A proposta é compartilhar

A função do “milagre da partilha dos pães e dos peixes” (Cf. Mt 14,13-21), é ajudar-nos a descobrir em Jesus o Messias. A ideia de um banquete messiânico era corrente no judaísmo. O profeta Isaías (Cf. Is 55, 1-3) já se referia a um convite a uma espécie de banquete messiânico: “Ó vós todos que estais com sede, vinde às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga.” Por isso, mais que o extraordinário, no milagre da “partilha dos pães e dos peixes” o leitor do evangelho de São Mateus, é chamado a captar a realidade que se esconde neste episódio, e interpretar a proposta que Jesus está fazendo. Ele é o realizador do banquete de salvação.

Concretamente, a partilha do pão convida-nos a descobrir que o projeto de Jesus é alimentar a humanidade faminta e reuni-la numa fraternidade global e real na qual saiba como partilhar “seu pão e seu peixe” com irmãos/ãs. O relato da partilha dos pães de Mateus é figura do banquete do Reino. Começa expressando a compaixão que Jesus experimenta: “Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes.” (v. 14); compaixão é mais que um sentimento, é uma aposta pela vida. Por isso Jesus dedica todo o dia a curar enfermos e põe toda sua atenção nos necessitados.

Ao entardecer os discípulos lhe pedem que despeça as pessoas para que vão buscar algo para comer. É um toque de realismo já que estão em um lugar despovoado e eles não têm como dar-lhes de comer. Esse aporte também implica uma forma de ver a realidade, com a qual Jesus não concorda. Ele proporá outra coisa. Na lógica dos discípulos, está implícito, que cada um se arranje como puder. Mas diante da urgência da fome, vendo as pessoas exaustas e esgotadas Jesus teve compaixão delas e mais uma vez não se desliga do sofrimento humano; Ele não disse às multidões: “Ide em paz” o sermão acabou e quem tem dinheiro vá comprar seu pão e quem não tem se arranje como puder. Se Jesus despedisse as multidões, se livraria da responsabilidade de ter que dar-lhes de comer.

No entanto, Jesus propõe a seus discípulos outra alternativa: “Dá-lhes vós mesmos de comer!” (v.14) É uma proposta includente; Implica-se nela a necessidade que as pessoas têm, é ir mais além do olhar realista para ter um olhar compassivo; Ver como Deus. É necessário que os discípulos assumam esta sensibilidade. Jesus não pode abandonar as pessoas que vieram até Ele. O milagre da partilha dos pães e dos peixes tem um claro significado eucarístico. Os gestos de Jesus dão a esse relato um significado profundamente eucarístico: “Jesus pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida, partiu os pães e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões.” (vv. 18-19)

Partilhando os pães e recolhendo as sobras, os discípulos fazem referência à Igreja, dispensadora do pão da Palavra, do pão da Eucaristia e do pão da caridade dos pobres. Neste milagre se vêm confirmadas as tarefas pastorais da Igreja: pregar a palavra, repartir o pão eucarístico e servir o pão da caridade. A Igreja se quer ser fiel ao seu Mestre, há de unir também à Palavra o pão repartido com os necessitados. Os pastores da Igreja devem fazer com que chegue a todos/as, o pão da Palavra e da Eucaristia e o pão que sacia a fome mais existencial das pessoas. Se meu irmão diz: “tenho fome”; é um fato físico para ele e moral para mim.

O que Jesus fez naquele lugar deserto foi unir a Palavra ao pão: pregar, “curar” e “dar de comer” às pessoas. Olhando nossa realidade sabemos que o desafio de Jesus segue sendo tremendamente atual. Hoje também há uma multidão que busca e necessita. A luta pelo desarmamento, a proteção do meio ambiente, da Amazônia e dos povos da mata, a solidariedade com os famintos moradores da rua, o partilhar com os milhões de desempregados, realidade que é uma das consequências da crise econômica mas que foi ampliada pela pandemia, a ajuda aos dependentes químicos, a preocupação com os idosos sozinhos e esquecidos… são outras tantas exigências para quem se sente irmão/ã e quer “multiplicar” por todos o pão que os irmãos/ãs necessitam para viver.

O relato do evangelho lembra-nos de que não podemos comer tranquilos o nosso pão e o nosso peixe, enquanto junto a nós há homens e mulheres ameaçados por tantas “fomes”. Os que vivem tranquilos e satisfeitos devem ouvir as palavras de Jesus: “Dai-lhes vós mesmos de comer!” (v. 16). O olhar compassivo segue sendo a opção dos discípulos/as de Jesus. Mais que nunca são necessários os gestos de solidariedade e empatia que postos nas mãos do Senhor se multiplicam em amor compassivo.

Sem nos meter em problemas de exegese bíblica, o fato de que a perícope evangélica nos fale de “partilhar” e não “multiplicar” nos dá motivo para refletir sobre a fome que padece hoje milhões de pessoas e que foi agravada pela pandemia. Mais da metade da população mundial é afetada pela falta ou excesso no consumo de alimentos. Em cada oito pessoas no mundo duas não têm alimentação necessária e não porque faltam alimentos, mas porque estão mal distribuídos.

Basta pensar em um dado repetido hoje centenas de vezes: mais da metade do primeiro mundo tem como principal problema o excesso de peso e a obesidade, enquanto a maior parte do terceiro e quarto mundo têm como principal problema encontrar um pedaço de pão para comer. A consequência é fácil de deduzir: se os que têm de mais compartilhassem o que se lhes sobra ou está sendo desperdiçado aos que têm menos, se resolveria o problema. Desgraçadamente, o problema não é novo; nem o problema, nem a possível solução.

O escândalo da fome no mundo não é a falta de pão, mas de reparti-lo melhor. Dizem os entendidos no assunto, que hoje, no mundo se produz pão suficiente para alimentar a todos os que o necessitam; o problema não é que não haja pão, senão que o pão que existe está mal repartido ou é desperdiçado. A marca da fome é consequência de nosso pecado, pois Deus pôs os bens do mundo a serviço de todos, não só de uns poucos. Nós podemos erradicar essa triste marca da fome, Jesus no-lo ensinou: “Dai-lhes vós mesmos de comer!”

 

Pe. José Assis Pereira Soares
Pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus 

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