Deus, a Grande Morada para a qual Jesus é o Caminho

No V Domingo da Páscoa voltamos ao cenário da última ceia. Jesus à mesa com seus discípulos faz seu discurso de despedida, seu testamento (cf. Jo 14,1-12). O grupo dos mais próximos de Jesus está vivendo um momento de tensão e medo. O ambiente está carregado: a traição de Judas, o anúncio da negação de Pedro perturba a todos porque percebem que Jesus vai a caminho da morte e não compreendem a razão. Ele conforta-os: “Não se perturbe o vosso coração…” Explica-lhes então o sentido da sua morte: “Vou preparar-vos um lugar!” Transmite-lhes uma alegria que também nos enche de esperança, a nós: “Na casa de meu Pai há muitas moradas!” (vv. 1-2)

Assim como no Domingo passado Jesus usou a metáfora da “porta”: “Eu sou a porta do redil das ovelhas” (Jo 10,7), hoje usa duas metáforas: “casa” e “caminho”. “Eu sou o Caminho, Verdade e Vida” (v. 6); Caminho é metáfora, mas Verdade e Vida são experiências humanas.

“Não se perturbe o vosso coração.” (v. 1) Essas palavras de início nos permitem imaginar a situação dos discípulos nesse momento e descrevem também a situação das comunidades cristãs do primeiro século, perseguidas que possivelmente estão desanimadas e desorientadas. Jesus percebe a preocupação dos seus e tenta reconfortá-los. Como os discípulos de Jesus também nós experimentamos muitas vezes o desânimo e a impossibilidade de saber para onde ir, qual o caminho a seguir.

No momento atual, a pandemia do corona vírus nos coloca numa situação de medo, de fragilidade e de vulnerabilidade.  Assim como Jesus se dirige aos seus discípulos, também hoje, nesta situação de incerteza e de insegurança a nível mundial, Ele convida-nos a escutar suas palavras e acolhê-las: “Não se perturbe o vosso coração.”

Quando atravessamos crises como aquela vivida por Jesus e seus discípulos na véspera da Paixão, é reconfortante entrar na profundidade de nosso ser e deixar ressoar estas palavras: “Não se perturbe o vosso coração; tende fé em Deus, tende fé em mim também. Na casa do meu Pai há muitas moradas!” (v.2)

Jesus fala de um lugar, uma casa, uma morada. Nesse sentido, a “casa” é mais do que uma realidade física, feita de paredes, portas, janelas e telhado. “Casa” é uma experiência existencial interior e reveladora de nossa identidade, ligada ao que há de mais precioso na vida humana, sua relação afetiva entre aqueles que a habitam e com aqueles que nela são acolhidos.

A casa, já disse alguém, é o espelho mais honesto dos nossos hábitos, o abrigo dos nossos medos, a nossa fotografia. É por este motivo, talvez, que muitos acham tão difícil, sobretudo nestes tempos de isolamento social, ficar em casa e fogem da própria casa: não querem enxergar a si mesmos.

A casa nos ajuda a fincar raízes neste mundo e em nós mesmos; ela é lugar de referência e nos fornece orientação; ela anima nossa espera e alimenta o encontro; recolhe e conserva nossa história, acolhe e guarda na memória de tantos objetos de decoração as nossas alegrias e as nossas tristezas, as nossas conquistas e os nossos fracassos…

“Ficar em casa” é estar no seu espaço, na sua intimidade, no lugar de plena liberdade e espontaneidade. Ela é o cenário principal dos episódios de nossa vida; é o lugar seguro que nos possibilita repouso e revigoramento afetivo, bem-estar e proteção… Casa representa segurança e refúgio das ameaças que vêm de fora; ela nos oferece um espaço estabilizador, pacificador, suscitando saúde integral. Sem ela facilmente perdemos a calma e o equilíbrio, tornando-nos presas fáceis da agitação, da perturbação, do medo e da angústia.

É de nossa condição humana buscar um espaço, um lugar acolhedor, o lugar onde nos situamos no mundo e onde podemos ser encontrados. Como é bom experimentar que todos temos lugar, espaço! Deus mesmo, seu coração se faz espaço amoroso para nós. Temos um lugar no coração de nosso Deus.

Neste mundo disperso e de lugares vazios, carente de espaços diferentes, vitais, humanizadores, o evangelho hoje nos dá referências e amparo. E a primeira referência que nos pacifica é a “casa”. “Na casa de meu Pai há muitas moradas”. (v. 2)

Também o lugar cotidiano da casa se converte no lugar concreto do encontro com Aquele que faz de nossa casa, sua morada. Nossas moradas provisórias nos revelam que somos peregrinos em busca da morada definitiva; caminhamos para a “casa” de Deus. Podemos, então, afirmar que quem realmente habita “nossa casa” não é o “eu”, mas Deus. Esta morada interior é o espaço de oração, de admiração, de mistério, de silêncio; morada aberta e acolhedora, ambiente da comunhão, da comunicação, da intimidade; é a partir desta morada carregada de presenças que se vai ao Pai a Grande Morada.

Mas, o apóstolo Tomé diz com sinceridade: “Como podemos conhecer o caminho?” A resposta de Jesus é direta: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim.” (vv. 5-6)

A metáfora do “caminho” expressa o dinamismo da vida. Cada ser humano é um “caminhante”, como diz o poeta espanhol Antonio Machado: “caminhante, não há caminho, o caminho se faz caminhando”. Efetivamente estamos sempre a caminho de nós mesmos. Fundamentalmente, ou nos realizamos ou nos perdemos. E o viver é que nos vai levando à perfeição e acabamento de nós mesmos. Mas o seu termo pode ser êxito ou insucesso. O êxito é a maturidade, o pleno desenvolvimento das potencialidades. O insucesso, a decadência, a ruína.

Jesus aponta a direção em que o ser humano se realiza: o caminho que Ele próprio abriu e traçou, o caminho da solidariedade e da entrega, o caminho do amor. Aí se encontra o êxito da vida, a vida definitiva. Todo outro caminho leva ao nada, à morte. A meta é a máxima solidariedade com as pessoas, dando-se inteiramente. Nesse amor encontra-se com o Pai. “Ninguém vem ao Pai a não ser por mim.” (v. 6)

A encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus foram realmente um caminho que Ele percorreu para voltar ao Pai, de onde saiu. Seu caminho foi fazer a vontade do Pai e, ao mesmo tempo, mostrar-nos o caminho que deveremos percorrer se quisermos chegar como Ele ao nosso.

O caminho, para nós cristãos é o ideal da conduta cristã, a maneira cristã de viver, pois o cristianismo é indicado simplesmente como “o caminho”. Os primeiros cristãos eram chamados “os do caminho”, antes de começar a ser chamados de “cristãos”.

Também nós, discípulos e discípulas de Cristo hoje, necessitamos fazer de nossa vida um duplo caminho de purificação interior e de anúncio do evangelho de Jesus. Ele é nosso caminho e nossa vocação cristã é identificar-nos e viver em comunhão com Ele. Assim o fizeram os primeiros cristãos, os “do caminho”. O compromisso de anunciar Jesus, “Caminho, Verdade e Vida”, é a tarefa principal da Igreja.

Pe. José Assis Pereira Soares
Pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus 

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