Crises e cruzes

A vocação é um chamado divino, não é uma iniciativa pessoal, nem fruto dos méritos pessoais, é simplesmente dom de Deus. E este dom passa por um caminho interior, às vezes por momentos obscuros, pela experiência do sofrimento e por crises como vemos no dramático testemunho do profeta Jeremias (cf. Jr 20,7-9).

Jeremias aos vinte anos tem plena consciência de ser profeta. Mas ele não tem essa vocação por capricho, pessoal, mas porque Deus o chamou: “Antes mesmo de te modelar no ventre materno, eu te conheci; Eu te constituí profeta.” (Jr 1,5) A certa altura de sua caminhada ele analisa as consequências de sua vocação numa crise: “Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir; foste mais forte, tiveste mais poder.” (v.7)

É na crise mais dura, graças à qual se adquire uma experiência do que realmente é e implica ser profeta. A intimidade de Jeremias fica a descoberto. Com a imagem mais atrevida que encontramos em toda Bíblia, ele acusa Deus de tê-lo seduzido sem que ele pudesse resistir: como se engana e seduz uma jovem virgem para depois deixá-la.

“Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir!”  Um dos verbos mais famosos da linguagem profética está presente nesta confissão: “seduzir”. Jeremias constata que os seduzidos são sempre os apaixonados ou fascinados. No fundo este desabafo é um canto de amor. Na verdade o profeta sente Deus assim, forte sedutor. Diante do seu fascínio, não pode resistir. Mas, ao mesmo tempo se sente enganado por Deus. “A palavra do Senhor tornou-se para mim fonte de vergonha e de chacota o dia inteiro.” (v. 8) O profeta converte-se no objeto de todos, sente-se decepcionado, enganado.

Na sua humana fraqueza, Jeremias decidiu esquecer-se para sempre do Senhor, não mais voltar a ser profeta. E precisamente nesse momento crítico acha-se aprisionado entre a sua liberdade e o poder da Palavra. Algo intrínseco que se apodera dele, que o domina, o vence e se lhe impõe novamente a partir de dentro, “senti, então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo.” (v. 9)

Também aqueles que seguem Jesus têm com frequência a sensação de estar “perdendo a vida” por uma utopia inatingível: estaremos desperdiçando nossos melhores anos sonhando com Jesus? Ou estamos gastando nossas melhores energias por uma causa inútil?

O que fazia Jesus quando se via perturbado por este tipo de pensamento sombrio? Identificar-se ainda mais com aqueles que sofrem e continuar a confiar nesse Pai que pode oferecer-nos uma vida que não pode ser deduzida do que experimentamos aqui na terra.

Depois da “profissão de fé de Pedro” (cf. Mt 16, 13-20). Jesus começa a anunciar o que lhe leva a Jerusalém e faz a primeira previsão da sua morte. Jesus vê claro que como havia sucedido a Jeremias ou a todos os profetas, Ele não escapará. (cf. Mt 16,21-27) O diálogo de Pedro com Jesus é um dos fatos mais autênticos do relato evangélico, um dos momentos mais dramáticos e tensos da relação de Jesus com o apóstolo.

Pedro que acaba de reconhecer Jesus como o Messias, Filho de Deus, levou-o à parte e se pôs a censurá-lo dizendo: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!” (v.22) O caminho marcado por Jesus é escandaloso para Pedro. Ele não entende seu messianismo. No entanto, Jesus quer revelar a ele e a seus companheiros o verdadeiro messianismo e isto provoca é desconcertante.

Jesus anuncia o que vai acontecer em Jerusalém, Ele vai sofrer muito e será julgado e executado pelos líderes dos judeus, assim revela o verdadeiro caminho do Messias; anuncia o programa do “Filho do Homem” que é o verdadeiro sentido do messias nos planos de Deus, nas Escrituras, o caminho do sofrimento do Servo. Na humilhação da morte, da vida dada, da cruz, se manifesta o poder de Deus e, sobretudo o seu amor misericordioso pela humanidade caída. Como é difícil entrar no mistério de Jesus na cruz! O mistério da cruz necessita uma explicação que só quem pode dar com autoridade é o próprio Jesus.

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga.” (v. 24) Há frases que dizem tudo. As fontes cristãs conservaram, com poucas diferenças, um ditado dirigido por Jesus aos seus discípulos: “Quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la.” (v.25) Com essas palavras paradoxais, Jesus convida seus discípulos a viver como Ele: agarrar-se cegamente claro. Quem caminha atrás dele, mas continua apegado às seguranças, metas e expectativas que lhe oferece a sua vida, pode acabar por perder o maior bem de todos: a vida vivida segundo o projeto salvador de Deus. Pelo contrário, quem arrisca tudo para segui-lo encontrará vida, entrando com Ele no reino do Pai.

Todos temos nossas cruzes, crises, obscuridades e sofrimentos. Há momentos em que parece que já não somos capazes de ser fieis aos nossos compromissos assumidos. Os esposos já não sentem forças para permanecerem fieis a seus compromissos de amor “para sempre”; os pais e mães não sabem como educar seus filhos; pessoas consagradas passam por momentos obscuros ou crises e sentem a tentação de abandonar tudo; situações familiares, da Igreja e do mundo. Como posso eu permanecer fiel aos compromissos assumidos? Não terá sido tudo mera ilusão? Não será engano minha entrega aos outros? Tudo estará destinado a desmoronar com o passar o tempo e a fragilidade humana? Pois é exatamente neste momento quando mais deve crescer em nós a virtude da perseverança.

A vocação cristã profética e real, o seguimento de Jesus não é um chamado ao sofrimento cego, mas esse caminho de Jesus passa necessariamente pela cruz. Não é fácil ser cristão, nunca foi e nunca será. Todos nós gostaríamos de um Cristo e um cristianismo mais “light”, menos radical, mais adaptável, compatível com outras tendências da sociedade atual. Porém, não é isso o que nos fala o próprio Jesus.

O mistério da cruz transborda as capacidades humanas; não as anula, nem as destrói, nem as despreza, simplesmente as supera porque se trata de um plano divino, decidido desde toda eternidade e que se realizou na plenitude dos tempos. Pedro e os outros discípulos e discípulas devem saber que quem quer que seja, por si só não alcançará compreendê-lo.

Padre Assis Pereira Soares
Pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus.

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