É melhor deixar Deus ser Deus

O ensinamento do evangelho de hoje (cf. Mt 20,1-16), vem da parábola que costuma chamar-se “parábola dos trabalhadores na vinha”, uma das mais significativas quando Jesus fala no Reino de Deus. No entanto, por ser o protagonista o proprietário da vinha, alguns teólogos chamam-lhe hoje a “parábola do empregador que queria trabalho e pão para todos”. Sem dúvida, uma das parábolas mais surpreendentes e provocadoras de Jesus.

Tomando um episódio da vida cotidiana, do mundo do trabalho e da realidade do desemprego. A cena é muito familiar, tanto para Jesus como para os seus ouvintes e Jesus a transforma em Palavra de Deus: uma palavra em imagens do trabalho.

É o tempo da colheita, há necessidade de mão de obra; o próprio dono da vinha vai contratar, em horários diferentes, trabalhadores para sua vinha: “Vão trabalhar na minha vinha!” Quando contrata a primeira turma acerta “uma moeda de prata por dia”. Nas turmas seguintes ele já não diz o quanto vai pagar, “pagarei o que for Justo”. Ao fazer o pagamento, ficamos sabendo que todos, dos últimos aos primeiros, receberam o mesmo salário, começando pelos últimos, contratados à tardinha, até os primeiros, contratados de manhã: não há nenhuma distinção, todos são iguais, é a igualdade da recompensa do Reino de Deus.

A narração termina com um dito de Jesus “os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos” (v.16a), que ilustra o que é tão desproporcional ou “contracultural” como hoje se costuma dizer em círculos exegéticos sobre como pensa e age Jesus de Nazaré.

Ao tentar entender essa parábola é preciso levar em conta as palavras do profeta Isaías (cf. Is 55,6-9): “Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos”. O profeta fala que Deus não é como o imaginamos; age com misericórdia. É verdade que Ele nem sempre se apresentou assim na teologia do Antigo Testamento. O profeta quer provocar seus ouvintes que pensam que Deus é terrível, distante e justo. Os caminhos do Senhor, é verdade, não são os dos homens; nem seus planos são como os nossos. Isaías foi o que melhor formulou esse caráter específico do Deus da Aliança, que Jesus fala em seu evangelho e na parábola de hoje.

A conduta do dono da vinha que saiu a contratar trabalhadores é estranha. Não parece motivado pela colheita, vindima ou pela produtividade. O que lhe interessa é que aquelas pessoas ociosas na praça não fiquem sem trabalho. Por isso, sai inclusive na última hora para dar trabalho àqueles que ninguém chamou. E por isso, no final da jornada, dá a todos o “denário” que necessitam para jantar nessa noite, mesmo aqueles que não o mereceram. Quando os primeiros protestam, esta é a sua resposta: “Vocês estão com inveja porque estou sendo bom?” (v.15) Que nos leva a perguntar-nos: Por que ficamos tristes com a felicidade alheia, quase como se fosse um atentado contra a nossa?

Não seria lógico para nós fazer o contraste entre a justiça estrita que usa em seu apelo os trabalhadores da primeira hora e a misericórdia ou generosidade que se aplica aos últimos trabalhadores, mas é aí que está o centro do escândalo, da contracultura: não foi isso que no tempo de Jesus foi pensado, nem agora. Acredita-se que seja uma parábola que se conta por causa das críticas dos fariseus, religiosos escrupulosos ao longo da vida, que no final recebem a mesma recompensa que os outros.

É obvio pensar que um grande agricultor, em épocas de colheita, precisava de diaristas até o último minuto para a colheita das uvas e paga bem. Mas não é isso que conta nesta parábola. O que é relevante é que o dono do vinhedo é generoso também com os últimos que ele foi capaz de contratar e não parece que valesse a pena a contratação desses na última hora; é pura generosidade do proprietário do vinhedo, e é aí que as tintas são carregadas: “Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence?” (v.15)

É assim que o Reino de Deus funciona, não o mundo, e por isso a justiça é feita de uma forma absolutamente diferente da de qualquer outra instituição. Portanto, quando usamos essa parábola para iluminar teologicamente a justiça social e a produtividade, não cometemos um erro, mas também não é a coisa certa a fazer na sua leitura e interpretação.

Para entender melhor a parábola, deve-se notar que o trabalho “do sol ao sol” foi de doze horas. Os trabalhadores do primeiro dia foram contratados às 6h, e o último, às 17h, 11ª hora. É por isso que eles são informados pelo dono do vinhedo, “Por que estais aí o dia inteiro desocupados?” Podemos imaginar o contexto histórico desta parábola de Jesus em sua atitude de receber e acolher pecadores contra a mentalidade legalista e puritana dos controladores das leis da pureza e santidade. E da mesma forma podemos assumir um contexto eclesial da comunidade de Mateus, que quer explicar a alguns judeu-cristãos que o chamado dos pagãos e sua generosa resposta os colocou no mesmo plano de salvação que eles. Tudo na parábola é desconcertante e ao mesmo tempo original.

Não é fácil acreditar nessa bondade insondável de Deus da qual fala Jesus. Muitos podem se escandalizar de que Deus seja bom com todos, sejam eles merecedores ou não, sejam crentes ou agnósticos. Mas Deus é assim. E o melhor é deixar Deus ser Deus, sem o diminuirmos com as nossas ideias e esquemas. A parábola quer ensinar uma coisa, decisiva: Este é Deus no que diz respeito à salvação. Todo o resto não é suficiente, mas vem para servir a essa ideia que é verdadeiramente afrontosa.

Este é o Deus de Jesus; esta é a mensagem radical do evangelho do Reino. Não é que o trabalhador que chegou na última hora, tenha trabalhado tão duro quanto os outros que foram mais tempo empenhados em seu trabalho; Na parábola, os trabalhadores que chegaram de última hora, não têm mérito nenhum, mas receberam o que indubitavelmente precisavam para as necessidades de sua família e para suas vidas. Voltaram ao final do dia levando o pão para jantar em casa. É bem possível que eles não merecessem essa diária, do ponto de vista da justiça simples ou produtividade, mas da bondade de Deus eles receberam “livremente” o que precisavam.

Assim é o Deus de Jesus, assim é o Deus da salvação, assim o Deus cujos “caminhos estão acima dos vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos.” (Is 55,9) Todos os trabalhadores do dia puderam trazer para casa o pão diário, uns por justiça e outros por generosidade. Mas isso só acontece no Reino de Deus, reino da vida, reino da salvação, reino do perdão, da misericórdia e da solidariedade. Aqui está a contracultura do amor do Deus de Jesus.

Padre Assis Pereira Soares
Pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus.

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