Deus fará justiça

O Evangelho de São Lucas segue mostrando sua sensibilidade com a realidade e os problemas dos pobres no caminho de Jesus. Na “parábola do juiz e a viúva”, (cf. Lc 18,1-8) ele mostra Jesus tomando a defesa das viúvas e situa esta parábola juntamente com a do “fariseu e do publicano” (cf. Lc 18,9-14) como introdução ao modo correto de orar.

Mas estas duas parábolas não são, com certeza originalmente uma instrução sobre a oração. Apesar da introdução: “Jesus contou aos discípulos uma parábola, para mostar-lhes a necessidade de rezar sempre, e nunca desistir.” (v.1) Pois, se ficarmos só com esta interpretação, põe-se no centro a figura da viúva, enquanto que a aplicação: “Escutai o que diz o juiz injusto. E Deus, não fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por ele? Será que vai fazê-los esperar? Eu vos digo que Deus lhes fará justiça bem depressa” (vv. 6-8), mostra que a narrativa é orientada para a figura do juiz.

Jesus conta a parábola para que os seus ouvintes se voltem para Deus. Se este “juiz que não temia a Deus e não respeitava homem algum” (v. 2), que se nega atender em audiência a viúva com suas demandas, mas que por fim, mesmo depois de tanta demora, a socorre na sua angústia, unicamente para se ver livre da amolação da requerente, quanto mais Deus! Deus atende aos pobres com paciência, ouve os seus eleitos, sua angústia tem acesso ao seu coração: “Deus lhes fará justiça bem depressa”.

Nesta parábola, portanto, não cabe perguntar quem é mais importante: o juiz ou a viúva? Por um lado é a mulher que não se intimida e insiste que se faça justiça. O faz com suas armas: sua palavra e sua perseverança. Não usa métodos violentos, porém está convicta de que tem direitos aos quais não pode renunciar. Mas, também, é verdade que este juiz, chega a convencer-se que esta mulher, com sua insistência, pode tornar sua vida muito incômoda. Por isso ao final, sem convencimento pessoal, decide assim mesmo, fazer-lhe justiça.

No entanto, não podemos comparar Deus a esse juiz. O juiz não representa simbolicamente Deus, seria absurdo! O Deus de quem Lucas quer falar é coprotagonista com a viúva. Se um juiz sem fé faz justiça apenas para não se aborrecer; indiretamente aqui se faz uma crítica aos que têm em suas mãos as leis e as põem a serviço dos poderosos. Disto sabemos muito bem por experiência em nossa história no Brasil. Deus, diferente do juiz, é todo atenção e misericórdia, é outra coisa; não tem ofício, nem fez carreira de juiz. Deus é juiz, se quisermos dar-lhe um título, mas é sobretudo, Pai. Dessa maneira se entende que agirá de forma mais sensível ante a confiança e perseverança dos que lhe pedem, e especialmente dos que têm sido despojados de seus direitos, de sua dignidade, de sua verdade e de sua vida. Deus ouve o grito do seu povo oprimido por causa de seus opressores; pois conhece suas angústias. (cf. Ex 3,7)

A viúva representa o povo, os pobres e oprimidos que lutam clamando por justiça. É preciso procurar os direitos e conquistá-los. Muitas vezes nos inquietamos com o silêncio de Deus, parece que Ele não nos escuta, passivo assiste às injustiças e o sofrimento, o desespero e a indignação se prolongam, até quando?… “De onde pode vir o meu socorro?” (cf. Sl 120)

No entanto, é preciso confiar: “Deus fará justiça.” O desânimo ou o desespero não é o caminho, nem tampouco a vingança ou a violência não são, ou muito menos a passividade. Carregada de confiança, de esperança e sobretudo de fé a pobre viúva que clama por justiça ante aquele juiz iníquo é modelo do cristão que deve ser lutador paciente, corajoso e nunca passivo ou acomodado ante todas as formas de injustiça, violação dos direitos ou pura maldade. Ela tem a fé que abre todas as portas.

Esta parábola é realmente para inculcar a confiança em Deus, mais que nas pessoas, nas instituições ou leis. Uma parábola para dizer-nos que é preciso manter viva a fé sem perder a confiança no Deus Justo. Enquanto outros nos despojam de nossos direitos, da justiça, ou da nossa dignidade; Deus está conosco, Deus fará  sua justiça.

Mas ao final do evangelho de hoje Jesus nos faz uma pergunta misteriosa e inquietante: “Mas o Filho do Homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?” (v.8) Faz dois domingos que escutamos os discípulos pedir a Jesus que lhes aumentasse a fé. (cf. Lc 17,5-10) Hoje é um bom dia para pedir de novo ao Senhor que nos dê essa fé que tanto nos falta, que nos dê a confiança nele e em sua justiça, a confiança daquela viúva, a confiança dos pobres, a confiança do salmista: “O Senhor é o teu guarda, o teu vigia, é uma sombra protetora à tua direita… te guardará de todo o mal, Ele mesmo vai cuidar da tua vida.” (cf. Sl 120)

A fé, como sabemos, é a confiança total em Deus, e essa confiança é a que nos falta quando nos angustiamos e indignados cansamos de pedir a Deus. Porque nós cremos saber quando tem de acontecer as coisas, mas a fé nos faz compreender as demoras de Deus, ver que é Deus quem leva nossa vida e a nossa história, que é Ele quem faz acontecer a justiça quando há de fazer. Que Ele nunca nos deixa sós, ainda que às vezes no-lo pareça.

Nosso Deus colocou no centro da história da humanidade seu próprio Filho, crucificado e ressuscitado, para dar-nos um sinal de esperança. O sofrimento dos que clamam por justiça se une ao sofrimento de Jesus e então se manifesta como força transformadora. Quando a provação é grande, logicamente vem o cansaço e a sensação da derrota. A força ressuscitadora é a fé, com força do Espírito para que seja perseverante, no sofrimento e no chamado à conversão.

O problema fundamental ante as situações difíceis e também nas fáceis e que se perde o norte, está em olhar para o outro lado ante os ensinamentos de Jesus e sua Cruz; temos perdido algo fundamental, já se ouve dizer que são os valores, especialmente do saber compartilhar, da solidariedade, da fé e da religião. Épocas, chamadas de progresso, fizeram perder toda perspectiva de um desenvolvimento integral humano. Por isso Jesus pergunta se “quando Ele voltar encontrará fé na terra?”

A nossa missão no mundo, como cristãos, se faz concreta em dinamizar enfrentamentos e divisões; superar o sofrimento até onde se possa, defender a vida. Testemunhar uma fé que ilumine o projeto salvador e libertador que implante a justiça divina em favor dos necessitados e que cesse essa justiça cansada e morosa, que a única coisa que faz é prolongar o sofrimento e o desespero dos injustiçados.

O Papa Francisco em sua mensagem para este Dia Mundial das Missões nos recorda que este dia coincide com o Sínodo da Amazônia: “A coincidência providencial do Mês Missionário Extraordinário com a celebração do Sínodo Especial sobre as Igrejas na Amazônia leva-me a assinalar como a missão, que nos foi confiada por Jesus com o dom do seu Espírito, ainda seja atual e necessária também para aquelas terras e seus habitantes. Um renovado Pentecostes abra de par em par as portas da Igreja, a fim de que nenhuma cultura permaneça fechada em si mesma e nenhum povo fique isolado, mas se abra à comunhão universal da fé. Que ninguém fique fechado em si mesmo, na autorreferencialidade da sua própria pertença étnica e religiosa… Eu sou sempre uma missão; tu és sempre uma missão, cada batizada e batizado é uma missão… cada um de nós é uma missão no mundo, porque fruto do amor de Deus.”

Pe. José Assis Pereira Soares

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