Há uma porta, temos um Pastor

Este Quarto Domingo Pascal é conhecido como o Domingo do Bom Pastor. Somos convidados à experiência pascal de cruzar a porta, entrar na comunidade e escutar a voz do Pastor.

Escutando os evangelhos destes últimos domingos pascais, como o de hoje (cf. Jo 10,1-10), percebemos que eles nos vão trazer palavras de Jesus anteriores à sua Ressurreição, lidas agora à luz da experiência que comunidade cristã está vivendo na qual “Deus constituiu Senhor e Cristo a este Jesus que vós crucificastes”, como nos disse o apóstolo Pedro (cf. At 2,14.36-41).

Jesus propõe aos fariseus para exprimir sua critica a dureza dos chefes religiosos de Israel, duas metáforas tiradas da vida pastoril: o “pastor” e a “porta”, que embora diferentes, devem ser interpretadas em conjunto. “Quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante. Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. A esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora. E, depois de fazer sair todas as que são suas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz.” (vv. 2-4)

Os pastores que cuidavam de seus rebanhos costumavam buscar um lugar seguro para passar a noite, mais ou menos protegidos, recolhendo-os num único redil ou curral que eles construíam nos campos, cercado por um muro de pedras. Como não havia porta física, ao pastor a quem lhe tocava velar pela noite, cabia o papel de ser porta, enroscando-se na entrada do curral para vigiar, proteger e defender o rebanho das feras e assaltantes. Ele mesmo era a porta! Não era apenas um instrumento de passagem, mas sim de defesa frente ao ladrão que só quer causar dano. Jesus, portanto, centra a sua atenção naquela “porta” que lhe permite chegar às ovelhas.

Nas palavras de Jesus destacam-se uma porta e duas atitudes diferentes em relação ao redil das ovelhas, duas formas de entrar nele. Tudo depende do que se pretende fazer com o rebanho. Se alguém se aproxima do redil e “não entra pela porta”, mas pula o muro, é evidente que não é o pastor, então é um “ladrão e assaltante”. Não vem para cuidar do rebanho. É “um estranho” que vem “roubar, matar e destruir” (v. 10).

A atitude do pastor é muito diferente; ele “entra pela porta”, chama as ovelhas pelo nome e elas atendem à sua voz, Ele as tira para fora; fá-las sair, uma vez saídas, coloca-se à frente, adiante do rebanho e caminha, ao estilo palestino, não detrás das ovelhas, mas à sua frente. Elas o seguem porque reconhece a sua voz, ele as conduz não a pedradas ou tangidas aos gritos, fustigadas pelo seu cajado; mas sim o pastor lhes marca o caminho com seu próprio caminhar, passar pelo mesmo caminho feito por ele, de serviço, esforço, entrega generosa, de amor, ternura e lealdade.

Que segredo se esconde nessa “porta” que legítima os verdadeiros pastores que passam por ela e desmascara os estranhos que entram “por outro lado”, não para cuidar do rebanho, mas para fazer-lhe mal? Os fariseus não entendem de que o Mestre lhes está falando. Então Jesus dá-lhes a chave do relato: “Eu sou a porta das ovelhas” (v. 7).

A imagem da porta simboliza uma possibilidade de inter-relação entre o exterior e o interior, do conhecido ao desconhecido, de um ambiente ao outro, de fora para dentro, do sagrado ao profano. A porta favorece então a comunicação entre dois espaços, é uma passagem, que dá a possiblidade de entrar ou sair, abrir ou fechar.

Mas quando Jesus se compara à “porta das ovelhas”, o povo simples podia compreendê-lo. Agora é Jesus a “porta”. A salvação passa necessariamente por Ele, por Ele se pode entrar e sair para encontrar Deus e para encontrar a Vida. Mais do que isso, Ele agora o protege, o defende. O Ressuscitado vigia e cuida dos seus. Não estamos à mercê da incerteza e da insegurança. Ele tem em suas mãos nosso destino, e isso nos é consolador. Cristo e Senhor não é uma porta que se fecha, limita ou separa, mas sim guarda, protege, cuida e se abre para um futuro melhor!

Jesus é a porta aberta, sem exceções. Não se fecha, pelo contrário, parece que fica ainda mais aberta quando procuram ter o controle dos que entram por ela, assim como o pastor deixa entrar todas as ovelhas porque todas fazem parte do seu redil. Ao Cristo não lhe espantou o encontro pessoal, às vezes o cheiro desagradável das ovelhas, das pessoas à sua volta. O Bom Pastor vai direto ao coração das pessoas. Nele não há exclusivismos ou rejeições, pelo contrário, Ele sempre convida-nos a entrar no seu interior, na sua casa.

Jesus é a porta sempre aberta, a porta de entrada no seu Reino, na comunidade cristã. Uma porta aberta de par em par jamais é obstáculo e sim possibilidade que se oferece. As comunidades cristãs e seus pastores de cada tempo têm de cuidar para não estreitar a porta, modificando o que foi estabelecido pelo único pastor e porta.

Quanto ao pastor, conhece as ovelhas e elas se sentem seguras ao ouvir a sua voz; as tira, caminha diante delas, as chama, lhe seguem… Que sensação de acompanhamento e de segurança! Não estamos sós. Somos cuidados, somos protegidos. Ou o que é o mesmo: em meio ao caos somos conhecidos, somos amados. Não vivemos desamparados ou à mercê de repentinos surtos virais e pandemias mortais. Sentir essa sensação no fundo nos fortalece e nos empurra a viver com esperança tudo o que passamos.

Neste tempo de pandemia, vivemos em muitos lugares com nossas igrejas e casas a portas fechadas. Jesus o Bom Pastor nos convida a abrir a porta da esperança que a encontramos nele. Sua proximidade alimenta nossa esperança e fortalece nossa confiança e solidariedade abrindo-nos aos mais afetados por esta crise sanitária.

Apesar da difícil situação que estamos vivendo, o Cristo Senhor nos convida a ser uma porta aberta, a porta da ressurreição que traz vida onde há morte, consolação onde há desalento. Dar uma palavra de alento à pessoa desconsolada pela dor e pelo sofrimento que padece.

Peçamos ao Bom Pastor que guarda nossas vidas, o Ressuscitado, porta da Vida, que diz: ”Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”. (v. 10) Que sejamos portadores da sua Vida ao mundo e uma porta sempre aberta como Ele.

 

Pe. José Assis Pereira Soares
Pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus 

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