Caminhando sobre as águas

A passagem do evangelho de São Mateus deste Domingo (cf. Mt 14,22-33) acontece depois da multiplicação dos pães, relato evocador da comunidade reunida que se alimenta na fé compartilhada e na fraternidade constituída em torno do Pão da vida que é Jesus. Uma comunidade saciada, satisfeita, protegida com a segurança da presença providente do Senhor que sustenta a vida nessa comunidade.

Mateus nos apresenta um conhecido episódio que, com diferentes matizes, encontramos também nos evangelhos de Marcos e João: Jesus caminha sobre as águas do lago de Genesaré, também chamado mar da Galileia. Este acontecimento recorda inevitavelmente, outro da vida de Jesus: o da tempestade acalmada (cf. Mt 8,23ss). De novo uma barca na qual se encontram os discípulos, uma situação de perigo em que Jesus intervém trazendo a salvação e reclamando da fé deles e uma reação de admiração e reconhecimento por parte dos discípulos do Mestre: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!” (v. 33)

Enquanto Jesus no monte reza a sós, “a barca já longe da terra, era agitada pelas ondas, porque o vento era contrário” (v. 24). Então Jesus veio até os discípulos, andando sobre o mar. Eles não sabem como interpretar aquela visão, “Jesus andando sobre o mar… apavorados disseram é um fantasma e gritaram de medo” (v. 26). Ante seu temor, Jesus lhes transmite ânimo: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” (v. 27) Pedro, como em outras ocasiões, recorre à autoridade do Mestre e lhe pede poder ir junto a Ele, ainda que isso suponha algo tão impossível como caminhar sobre a água. No princípio tudo vai bem, porque Pedro tem posta toda sua confiança no mandato de Jesus: “Vem!” Essa confiança o torna capaz nem mais nem menos que de caminhar sobre as águas. Mas a força do vento lhe assusta, surgem as dúvidas e começa a afundar. Pedro de novo recorre a Jesus, lhe pede que lhe salve, e Jesus lhe resgata do perigo. “Homem fraco na fé, por que duvidaste?” (v. 31) lhe pergunta o Mestre. Como consequência de tudo o que aconteceu se produz a confissão de fé: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!”

Os Padres da Igreja encontraram neste episódio uma grande riqueza de significado. Na Bíblia o mar, as águas turbulentas representam o mundo do caos, dos poderes infernais ou as forças do mal, da destruição e da morte; simboliza também a vida presente, a instabilidade do mundo; a tempestade indica todos os tipos de tribulação, de dificuldade que oprime as pessoas. A barca com os discípulos, sacudida pelas ondas é símbolo clássico da Igreja em dificuldades. Pedro andando sobre as águas representa o discípulo, guiado por uma fé incompleta, entre a confiança e o medo; representa cada cristão que precisa amadurecer na fé.

Os teólogos medievais conheciam pouco do contexto histórico da época de Jesus. Ainda não se havia desenvolvido suficientemente ferramentas próprias das ciências históricas e por isso identificavam a literalidade do texto bíblico com os acontecimentos históricos. Mas, ainda assim, tinham muito claro que a finalidade do relato bíblico não era fazer uma reportagem do acontecimento. A Escritura tem um sentido profundo, diziam, que vai mais além do que literalmente disse o texto. É evidente: o mero fato de que Jesus e Pedro caminhem sobre a água, por si só não gera muito mais que fascinação ou desconcerto. A questão é o que nos está dizendo o fato sobre Jesus, seus discípulos, e sobre nossa relação com ele.

Historicamente a comunidade de São Mateus é uma comunidade perseguida, que sofre as dificuldades do ambiente judaico que a fez sofrer, desvalorizando e desacreditando sua fé e confiança em Jesus Ressuscitado. É uma comunidade que se encontra como esta pequena barca boiando no meio do lago contra diversas situações que lhe são adversas ou contrárias. Possivelmente os discípulos estão cansados e sentem-se abandonados por Jesus, que os quase obrigou, à força a subir na barca e ir embora.

A barca da nossa vida, disse o Papa Francisco, “vê-se, frequentemente, balanceada pelas ondas e sacudida pelos ventos; e, se as águas por vezes estão calmas, não tardam a agitar-se. Então irritamo-nos com as tempestades do momento, como se fossem os nossos únicos problemas. Mas o problema não é a tempestade presente, mas o modo como navegar na vida”. A Palavra de Jesus nos tira da paralisia do medo e, se confiamos nele, nos faz capazes de caminhar sobre as dificuldades, por maiores que estas sejam. Sempre escuta nossa oração e nos auxilia, ainda que nos afoguem as dúvidas e só nos reste a fé para pedir ajuda: “Senhor, salva-me!” (v. 30)

Neste domingo somos chamados a confiar em Jesus que caminha por cima do caos da pandemia que ainda sacode o mundo, inclusive o nosso país onde atingimos esta semana os 100 mil mortos. Diz o papa Francisco: “Encontramo-nos assustados e perdidos. Igual aos discípulos do Evangelho, surpreendeu-nos uma tempestade inesperada e furiosa. Demo-nos conta de que estávamos na mesma barca, todos frágeis e desorientados; porém, ao mesmo tempo, importantes e necessários, todos chamados a remar juntos, todos necessitados de nos confortarmos mutuamente, porque desta sairemos somente como um, e que não podemos seguir cada um por nossa conta, mas somente juntos… Convidemos, hoje, Jesus a subir para a barca da vida. Como os discípulos, experimentaremos que, com Ele a bordo, “ o vento se acalmou” (v. 32) e não sofreremos naufrágio. Só com Jesus é que nos tornamos capazes também de encorajar os outros. Há uma grande necessidade de pessoas que saibam consolar, não com palavras vazias, mas com palavras de vida. No nome de Jesus, encontramos e oferecemos verdadeira consolação: não são os encorajamentos formais e previstos que restauram, mas a presença de Jesus”.

Neste tempo especial o Senhor nos chama a fazer uma travessia diferente, onde nossa pequena barca é batida pelas ondas da pandemia, confiando nele. Não conhecemos o outro lado, não sabemos como é possível chegar, a noite está escura e nossas comunidades parecem afundar-se, e como a Pedro, Jesus nos convida a confiar nele. “O segredo de bem navegar é convidar Jesus a subir para bordo. O leme da vida deve ser dado a Ele, para que seja Jesus a traçar a rota. Com efeito, só Ele dá vida na morte, e esperança na dor; só Ele cura o coração com o perdão, e liberta do medo com a confiança”, disse o Papa Francisco. Estendamos nossos braços para que Jesus nos segura e não permita ser afundados pela pandemia do medo, da dor que castiga tantas vidas e famílias. Hoje somos chamados a abraçar o Senhor e abraçar assim a esperança. Essa é a força da fé, que liberta do medo e dá esperança.

Padre Assis Pereira Soares
Pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus.

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