As lâmpadas devem estar sempre acesas

Nestes últimos Domingos do Ano Litúrgico a nossa contemplação se dirige à vinda gloriosa do Senhor. Os evangelhos são tirados dos capítulos 24 e 25 de São Mateus, e correspondem ao chamado “discurso escatológico”. Através de três parábolas e da impressionante descrição do “juízo final”, Mateus nos leva a refletir sobre a segunda vinda de Jesus e a atitude com que os discípulos devem preparar essa “parúsia”.

A primeira geração dos cristãos pensava que o fim do mundo estaria próximo e sonhava em ver Jesus voltando glorioso. Mesmo antes de Jesus chegar, havia gente do povo que pensava que a vinda do Messias coincidiria com o fim do mundo. Algumas frases de Jesus, tomadas ao pé da letra, sugeriam a proximidade do fim. Porém, à medida que o tempo passava, no final do séc. I, por volta do ano 80, já tinha passado a febre escatológica e os cristãos já não mais esperavam a vinda iminente de Jesus.

Muitos desanimavam de se esforçar nas virtudes, a vida de fé tinha arrefecido e muitos duvidavam das promessas de salvação trazidas por Jesus, alguns até sentiam-se enganados, a comunidade se instalou na rotina e no comodismo. Era preciso algo que despertasse os discípulos de sua letargia para o compromisso com o Evangelho.

No discurso escatológico do Evangelho de Mateus, Jesus usa uma parábola para falar do seu Reino como uma festa de casamento: “O Reino dos Céus é como a história das dez jovens que pegaram suas lâmpadas de óleo e saíram ao encontro do noivo”. (cf. Mt 25,1-13).

A festa de casamento judaica, carregada de ritos simbólicos, serve como cenário para Jesus falar de algo transcendental: a espera e a esperança, como quando a noiva está ardendo de amor pela chegada de seu esposo amado. Mas os protagonistas desta parábola não são nem o noivo, nem a noiva, mas sim “as dez jovens” que acompanham a noiva e que para este acontecimento de amor devem estar preparadas. Elas são a representação de uma comunidade cristã, são figura da Igreja que na globalidade de seus membros é chamada “esposa” do Messias: chamada a apresentar-se a Cristo como a virgem pura. (cf. 2Cor 11,2)

O “noivo” ao qual as jovens vão ao encontro é claramente a metáfora do Messias: O Senhor Jesus é o noivo messiânico. Ele tinha previsto e prometido aos seus discípulos a sua própria vinda como noivo definitivo no fim dos tempos afirmando, no entanto, que a hora precisa dessa chegada não é conhecida nem pelos anjos, nem pelo Filho mas apenas pelo Pai. (cf. Mt 24,36)

“O noivo estava demorando, e todas elas acabaram cochilando e dormindo”. (v. 5) O sono ou o cochilo sublinha a duração da espera e prepara a surpresa da chegada no meio da noite. A Igreja é um corpo misto, a diferença entre as jovens previdentes e as imprevidentes, já que todas dormiram, está basicamente na questão da inteligência, do cálculo, de ter previsto ou não a possibilidade de atraso do noivo, de estar equipadas com vasilhas com óleo de reserva. O erro das insensatas é não estarem prevenidas, não levaram óleo consigo. O azeite era no judaísmo, o sinal das boas obras, assim como da alegria da acolhida e inclusive da unção messiânica.

A parábola nos deixa uma lição de inteligência e prudência sobre o como saber lidar com um tempo longo de espera. Ela é simplesmente um chamado para viver a adesão a Cristo de forma responsável e inteligente agora mesmo, antes que seja tarde.

Interpretar a parábola das dez virgens no sentido de que devemos estar preparados para o dia da morte é falsificar o evangelho. Esta parábola não está centrada no fim, mas na inutilidade de uma espera que não seja acompanhada de uma atitude de amor e de serviço.

As lâmpadas devem sempre estar acesas. Saber esperar, saber viver. Quanto mais se ama uma pessoa, tanto mais se está disposto a esperá-la. E quanto mais se espera, tanto mais cresce o desejo e o amor por ela. Os pais e mães, os amantes e os bons amigos sabem muito bem isso. A última lâmpada que se apaga numa casa é a de quem espera que o outro chegue. Quem ama vive na “espera”. O cristão formará dentro de si um espaço para a espera, onde ela possa acomodar-se. E estará sempre pronto, porque fará da espera o seu próprio modo de vida, num continuo ato de amor.

As lâmpadas devem sempre estar acesas, para ajudar a acolher as surpresas boas da vida e poder participar da festa daquele que continuamente vem ao nosso encontro. Nossa maior insensatez seria viver “sem horizonte”, sem desejos, sem sonhos, sem uma causa motivadora, sem desafios e se perdêssemos a esperança no futuro, perderíamos a força de viver. Aí submergiríamos no presente sem outra perspectiva mais ampla. Se estamos adormecidos é preciso despertar, porque do contrário, perderemos a oportunidade de entrar na festa. Quem dorme o sono dos apáticos e fúteis, quem só pensa em si mesmo, esse ficará de fora, imerso nessa escura noite, sem amanhecida possibilidade.

Portanto, ser “imprudentes” significa viver “dispersos”, “distraídos” deixando as lâmpadas se apagarem, lâmpadas da fé e de nossa esperança. Entendamos ainda porque as “jovens previdentes” não podem compartilhar o azeite com as imprevidentes: não se trata de egoísmo ou falta de caridade; é impossível amar em nome de outra pessoa, como ninguém pode viver da fé do outro, nem da esperança do outro. As lâmpadas não podem queimar com o óleo dos outros, a chama não pode ser acesa com óleo comprado ou emprestado. Simplesmente por que esse óleo ou se tem em si mesmo, ou ninguém pode esperá-lo dos outros. Cada um sabe aquilo que no próprio coração o mantém acordado ou esperançoso, pelo contrário, se apaga na longa espera pelo Senhor, nos dias bons como nos maus, na vigília como no sono.

Nós somos ao mesmo tempo, as lâmpadas, o óleo e a luz. Ninguém pode nos emprestá-los, porque é a nossa própria vida. Dentro de nós devemos descobrir a luz que ilumina também a todas as outras pessoas. Uma luz que acenderá outras luzes nesse mundo que atravessa noites escuras, noites de ódio e violência.

Padre Assis Pereira Soares
Pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus.

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