Ascensão, festa da proximidade de Jesus

O VII Domingo da Páscoa acolhe, desde muito tempo a solenidade litúrgica da Ascensão do Senhor. A Páscoa vai chegando ao seu final e a promessa do Espírito se vai fazendo mais visível e mais necessária.

A Ascensão é a festa da maturidade apostólica que convida a Igreja a se por a caminho: “Ide e fazei discípulos” e é a festa por excelência da nova proximidade de Jesus: “Eu estarei convosco”. No entanto, devido à situação de pandemia da Corona vírus, celebramos fisicamente distanciados, continuamos no isolamento uns dos outros; mas, a Ascensão pode ser um momento oportuno para descobrir outras maneiras de nos fazer próximos, inspirados na proximidade do Ressuscitado.

A forma de compreender a presença de Jesus em nossas vidas, uma vez que o vemos afastar-se entre as nuvens, segue sendo olhando ao nosso redor, na imersão na vida. A Ascensão de Jesus não significa fuga para o céu: “Homens da Galileia, por que ficai aqui, parados, olhando para o céu?” (At. 1,11) Aquele que Vive não fugiu do mundo; sua Ascenção significa presença no universo inteiro. Ele já não se encontra num único lugar no mundo, como antes, com o seu poder supera todo o espaço. Ele está presente junto de todos, e todos o podem invocar em todo lugar e ao longo da história; Ele agora assume todos os rostos, identifica-se com toda a humanidade e continua a caminhar pelas “Galiléias” do mundo e ficar junto dos excluídos e dos pobres. A presença de Jesus com a Ascensão torna-se mais abrangente.

Parece que o final do texto do Evangelho de hoje (cf. Mt 28,16-20) e o inicio dos Atos dos Apóstolos (cf. At 1,1-11) nos situam em uma cena parecida. Nos Atos São Lucas narra de maneira muito plástica a subida de Jesus aos céus e no evangelho São Mateus não vai se referir à ascensão de Jesus, que para ele é um mistério de glorificação de algum modo já incluído na ressurreição. Ele que inicia seu evangelho com o anúncio da vinda do “Emanuel”, o “Deus conosco” (cf. Mt 1,22-23), agora o conclui com as palavras com as quais o Ressuscitado assegura a sua presença e permanência entre os homens e mulheres: “Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo.” (v. 20)

Mateus é o único evangelista que não fala das aparições do Ressuscitado em Jerusalém, exceto às mulheres, especialmente Maria Madalena: “Ide anunciar a meus irmãos que se dirijam para a Galiléia; lá me verão.” (cf. Mt 28, 1-10) “Os onze discípulos foram para a Galiléia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado” (v.16) Segundo nosso evangelista é preciso voltar à Galiléia. O encontro de Jesus com os onze acontece longe de Jerusalém, do lugar onde eles tinham vivido a experiência traumática da sua paixão e morte. Esta distância física é também existencial. Depois da crise da dispersão e do medo que os havia paralisado, o Ressuscitado os convida a voltar à Galiléia, às origens, para “fazer memória” das experiências junto dele e que agora hão de reler de forma diferente.

Jesus se reencontra com os seus discípulos no cotidiano, em um lugar próximo àquele onde o encontraram e escutaram pela primeira vez seu chamado a segui-lo, onde tudo começou. Jesus quer que regressem a esse contexto para tornar a vê-los e fazer-se presente em suas vidas. Algo assim nos acontece a nós agora. Nossas vidas já não podem ser como eram, depois de ter vivido uma Páscoa tão estranha onde fomos convidados a seguir reconhecendo o Ressuscitado e seus sinais nesse dia a dia de isolamento social; a descobri-lo nos pequenos sinais de vida que acontecem ao nosso redor nestes dias confinados; a seguir encontrando-o onde Ele quer estar, entre a gente simples das nossas periferias sociais, na vida normal, entre quem trabalha e se entrega para que saiamos adiante e entre quem mais está sofrendo os embates desta nova crise que, como todas causa mais dano a quem é mais vulnerável.

A mensagem da Ascensão tem um valor existencial excepcional. Celebrando-a, percebemos que um dos sentidos desta festa pascal é nos sentirmos chamados a ir às “galileias” de hoje, a esse lugar de onde podemos ver as coisas com outra perspectiva, ver as situações, a história, a realidade a partir da sua perspectiva. A partir daí pode ser que percebamos que as aspirações que temos e nas quais investimos tanto tempo e energia não pagam a pena.

“Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo.” (v. 20) Ao celebrarmos a entrada de Jesus na glória, não celebramos uma despedida ou distanciamento, mas um novo modo de presença, de proximidade daquele que é, realmente, o Emanuel, o Deus-conosco para sempre. Ao subir aos céus, Jesus se faz ainda mais próximo de todos, ultrapassando tempo e espaço. Ascensão não é afastamento, mas uma maneira nova de fazer-se presente a todos, em todos os lugares e situações.

Esta festa litúrgica pode ser uma ocasião para tirar a máscara do farisaísmo que está latente em todos nós: a vivência de um distanciamento humano e do estremecimento das relações humanas. O isolamento social, proposto pelas autoridades sanitárias pôs às claras outra dura realidade: há anos estamos praticando um verdadeiro “apartheid” social, isolamento em guetos, distanciamento social, político, polarização religiosa, enfrentamento de extremos, tendo a distância como meio para nos fechar em nossas posições fanáticas, radicais, preconceituosas, extremistas e intolerantes. Uma voz diabólica e surda sempre esteve presente dizendo que devemos nos separar dos outros, daqueles que pensam e vivem diferente, que assumem posições e opções diferentes. Não podemos deixar que esta crise atual acentue ainda mais os diferentes distanciamentos que estavam escondidos por trás de nossas máscaras, mas que agora vieram à tona com mais força.

Esta é a dura contradição que estamos vivendo: se, estar separados fisicamente de nossos familiares e vizinhos é o mais eficaz remédio para combater a pandemia, precisamos então, buscar outras expressões de proximidade para que essa distância não se converta em estilo de vida. Se não, no pós-pandemia não nos encontraremos em um mundo novo. Ele será o mesmo, talvez até um pouco pior. A pandemia não mudará o mundo quanto se diz infelizmente, tudo será exatamente igual.

Hoje, mais do que nunca, devemos celebrar e recordar que juntos, unidos poderemos enfrentar qualquer crise que nos venha. Assim esta pandemia pode nos oferecer uma ótima oportunidade para resumir tudo o que é a humanidade numa só palavra: proximidade. A cultura da proximidade que tanto o Papa Francisco tem nos orientado: Proximidade com aqueles que sofrem, com aqueles que buscam um mundo melhor, com aqueles que menos têm, com aqueles que se sentem excluídos por serem diferentes.

A Ascensão é a alternativa de proximidade que todos precisamos. À luz da Ascensão podemos afirmar: fisicamente distanciados é quando nos sentimos mais próximos. Pois o ser humano não é feito para viver só; ele necessita conviver, é um ser essencialmente em referência a outras pessoas e a comunidade é sinal vivo de um Deus que está no meio de nós.

Pe. José Assis Pereira Soares
Pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus 

 

 

 

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