Deus é o que ama, o amado e o amor

A solenidade da Santíssima Trindade que hoje celebramos pode dar pé às reflexões teológicas mais profundas sobre Deus ou à experiência de seu amor. Ou talvez as duas coisas, pois a Trindade não é um postulado de doutrina cristã, mas sim a “revelação” do Amor do Pai, por meio do Filho amado, comunicado interiormente pelo Espírito Santo.

Em uma sociedade como a nossa, onde uma parte das pessoas tem sede do mistério de Deus, mas outra vive o distanciamento de toda e qualquer prática religiosa, convém a nós que cremos ajudar as pessoas a descobrir Deus através de uma experiência existencial pessoal.

Para falar corretamente sobre a Santíssima Trindade, a Igreja nos diz que há ao menos duas formas de fazê-lo: uma é a partir do saber teológico e a outra a partir da experiência mística. Teologicamente falando, a Trinidade é um só Deus que, tendo uma só natureza, são três Pessoas que se desdobram na História da Salvação. A teologia é o modo como o ser humano, com seu limitado conhecimento, fala de uma forma razoável de Deus, que é infinito e perfeito. A outra forma de falar da Santíssima Trindade é por meio da experiência mística, silenciosa e contemplativa que ativa em nós uma intensa sensibilidade, capaz de nos despertar para entrar em sintonia com Deus fazendo de nosso coração sua morada.

A revelação sobre Deus e o seu ser nunca poderá ser apreendida por nós, unicamente através das formulações dogmáticas. A Trindade não é uma simples doutrina a ser acolhida, ou uma verdade a ser pensada, mas uma Presença a ser vivida, com espanto e admiração. É maravilhoso contemplá-la, como através da sagrada liturgia, dobrando-nos em humilde reverência, adorando-o e deixando-nos impactar por tão grande e tão profundo mistério, tão belo e inefável dom que a teologia tentou expressar em palavras, mas sentiu-se impotente.

Contemplemos hoje dois testemunhos experienciais de Deus: O primeiro vem da experiência de fé de Moisés e do povo hebreu; o outro testemunho é o de um homem ou uma comunidade deslumbrada na contemplação de Deus que não hesitou em defini-lo como “Amor”, é o testemunho de João (cf. Jo 3,16-18), o discípulo amado e da comunidade do primeiro século.

Moisés pediu a Deus que lhe mostrasse a sua face, e o Senhor lhe teria respondido: “Tu não podes ver a minha face, porque ninguém pode me ver e continuar vivendo”. (Ex 33, 20) E é assim como o faz a passagem do Êxodo (cf. Ex 34,4b-6.8-9). Diz-nos que, de madrugada, Moisés subiu ao monte Sinai com as tábuas da lei e que Deus falou na nuvem e ficou com ele. Quer dizer, Moisés fez o esforço ascético de subir até Deus, e o fez guiado pelos Dez Mandamentos, isto é, pela vontade divina; e Deus, por sua parte, desceu e o cercou com a “nuvem”.

Com efeito, todos na vida temos a experiência de ter caminhado dentro de uma nuvem, quer dizer, em meio da neblina ou “cerração”, na qual não conseguimos ver nada e nos sentimos desorientados. Por isso a nuvem simboliza o mistério de Deus. Essa é a vivência mística de Moisés, que experimentou como Deus lhe envolvia com seu mistério. E como reagiu Moisés? Primeiro sentiu a compaixão e a misericórdia de Deus e, depois, intercedeu por seu povo, para que Deus lhe perdoasse e permanecesse junto a ele, “caminha conosco”.

Portanto, o nosso Deus não é um Deus distante, inacessível e silencioso, que se demitiu do seu papel de Criador e que assiste indiferente aos dramas da humanidade; mas é um Deus que acompanha a caminhada da humanidade. Mas há, com certeza, ao longo da nossa vida, momentos de solidão e de desespero, em que procuramos Deus e não conseguimos perceber sua presença; no entanto, é, sobretudo nesses momentos dramáticos da história pessoal ou da humanidade, que é preciso não esquecer que Deus nunca desiste dos seus filhos e filhas e que nenhum de nós lhe é indiferente.

Ao longo dos séculos, os teólogos fizeram um grande esforço para aproximar-se do mistério de Deus, formulando diferentes conceitos de quem é Deus e como se diferenciam as Pessoas Divinas no seio da Trindade. Jesus, no entanto, não segue esse caminho. A partir da sua própria experiência de Deus, de sua relação com o Pai, convida seus discípulos a relacionar-se e a seguir seus passos de Filho de Deus, e a deixar-nos guiar pelo Espírito Santo. Ensina-nos assim a abrir-nos ao mistério santo de Deus que habita em nós.

Antes de tudo, Jesus convida seus seguidores a viver como filhos e filhas de um Deus próximo, bom e afetuoso, a quem todos podemos invocar como Pai. O que caracteriza este Pai não é seu poder e força, mas sua bondade e compaixão infinitas. Ninguém está sozinho. Todos têm um Deus Pai que nos compreende, nos quer bem e nos perdoa como ninguém.

“Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele”. (Jo 3, 16-17) O Deus revelado por Jesus é Amor e aproximar-nos do Deus Amor é descobrir a Trindade.

Deus é Amor”, ou seja, Deus não é uma realidade fria e impessoal, um ser triste, solitário e narcisista. Não podemos imaginá-lo como poder impenetrável, fechado em si mesmo. Em seu ser mais íntimo, Deus é amor, vida compartilhada, amizade prazerosa, diálogo, entrega mútua, abraço, comunhão de pessoas. O amor trinitário de Deus é amor que se faz presente em todas as criaturas. E o Amor nunca é solidão, isolamento, mas comunhão, proximidade, diálogo, aliança…

Nestes tempos de pandemia do “corona-vírus” e de isolamento social muitas pessoas tem experimentado quão difícil é a solidão. A solidão é um peso que oprime grande número de pessoas de todas as idades. Cria a insegurança e mergulha suas vitimas na tristeza, e pode fechá-las no egoísmo ou em atitudes antissociais. Os excluídos do convívio humano, isolados de tudo e de todos, não são apenas os idosos e os doentes. São já as crianças e os jovens.

Desde o Batismo fomos constituídos templos vivos de Deus. Ele habita em nós de modo que se quisermos nunca nos encontramos na solidão, nunca estamos sós. Deus vence nossas solidões. Deus comunidade de Três Pessoas na Verdade e no Amor, oferece-nos o remédio contra esta solidão e ajuda-nos a vencê-la, chamando-nos a uma vida eterna que será comunhão com o Pai e o Filho e o Espírito Santo e há de ser experimentada já agora. Deus quer viver em proximidade conosco. Chama-nos à comunhão com Ele.

“Deus amou o mundo”. Em Deus o Amor não é uma qualidade como em nós, mas sua essência. Se Deus deixasse de amar um só instante, deixaria de ser Deus. O movimento que parte do Pai, passa pelo Filho e se consuma no Espírito é um movimento de Amor sem fim. Amor que deveria viralizar e envolver o mundo todo, segundo o relato do evangelho deste Domingo “para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna”. (Jo 3,16)

Pe. José Assis Pereira Soares
Pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus 

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