Batismo de Cristo, modelo para o nosso  

Para o Evangelho de São Mateus, o ministério de Jesus começa com o seu batismo no Jordão (cf. Mt 3,13-17). O relato é de uma “teofania” onde Deus revela a identidade de Jesus: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado” (v. 17). Antes de iniciar sua missão, Jesus define-se e apresenta-se como “o Filho amado de Deus” que se solidarizou com a humanidade limitada e pecadora.

“Naqueles dias, Jesus veio da Galiléia para o rio Jordão, a fim de se encontrar com João e ser batizado por ele” (v.13). Como judeu Jesus está atento ao clima religioso e político do seu tempo marcado por distúrbios, movimentos religiosos, esperanças e expectativas que surgem no meio do povo. “O aparecimento de João Batista foi algo absolutamente novo. O batismo para o qual ele apela distingue-se das demais abluções religiosas. Não é reiterável e deve ser o concreto cumprimento de uma mudança que precisa determinar de um modo novo e para sempre, toda a vida.

Ele está ligado a um veemente apelo a um novo modo de pensar e de agir, ligado, sobretudo ao anúncio do juízo de Deus e à proclamação de alguém maior que há de vir depois de João… Ele batiza com água, mas o ‘maior’, aquele que batizará com o Espírito Santo e com o fogo, já se encontra à porta… O batismo simboliza isso. Trata-se de purificação, de libertação da sujidade do passado, que pesa sobre a vida e a desfigura; de recomeço; e isso quer dizer: morte e ressurreição, portanto, começar a vida de novo. Pode-se dizer então que se trata de renascimento. Tudo isto só será expressamente desenvolvido na teologia cristã do batismo, mas já está presente na descida e na subida do Jordão.” (Bento XVI, Jesus de Nazaré, do Batismo no Jordão à transfiguração, São Paulo, Editora Planeta, 2007)

Jesus que viveu em Nazaré a maior parte de sua vida, como a multidão vinda da Judéia e de Jerusalém para o batismo de João se dirige para o rio Jordão e decide receber este batismo simbólico. O que é verdadeiramente novo é que Jesus quer ser batizado e se ponha na fila dos que esperam respostas às suas perguntas, igual a outras tantas pessoas que buscavam um modo novo de viver e vieram ao encontro do Batista, para perguntar o que fazer com suas vidas; O que é impressionante é que Jesus de Nazaré entre nessa fila dos pecadores, que aguardam nas margens do rio Jordão.

O batismo de João implicava na sua essência, uma confissão dos pecados. Era um rito de aceitação das pessoas no grupo dos seus discípulos, resposta ao convite profético para abandonar a vida de infidelidade, injustiça e voltar para a vida fiel da aliança. Eram batizados os que decidiam mudar de vida, arrepender-se dos seus pecados e prepararem-se para a vinda do Messias. A primeira condição para recebê-lo era, portanto, aceitar-se como pecador. Os fariseus e saduceus não aceitavam o batismo de João por considerarem-se justos, sem pecado e por isso não se deixavam batizar. Por que então Jesus pediu para ser batizado?

“João Batista até protestou, dizendo: Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?” (v. 14) A resistência de João em batizar Jesus é consistente com a humildade ou indignidade que o Batista expressa de si mesmo, ele reconhece ser ele próprio que precisa do batismo de Jesus.

O gesto de Jesus tem um sentido muito profundo. Ele quer compartilhar plenamente as esperanças e expectativas da humanidade. Não é a humanidade que vai até Ele, mas Ele que se aproxima dela, seguindo a lógica da Encarnação. Jesus não conhece o pecado e não necessita de nenhum batismo de penitência, mas quer participar da sorte de seus irmãos pecadores. Precisamente para arrancar deles a culpa que os mancha, se solidariza com todos, e se põe a disposição do Pai, que vai lhe exigir o sacrifício de sua vida; Ele quis, desde o início da sua vida pública, colocar-se ao lado dos pecadores, se fez um deles. Através da imersão de Cristo nas águas do Jordão se reabre os céus depois de estarem fechados tanto tempo por causa do pecado.

Jesus tomou sobre os seus ombros o peso da culpa de toda a humanidade; levou-a pelo Jordão abaixo. Ele inaugura assim o seu ministério inserindo-se no lugar dos pecadores. Ele inaugura-o com a antecipação da sua cruz. Sendo batizado, Jesus aceita obediente sua missão. Portanto, a celebração do batismo do Senhor leva-nos até um Jesus que assume plenamente a sua condição de “Filho” e que cumpre integralmente o projeto redentor do Pai. É esta mesma atitude de obediência, de confiança absoluta que nós assumimos na nossa relação com Deus?

A partir daqui é possível compreender o batismo cristão. Aceitar ser batizado significa entrar no lugar do batismo de Jesus e, assim, na sua identificação conosco, receber a nossa identificação com Ele. O nosso batismo é também uma celebração, um sinal eficaz do encontro de Deus, sinal eficaz de que somos, nós também, tornados filhas e filhos, e que o Espírito Santo habitará conosco.

Assim como o batismo de Jesus é uma “epifania” isso mesmo deve ser o nosso batismo, uma epifania diária de Deus na vida, do que Deus é e do que Deus faz em cada um de nós cristãos batizados. Para os que fomos batizados quando recém nascidos segundo o costume das famílias cristãs, tivemos necessidade de redescobrir o valor do fato salvador do Batismo. E aqueles que na idade adulta chegam a ele, o experimentam como um fato libertador, tem a força de conversão.

O batizado é alguém em que se manifesta a Trindade Santa. Como filho do Pai vive uma verdadeira relação filial. Como redimido pelo Filho o segue e imita a sua vida e missão. Como templo do Espírito Santo vive a dimensão santificadora do seu existir cotidiano, pessoal, familiar, profissional e social. Agradeçamos hoje tão grande graça em nossas vidas.

Ao concluir hoje o Tempo litúrgico do Natal e voltar ao Tempo Comum, ao celebrar esta solenidade do Batismo do Senhor, é uma boa oportunidade para fazer memória de nosso batismo. Somos filhas e filhos de Deus, Ele nos ama como filhos queridos. Deixemos, portanto para trás tudo aquilo que é contrário a este nome de filhos de Deus e vivamos cada dia, neste Tempo Comum que começamos com a alegria de nos saber amados por Deus Pai e sejamos bons filhos seus a exemplo de Cristo.

Padre Assis Pereira Soares – Pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus.

 

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