Eucaristia e Cruz, provas do amor de nosso Deus

Não é possível entrar no mistério da Páscoa do Senhor sem passar pela sua última noite em Jerusalém, noite da traição e negação, noite de entrega.

Também sobre nós se abateu uma noite, dificuldades interiores e exteriores, pessoais e de toda humanidade, clima de pandemia, de medo e de incertezas, o vírus que espanta e bloqueia a vida e os projetos, trazendo-nos a sensação de impotência e o medo de permanecer sozinhos e isolados. São várias as razões que parecem apagar a confiança e obscurecer a esperança. Como para os discípulos naquela noite tensa, naquela ceia de despedida, também para nós as tentações de fuga e resignação, de desesperança e de tristeza parecem a única reação possível ao momento difícil que estamos vivendo.

Não precisamos de muita imaginação para reconhecer que às vezes o “Povo de Deus” e até mesmo nós, passamos por noites tenebrosas: “Nessa mesma noite, passarei pela terra do Egito e hei de ferir de morte… (Mas) não sereis atingidos pelo flagelo exterminador, quando Eu ferir a terra do Egito.” (cf. Ex 12,1-8.11-14) O sangue do cordeiro, com o qual os israelitas marcaram as suas portas serviu para que naquela noite não fossem atingidos pelo “flagelo exterminador”, dando significado à palavra Páscoa, (saltar, passar por cima de). O flagelo mortal passou por longe das casas dos israelitas, simbolizando a passagem do Senhor a fim de libertar o seu povo.

No entanto, a celebração da Páscoa não era para os israelitas uma mera recordação agradecida da libertação duma escravidão passada, mas era algo que os orientava para uma libertação futura completa e definitiva, que se haveria de dar com a vinda do Messias. Havia até mesmo uma crença judaica em que o Messias viria numa noite de Páscoa: “nesta noite foram libertados e nela também serão libertos”.

Esta alegre esperança manifesta-se no costume, que ainda hoje se mantém, de deixar um lugar vazio à mesa, para alguém que chegue na última hora. De fato, um dia o próprio Messias havia de se pôr à mesa da ceia pascal, rodeado dos seus discípulos, para então inaugurar a era da autêntica e definitiva libertação. Jesus é o verdadeiro cordeiro pascal que se oferece em sacrifício, com cujo sangue somos redimidos e com cuja carne somos alimentados no banquete eucarístico, prelúdio do banquete celeste.

O Evangelho (cf. João 13,1-15) dessa celebração vespertina da ceia do Senhor ressalta logo de inicio: “Sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar desse mundo para o Pai”, quer dizer, aceitando entrar profundamente em nossas noites, Cristo não se afastou do medo em todas as suas formas: medo da incompreensão e da solidão, do abandono e da traição, da fadiga e do sofrimento físico e psicológico, até à morte. Por meio dela, a impotência e o fracasso são transformados numa fonte de esperança. Cristo não venceu a morte fugindo dela, mas passando por ela, suportando com amor o seu terrível peso e abrindo-a com confiança e esperança ao mistério do Pai. Não existem atalhos para chegar à Páscoa: traição e espada, subterfúgios e acordos prolongam e não encurtam a noite. A vitória do amor só vem depois do sacrifício do amor. O ressuscitado é o crucificado! Não queremos e não podemos percorrer outros caminhos que não sejam o glorioso Caminho da Cruz para uma vida e ministério novos e fecundos.

“Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”. (v.1) O amor de Jesus por nós não tem limites; sempre mais, sempre mais. “Todos sabemos amar, mas não somos como Deus, que ama sem considerar as consequências, até o fim.” (Papa Francisco) Nunca se cansa de amar ninguém. Jesus levou o seu amor por nós ao ponto de dar a sua vida por cada um de nós, na Cruz e na Eucaristia. E nós podemos dizer: Ele deu a vida por mim. Mas para o seu amor infinito é pouco dar-se todo uma única vez por todos. Ele dá-se todas as vezes que nos dispomos a abrir o nosso coração para recebê-lo.

“Jesus, sabendo que o Pai tinha colocado tudo em suas mãos e que de Deus tinha saído e para Deus voltava, levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura… e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los…” (vv. 4-5) Gesto que os discípulos não entendem. O hábito de lavar os pés era o costume que se seguia naquela época, antes das refeições para receber uma pessoa em casa, e também para comer, no entanto eram os escravos que o faziam. Jesus, como escravo, lava os pés dos discípulos e diz a Pedro: “Agora, não entendes o que estou fazendo, mais tarde compreenderás”. (v. 7)

Ao levantar-se da mesa, distanciando-se do lugar reservado àqueles que a presidem e se situando no lugar dos “escravos”, pois Jesus sabia que o lugar em que estamos situados condiciona nosso olhar e nossa atitude; ao tomar distância, a partir desse lugar toca de perto a fragilidade humana, a sujeira, o mau cheiro…, inclusive daqueles que estão sentados à mesa. Ali rente ao chão e em contato com os pés dos outros, Jesus ampliou sua visão e percebeu as riquezas e dons de cada um, a fragilidade e as limitações das pessoas, dos seus discípulos. E vistos a partir daí, Ele deixa transparecer que qualquer pretensão de superioridade ou domínio se revela ridícula.

Para Jesus os maiores e os mais importantes são aqueles que segundo nossos critérios não são contados, estão fora, são os descartados e assim Jesus rompe com a verticalidade das relações senhor-escravo, os de cima e os de baixo, os de dentro e os de fora, inaugurando a nova ordem circular do Reino, onde ninguém é excluído.

Jesus sai do lugar da presidência da mesa, depõe as vestes da sua condição real, abraça-nos com a sua humanidade e faz-se Servo para nos limpar, para nos lavar, par nos curar. Dia após dia somos como que cobertos de várias formas de sujeira, do nosso pó, de preconceitos, da falsidade e da hipocrisia escancarada que se infiltram como vírus no nosso intimo. Se acolhermos gestos e palavras de Jesus com o coração atento e aberto, com um coração de fé, elas se revelarão verdadeiros banhos da alma.

“Compreendeis o que acabo de fazer? Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem, pois eu o sou. Portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz”. (vv. 12-15) Compreendemos hoje que Cristo não está presente apenas em nossos espaços sagrados, em nossas liturgias, na sua Palavra ou no pão eucaristizado, mas também onde houver alguém que lava os pés do seu irmão, ou de alguém capaz de um gesto de amor fraterno, um gesto de caridade: “Onde o amor e a caridade, Deus aí está!”

Cada um de nós tem uma história de vida e carrega essa história consigo: tantas noites, tantas cruzes, tantos sofrimentos, mas também um coração aberto que deseja o amor e a fraternidade. Cada um, na sua língua religiosa, reze ao Senhor para que esta fraternidade contagie o mundo, para que haja sempre a fraternidade, bondade, solidariedade, gente capaz de lavar os pés uns dos outros no serviço generoso.

Deus espera, sobretudo, de todos nós cristãos, que evidenciemos com o nosso testemunho, que saímos desta pandemia mostrando que é possível construir uma sociedade alicerçada em outros princípios, diferentes dos princípios egoístas do lucro: na partilha dos bens e do pão, no serviço mútuo, no respeito pelos outros, na solidariedade para com os mais fragilizados.

 

Pe. José Assis Pereira Soares
Pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus 

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