Alocução de Dom Dulcênio na abertura da Assembleia da Pastoral Familiar do Regional da CNBB NE 2

ABERTURA DA 22ª ASSEMBLEIA DA PASTORAL FAMILIAR DO REGIONAL NE2

Palestra de Dom Dulcênio Fontes de Matos
Tema: A Palavra de Deus na vida da família.

Campina Grande, 06/11/2020

Estimados irmãos e irmãs, que a graça e a paz de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo estejam com todos. Saúdo e acolho cada um de vocês para esta 22ª Assembleia da Pastoral Familiar do nosso Regional Nordeste 2. De maneira extraordinária, nos encontramos pela modalidade virtual, mas de igual modo estamos unidos pelo vínculo de Cristo e pelo desejo único de tornar a nossa atuação pastoral sempre eficaz, evangelizadora e transformadora.

Acolho os irmãos e irmãs agentes da pastoral familiar do Estado de Alagoas, do Pernambuco, do Rio Grande do Norte, especialmente aqui da Paraíba, e de modo mais particular os da minha Diocese de Campina Grande. Acolho o Pe. José Ediberto, referencial para Pastoral Familiar do regional. Desejo que os momentos oferecidos por esta assembleia sejam bem aproveitados e gerem em nós a esperança em meio aos difíceis tempos que enfrentamos.

Em nossa 55ª Assembleia de Pastoral da CNBB Regional Nordeste 2 a Palavra de Deus foi posta como pilar da vida eclesial do nosso Regional, em perfeita comunhão com a Assembleia Geral da CNBB e suas diretrizes evangelizadoras. Deste modo, a mesma Palavra de Deus será o coração da missão da Pastoral Familiar, a ser refletida nesta assembleia pelo tema: “Bem-aventurados, antes, os que ouvem a Palavra de Deus e a guardam” (Lc 11,28).

Por ocasião do Concílio Vaticano II, em sua constituição dogmática sobre a Revelação Divina – Dei Verbum – a Igreja declara que “[…] é tão grande o poder e a eficácia encerrados na Palavra de Deus, que ela constitui sustentáculo e vigor para a Igreja, e, para seus filhos, firmeza na fé, alimento da alma, pura e perene fonte da vida espiritual” (DV 16). Em primeiro lugar, é preciso ter consciência clara de fé que a Palavra de Deus, antes de tudo, é uma pessoa, Jesus Cristo, o seu próprio Filho, a Palavra Eterna, o Verbo que se fez carne e, assumindo a nossa condição, habitou entre nós. Dito isto, todas as vezes que se fala da Palavra de Deus na vida da família, é preciso igualmente afirmar que cada um dos membros de um seio familiar, e a família como um todo, é convidada a fazer uma experiência de fé pautada no encontro e numa experiência autêntica, profunda e concreta com a pessoa de Jesus Cristo. Só em Cristo a família descobre o seu real significado, recobra o seu sentido e encontra o rumo quando desnorteada.

Contudo, bem sabemos que a Bíblia Sagrada é a composição escrita desta duradoura e forte Palavra divina, de modo que ela se torna a regra de vida para todo cristão, critério de discernimento de nossas escolhas segundo a vontade de Deus e fonte espiritual para cada um de nós. De modo mais perfeito, a família é lugar privilegiado para o cultivo, vivência e celebração da Palavra de Deus, à medida em que se torna locus propício para que a vontade divina se realize plenamente. O Papa Francisco na sua exortação apostólica Amoris Laetitia, sobre a alegria do amor na família, diz que “a Palavra de Deus é não só uma boa-nova para avida provada das pessoas, mas também um critério de juízo e uma luz para o discernimento dos vários desafios que têm de enfrentar os cônjuges e as famílias” (AL 227).

Na certeza de que “a Igreja funda-se sobre a Palavra de Deus, nasce e vive dela, […] o povo de Deus encontrou sempre nela sua força e, também hoje, a comunidade eclesial cresce na escuta, na celebração e no estudo da Palavra de Deus (VD 3), do mesmo modo a família – que hoje enfrenta diversos desafios externos, mas também os que brotam da intimidade da convivência – necessita cada vez mais ter a clara e necessária certeza provinda da sapiência bíblica, que se dirige a Deus e afirma: “Tua Palavra é a lâmpada para meus pés, e luz para o meu caminho” (Sl 119,105).

Estimados pais e mães de família, queridos filhos e filhas, todos os que compõem a realidade familiar, olhem para a Palavra de Deus não como uma bibliografia de consulta entre tantas, não como uma letra morta, não como um livro de história mal contada, não como texto exclusivo para as celebrações litúrgicas, não como livro que se abre na estante ou se guarda na gaveta, não como um escrito de interpretação subjetivista, antes, olhem para a Sagrada Escritura como prova de amor de um Deus que se dirige a nós falando a nossa linguagem e deixando para os seus filhos o testamento de sua vontade e como verdade e caminho da salvação.

O apóstolo Paulo, em sua segunda carta a Timóteo exorta que “toda Escritura é inspirada por Deus” (2Tm 3,16), e nesta certeza de sua origem divina, Paulo indica sua utilidade, que podemos aplicar tranquilamente à realidade familiar: “[…] útil para instruir, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para toda obra” (2Tm 3,16-17). Por isso, que a Palavra de Deus é princípio que demarca a cadência da vida familiar em suas dores e alegrias.

Ao falar sobre a Igreja nas casas, as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, apresenta o pilar da Palavra como essencial. Nisto, destaca que o testemunho dos Atos dos Apóstolos relata que a comunidade cristã se concentrava nas casas como lugar característico da reunião. Eram nas casas e, portanto, nas famílias que a Igreja deu seus primeiros passos. Era em família que “Eles mostravam-se assíduos ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações” (At 2,42). Desde a gênese da Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo, as famílias constituem-se como lugar do encontro com a Palavra de Deus.

O autor da carta aos Hebreus afirma que “a Palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes; penetra até dividir alma e espírito, juntas e medulas. Ela julga as disposições e as intenções do coração” (Hb 4,12-13). É preciso resgatar esta eficácia dos frutos provindos do cultivo da Palavra de Deus na família, é preciso redescobrir a vivacidade que dela brota para a vida familiar. De que modo isso pode acontecer?

1) Na Liturgia, a Palavra de Deus ocupa lugar de máxima importância, de tal modo que nenhuma celebração na Igreja deixa de lado a proclamação e meditação da Sagrada Escritura. Em razão disso, a dinâmica litúrgica da vida eclesial, especialmente as assembleias dominicais – celebração semanal do Mistério Pascal – se apresentam como oportunidades singulares das famílias se reunirem para escuta da Palavra, encontrando como frutos o crescimento espiritual, o ânimo para vida e para o testemunho cristão, o estreitamento do vínculo de pertença comunitária e o discernimento de regras práticas evangélicas para a vida. Como é bonito ver, sempre que possível, a família que junta e atenta se dispõe a escutar as leituras proclamadas e em seguida refletidas nas missas de domingo.

2) O cultivo perseverante de momentos de oração e espiritualidade em família devem ter sempre presente a Palavra de Deus. A oração familiar deve ser caracterizada como oração com a Palavra, especialmente através do aprofundamento e da reta acuidade da vontade de Deus nela revelada, tendo em vista a possível vivência de conflitos internos, desentendimentos, mágoas e distanciamento. O desejo é de que a Palavra de Deus se torne palavra da família, instrumento de maior diálogo, de mais transparência e máxima maturidade humana e espiritual. Um método muito proveitoso para fazer da Palavra de Deus o coração da oração familiar é a Lectio Divina, a leitura orante da Bíblia. Como nos diz o Papa Bento XVI na exortação Verbum Domini: “a inteligência das Escrituras exige, ainda mais do que o estudo, a intimidade com Cristo e a oração” (VD 86).

3) Não podemos esquecer do estudo aprofundado da Sagrada Escritura, que oferece às famílias um conhecimento mais seguro e, consequentemente, um amor mais acurado sobre a Palavra de Deus. Isso resulta no amadurecimento da fé e na estabilidade em sua defesa e mais perfeita vivência. Por isso, vale destacar a necessidade de se renovar os estudos bíblicos em todas as comunidades eclesiais missionárias, bem como em nível diocesano e regional.

5) As reuniões, encontros e celebrações dominicais das comunidades em que estão inseridas as famílias devem ser ancoradas na Sagrada Escritura, especialmente quando da ausência do ministro ordenado. A comunidade e toda a sua dinâmica deve ser espaço para o encontro com a Palavra de Deus, que muda a vida e dá o devido sentido de ser, agir, pensar e sentir da família segundo Jesus Cristo.

4) A Palavra de Deus deve ser o parâmetro de toda a atuação da Pastoral familiar em suas etapas, estruturas e situações, e ser esta mesma Palavra o ânimo dos seus responsáveis, como bem indicou a Exortação Apostólica Familiareis Consortio, de São João Paulo II. Como pastoral de ampla evangelização, deve ter como certeza que só há verdadeira evangelização quando se parte da Palavra de Deus, como nos diz o Papa Francisco ainda na Amoris Laetitia: “Toda a pastoral familiar deverá deixar-se moldar interiormente e formar os membros da igreja doméstica, através da leitura orante e eclesial da Sagrada Escritura” (AL 227).

Por fim, como demonstrou a história da Igreja em seus dilemas, a reta vivência e interpretação da Sagrada Escritura se dá no seio da Igreja. Fora da Igreja nos tornamos passíveis de maiores erros na compreensão da verdade revelada. O mesmo se aplica às famílias: é junto da Igreja, na pertença à comunidade, na união mística com o Corpo de Cristo que a família sente-se verdadeiramente fortalecida pela escuta da Palavra. Nos diz o Papa São João Paulo II na sua exortação apostólica sobre a missão da família cristã no mundo de hoje: “É antes de tudo a Igreja Mãe que gera, educa, edifica a família cristã, operando em seu favor a missão de salvação que recebeu do Senhor. Com o anúncio da Palavra de Deus, a Igreja revela à família cristã a sua verdadeira identidade, o que ela é e deve ser segundo o desígnio do Senhor” (FC 49).

Bem-aventura é a família que apegada à Palavra de Deus a ouve e, não obstante às limitações, procura fazer dela regra de vida. Concluo esta minha breve palestra de abertura desta assembleia consagrando todos os nossos trabalhos à Virgem Maria, ela que, na ocasião de uma festividade familiar, isto é, nas bodas em Caná, pediu que escutássemos todos a Palavra de seu Filho: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5). Meu apoio constante como referencial da Comissão Regional Pastoral para a Vida e Família, e minha bênção de pastor.

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