Deixai crescer juntos

Depois da parábola do semeador e da semente (cf. Mt 13,1-23) do último domingo, seguem-se hoje três parábolas com as quais Jesus fala às multidões sobre a construção do Reino de Deus no meio do mundo (cf. Mt 13,24-30.36-43): a do trigo e do joio, a do grão de mostarda e a do fermento na massa.

Particularmente a parábola do “joio” e do “trigo” é um ensinamento sobre a existência do mal e sobre sua origem e também deixa transparecer as inquietações da comunidade de Mateus, preocupada por separar os bons discípulos daqueles que não eram. Como em tantos grupos humanos a tentação é traçar uma linha divisória entre os bons e os maus, o “joio” e o “ trigo”. Essa separação, no interior da comunidade cristã, acaba se projetando nas nossas relações interpessoais, sociais, políticas, econômicas, culturais, criando “muros”, cavando abismos e nos desumanizando.

Mas, o Reino de Deus não é um clube só dos bons. O ser humano, em um determinado momento, descobre que no campo da vida está o mal e se pergunta como comportar-se em relação a ele. Mas como saber qual será a atitude justa se não sabemos de onde provém o mal? Já os primeiros capítulos do livro do Gênesis se ocupam deste problema. Então não nos espanta se também Jesus seja confrontado com a questão da origem do mal. Ele a propõe a seu modo, com uma parábola, uma simples imagem.

A cena desenrola-se num campo onde um homem lança a boa semente; mas certa noite, enquanto todos dormiam, veio seu inimigo e semeou o joio, portanto há dois semeadores: O Espírito de Deus e o maligno que semeiam duas sementes; o trigo e o joio, num mesmo campo.

O campo semeado é o mundo, mas também é a vida de cada um de nós, é o coração humano. É a terra sobre a qual pode crescer o bem e o mal. O joio existe, mas eu sou responsável por deixar que ele cresça. Só Jesus é o verdadeiro trigo. Todos nós somos joio e trigo. Ora, o bem e o mal estão muitas vezes estreitamente juntos e misturados. Devemos ser conscientes de que a mistura do trigo e do joio não se realiza somente no interior de cada um de nós, mas também no espaço da sociedade, da comunidade ou da Igreja. Isto tem suas consequências. Na medida em que cada um de nós formos mais críticos e responsáveis consigo mesmos, seremos mais compreensivos com a conduta dos outros, mais tolerantes.

A mensagem da parábola é clara “Deixai crescer um e outro até a colheita! ” (v. 30) Deixar o “trigo” e o “joio” crescerem juntos, nos ajuda a entender o que temos que fazer com o nosso próprio “joio”, aceitá-lo, acolhê-lo, integrá-lo, reconhecê-lo como nosso, sem reduzir-nos a ele e sem nos deixar determinar por ele. Por mais estranho que pareça, a aceitação do “joio” nos humaniza, pois nos faz descer do nosso pedestal de superioridade e aproximar-nos do nosso verdadeiro eu. Quanto mais nós nos conhecemos e conhecemos a Deus, mais nos integramos e nos humanizamos. Porque humanizar-se é também a capacidade de acolher-se frágil, vulnerável… não pretendamos pois, arrancar o joio, demonstremos com nossa vida que, ser trigo, é mais humano.

Todos somos trigo e joio misturados. A presença do joio ou do mal em nós mesmos, a presença do outro entre nós, ajuda-nos a exercitar a paciência, a misericórdia e a tolerância de Deus em nós. Isso custa-nos, obriga-nos a ver o outro em sua totalidade. Nossa visão é muito seletiva: ou vemos uma pessoa como muito boa, extraordinária ou vemo-la totalmente má. Portanto, o reconhecimento da existência do joio, do mal, não significa nada mais que a constatação de que o mal existe. Como posso querer arrancar o joio dos outros, se está tudo misturado? Além do mais, somos terra fértil para o mal crescer, não podemos apenas culpar os outros.

“Deixai-os crescer juntos, trigo e joio até a colheita”. Há uma oposição entre a impaciência dos empregados e a espera paciente do dono do campo, que representa Deus. Às vezes temos uma grande pressa em julgar, classificar, separar, pondo de um lado os bons e do outro os maus. Mas a seleção entre quem é bom ou mau só terá lugar no momento da “ceifa”, da colheita, imagem clássica do “juízo final”.

“No tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e amarrai-o em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro! ” (v.30) “Joio e trigo, só o trigo faz o pão” (José Saramago), portanto, a parábola pretende conter o excesso de zelo e intolerância na instauração do Reino de Deus. Para penetrar neste campo de grandeza e miséria, só o Espírito de Deus pode vir em nosso auxílio. Deus sabe esperar, Ele olha para o “campo” da vida de cada pessoa com paciência e misericórdia: vê muito melhor do que nós a sujeira e o mal, mas vê também os germes do bem e espera com confiança que eles deem frutos e amadureçam. “Deus é paciente, sabe esperar. Como isto é bom! O nosso Deus é um Pai paciente que nos espera sempre, que nos aguarda com o coração na mão para nos receber e perdoar. Perdoa-nos sempre se formos ter com Ele”. (Papa Francisco)

Imitemos a paciência de Deus. O plano de Deus não prevê a destruição do pecador, a segregação dos maus, a exclusão dos culpados. Mas atenção: a paciência evangélica não é indiferença diante do mal; não se pode fazer confusão entre o bem e o mal! Perante o joio presente no mundo, o discípulo do Senhor é chamado a imitar a paciência de Deus, alimentar a esperança com o alento de uma confiança inabalável na vitória final do bem, ou seja, de Deus.

Pe. José Assis Pereira Soares
Pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus 

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