenho-me no caráter do sacrifício da Cruz do Senhor, atualizado em todas as Missas. É na celebração eucarística que o ser sacerdotal do Padre se realiza mais grandemente. Percebam: as palavras do Senhor se tornam suas; os gestos de Cristo, igualmente seus. E, de fato, na Eucaristia manifesta-se plenamente Deus, que vem à terra pelas mãos e voz do sacerdote. Que beleza! Independentemente dos méritos do ministro do Altar (até de sua santidade habitual), Deus nos vem, porque é manifestado. Uma manifestação para a vida de toda a Igreja. E isto tem-se experimentado, principalmente, nestes dias em que a Igreja, como Mãe prudente, para salvaguardar a saúde biológica dos seus filhos, celebra, religiosamente, a Eucaristia, ainda que com templos fechados, valendo-se do bem espiritual inestimável para o santo Povo de Deus.

O padre é importante para este hoje, para esta cultura ora vivida? Em meio a tantos avanços tecnológicos, a tantos modismos, relativismos, a tanta paganização? Digo, independentemente do meu ministério e sem me impor por uma pseudovalorização: sempre o sacerdote foi importante, não somente para o seio da Santa Igreja, mas para todo o mundo. Quanto mais hoje: neste mundo doente em diversos aspectos, a figura do sacerdote é imprescindível, porque age na própria pessoa de Cristo Sacerdote, trazendo-O do Céu à terra, concedendo a Sua paz.

E o bispo francês, do século XIX, Luís Gastão de Ségur, respondendo à turba dos impiedosos, que, ainda hoje ojerizam-nos, dizendo: “Para que servem os padres?”, dirá: “Para salvar as almas! Decerto, é este um emprego que vale mais do que qualquer outro. O pedreiro trata de polir a matéria; o padre ocupa-se de polir a alma. Tão superior é a alma à matéria, quanto a obra do padre é superior a todos os trabalhos da terra. O padre continua o grande trabalho da salvação do mundo, Jesus Cristo, seu Deus e seu modelo, começou-a; os seus padres prosseguem na sua obra através dos séculos. O padre, a seu exemplo, emprega a sua vida em fazer o bem.

Ele é o homem de todos; o seu coração, o seu tempo, a sua saúde, os seus cuidados, a sua carteira, a sua vida, pertencem a todos; e principalmente aos pequenos, aos meninos, aos pobres, aos desvalidos, aos que choram, e que não têm amigos. Ele nada espera em troca desta dedicação; e ordinariamente só recebe insultos, calúnias abomináveis e maus tratamentos. Porém, como verdadeiro discípulo de seu divino Mestre, só lhes responde continuando a fazer bem. Que abnegação sobre-humana! Nas calamidades públicas, nas guerras civis, nas doenças contagiosas, na cólera-morbus, quando os ministros protestantes e os filantropos fogem, aparece ele arriscando sua saúde e vida para aliviar seus irmãos. […] Eis aqui para que servem os padres! Bem desejara eu saber se aqueles que os atacam servem para alguma coisa melhor. […] Respeitemos os nossos padres. Se observarmos neles imperfeições, e mesmo vícios, lembremo-nos de que necessário atender à fraqueza do homem.

Tratemos então de não olhar para o homem, e só ver o padre; este, como padre, é sempre respeitável, e o seu ministério sempre santo; porquanto ele é o continuador de Jesus Cristo, soberano Padre através dos séculos, e é deste mesmo que o Salvador disse: ‘Quem vos escuta, escuta-me a mim; e quem vos despreza a mim despreza…’ (Lc 10,16)” (In: Perguntas e respostas às objeções mais vulgares contra a religião, capítulo XIII).

Caro padre, o seu valor está no Cristo. Você, neste mundo para o Céu, faz-Lhe as vezes, porque é um outro Cristo. E isto nos basta, sendo-nos sumamente suficiente! Desejo-lhe um santo, profícuo e heróico ministério sacerdotal, ao que agradeço a Deus pela sua incansável cooperação à nossa Ordem Episcopal!

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