Corresponsabilidade dos cristãos na construção do Reino de Deus

Percorremos conduzidos pelo Espírito Santo um longo caminho de 53 semanas. Durante esses meses acolhemos a Palavra de Deus e compartilhamos no altar a Eucaristia. Celebramos a encarnação do Verbo, no ciclo do Advento-Natal, na Quaresma celebramos o imenso amor de Jesus na sua Paixão, Morte e suas horas de glória na manhã da Ressurreição e ao longo do Tempo Pascal até a Festa de Pentecostes. Assistimos emocionados ao longo dos 34 Domingos do Tempo Comum, na cadência semanal aos encontros e desencontros de Jesus com pecadores, mestres da lei e fariseus. Vimos como Ele é um Deus que salva os pecadores, cura os enfermos, ressuscita mortos e alimenta os famintos. Chegamos ao fim de mais um Ano Litúrgico, este imenso arco que percorremos que tem no mistério pascal de Cristo o centro e a chave que interpreta o tempo e a história e a tudo dá sentido.

Com a solenidade de nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, coroamos este Ano Litúrgico, tudo o que aconteceu em nossas igrejas e em nossa vida pessoal centrada no Mistério de Cristo. Se assim caminhamos, não é difícil entender, assimilar e celebrar hoje esta solenidade litúrgica.

O Evangelho deste Domingo deixa claro em que consiste a realeza de Jesus (cf. Jo 18, 33b-37). O autor do quarto evangelho nos transporta ao mistério da Paixão e Morte do Senhor, ao interrogatório diante de Pilatos, representante do poder romano. O próprio Jesus define a natureza de sua realeza e de seu poder com a expressão: “O meu reino não é deste mundo… o meu reino não é daqui” (v.36) sugerindo assim uma origem que não é terrena. Tanto Pilatos como Jesus dá a entender que esse título é inadequado para identificá-lo.

Na continuação do interrogatório parece ter-se encontrado a resposta: “Sou rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz.” (v. 37) Jesus é rei e sua missão é dar testemunho da verdade reunindo debaixo de sua autoridade todos os que são da verdade.

Pilatos e Jesus representam duas concepções contrapostas do poder. Pilatos não pode conceber outro rei que um homem com poder absoluto, como o imperador romano Tibério ou pelo menos com poder limitado a um território como Herodes. Jesus, sem duvida, fala de um reino que não é deste mundo, quer dizer, não provém do mundo das pessoas, de suas relações ou conchavos do poder, mas sim, emana de Deus.

Pilatos pensa em um reino que se funda sobre um poder que se impõe pela força do exército, enquanto que Jesus tem em mente um reino imposto não pela força bélica, mas pela força da verdade e do amor. Pilatos não pode conceber de nenhuma maneira um rei que é condenado à morte por seus mesmos súditos sem opor resistência, e Jesus, está convencido e seguro de que sobre o madeiro da cruz vai instaurar de modo definitivo e perfeito seu misterioso reino. Para Pilatos dizer que alguém reina depois de morto é um absurdo, para Jesus, sem duvida, está perfeitamente claro que é a mais verdadeira realidade, porque a morte não pode destruir o reino do Espírito.

Dois reinos ou duas concepções do poder inteiramente opostas e diferentes. Depois de dois mil anos deste histórico encontro entre Jesus e Pilatos, não é a concepção de Jesus a única que passou no teste da história? Pilatos, Tibério, Herodes, o império Romano, o império das Índias, o terceiro Reich, o império soviético, todos passaram, mas o reinado de Jesus permanece, porque não é daqui.

“Jesus que se apresenta a Pilatos como Rei de um reino “que não é deste mundo”. Isto não significa que Cristo é Rei de outro mundo, mas que é Rei de outro modo, e, no entanto é Rei neste mundo. Trata-se de um contraste entre duas lógicas. A lógica mundana está assente sobre a ambição, sobre a competição, combate com as armas do medo, da chantagem, da manipulação das consciências. A lógica do evangelho, ou seja, a lógica de Jesus, ao contrário, exprime-se na humildade e na gratuidade, afirma-se silenciosa mas eficazmente, com a força da verdade. Ás vezes, os reinos deste mundo baseiam-se em prepotências, rivalidades e opressões; o reino de Cristo é um reino de justiça, de amor e de paz.” (Papa Francisco)

A Igreja, comunidade dos que seguimos a Jesus, é chamada a antecipar a vinda do Reino de Deus e como nos diz o Concílio Vaticano II a ser “germe e princípio deste Reino.” (Lumen Gentium 5) Este convite a continuar seu anúncio e a fazê-lo presente da maneira que o fez Jesus: mediante o serviço coerente e humilde, e a partir daquele não-poder manifestado na Cruz.

A festa de hoje, ao mesmo tempo em que celebra a soberania universal de Jesus Cristo, celebra também a corresponsabilidade de todos os cristãos leigos, na construção do Reino de Deus. A Festa do Rei é também a festa de todo o povo que pelo batismo é constituído povo real e sacerdotal. Jesus nos faz reinar com Ele porque Ele é Rei e sacerdote e faz de todos os batizados um reino de sacerdotes para Deus. Mas sem triunfalismo nem privilégios, pois a realeza de Cristo é serviço à verdade.

Cristo não confiou a sua Igreja uma missão social, econômica ou política, mas sim religiosa e espiritual. Mas seria um erro pensar que cada cristão, em particular, deve estar ausente destes espaços da vida social. Os cristãos são chamados por Deus a inserir-se no mundo a fim de transformá-lo segundo o Evangelho. Um cristão deve colaborar com alegria na promoção da verdadeira cultura, porque sabe que a Boa Notícia de Cristo reforça nas pessoas os valores espirituais que se falam no coração da cultura de cada povo e de cada período da história. O cristão ajudará a seu próprio povo a conseguir uma verdadeira liberdade e a capacidade de fazer frente aos desafios dos tempos.

O senhorio e a realeza de Cristo têm de entrar no mundo através dos cristãos leigos e leigas e da comunidade eclesial, pelo serviço da verdade, do amor, da fraternidade e da paz. O laicato deve estar permanentemente envolvido nas atividades comuns: no mundo do trabalho, na educação, na ciência, na saúde, na cultura e nas artes, na comunicação, na economia, na política, na justiça, na ecologia… Todos esses âmbitos podem ser ou não, espaços onde se vive os valores do Reino, onde se faz reinar a verdade. Onde cada cristão “reina” ou exerce seu ministério, onde cada cristão é uma testemunha da verdade e está verdadeiramente “a serviço do Rei Jesus”.

Não haverá um cristianismo vivo e dinâmico nestes tempos, no contexto atual, se não houver testemunhas da verdade, evangelizadores qualificados e discípulos coerentes. A formação e mobilização do laicato, a criação de condições que lhe permita a maturidade da fé ou a cidadania eclesial na diversidade de ministérios são exigências da “nova evangelização”.

Pe. José Assis Pereira Soares

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