A medida do amor

Em continuidade com o trecho do Evangelho de Mateus do domingo passado (cf. Mt 5,17-37), escutamos hoje as duas últimas chamadas “antíteses” do sermão da montanha (cf. Mt 5,38-48), ditas por Jesus entre a interpretação redutiva da Lei e a novidade da sua proposta.

A primeira antítese faz referência à chamada “lei do Talião”, tal como está escrita no livro do Êxodo: “Olho por olho e dente por dente” (Ex 21,25). Esta lei era considerada pelos judeus como uma lei sagrada, dada por Moisés ao seu povo, para impedir a vingança desproporcionada e indiscriminada. Em seu tempo, foi uma lei boa e necessária. Mas Jesus pede a seus discípulos que eles vão mais além: “se alguém te dá uma tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda!” (v. 39)

Eu não sei se nós, em nosso comportamento diário, somos mais partidários da lei do Talião, que do conselho evangélico da não violência. Porém, o que se sabe é que Jesus nos propõe não devolver o mal com o mal, mas vencer o mal com o bem. Diferente do que a sociedade nos diz, Jesus  quer que prevaleça o perdão e o amor em nossas relações humanas. O amor não se mede pelas vezes que se perdoa. Porque a medida do amor é amar sem medida. O amor a que Jesus nos chama não se conforma apenas com fazer o bem. O amor cristão há de: respeitar, compreender, desculpar, descobrir o que há de bom nas pessoas, para colaborar em seu crescimento.

Cristo nos abre uma nova perspectiva. Ele considera que temos que descartar todo desejo de vingança ou de justa compensação por um dano sofrido. Segundo o Evangelho, não tem que se enfrentar a quem nos prejudica, não tem que devolver mal por mal. Ainda que isso seja o normal, e inclusive podemos dizer que é o natural.

A segunda antítese de Jesus se refere ao amor aos inimigos: “Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!” (v. 44) É possível amar os inimigos? Afetivamente, quase nunca é possível, porém o que nos manda Cristo não é que amemos afetivamente aos inimigos, mas que façamos o bem e rezemos por eles. Isto não só é possível fazê-lo, como o fazendo nos sentiremos certamente muito melhor.

Amar o inimigo significa, antes de tudo, não fazer-lhe mal, não buscar nem desejar-lhe dano algum, é simplesmente, não nos vingarmos. Tratá-lo como queremos que os outros nos tratem. Significa então fazer-lhe o bem, e nos disse Jesus que se fizermos isto “vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos Céus…” (v. 45). Jesus quer que nos pareçamos mais com Deus: “sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito!” (v. 48)

Nosso Deus não distingue as pessoas entre bons e maus, não faz acepção de pessoas e nem é um juiz vingador e violento: ama inclusive a seus inimigos, não busca a desgraça de ninguém, ao contrário, sua grandeza consiste em amar incondicionalmente a todos. Quem se sente filho ou filha deste Deus, não introduzirá no mundo ódio nem destruição do irmão nem da natureza, nossa casa comum.

Amar uma pessoa na medida com a qual ela nos ama, é relativamente fácil; amar uma pessoa para além da medida com a qual ela nos ama, é difícil: “se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa?” (v. 46) Isso é amar sem medida, amar com a medida de Deus.

A radicalidade da mensagem evangélica deste domingo coloca sérios questionamentos: Este programa é realizável ou é uma simples utopia para sonhadores? A resposta de muitos é certamente que é impossível inalcançável ou demasiado sublime ou romântico. É certo que, vistos à luz do pensamento do mundo, tais conselhos de Jesus podem parecer-nos utopia ingênua e irrealizável. Claro está que Cristo manda afastar de nós qualquer sentimento de ódio, rancor e intolerância; mas praticar o desarme unilateral, dar a outra face e amar os inimigos! Isso é demais, parece comportamento de gente sem juízo. Amar o agressor parece impossível. Contudo, historicamente sabemos que houve cristãos que deram uma resposta afirmativa; e não eram inconscientes nem covardes, mas homens e mulheres de grande coração, heróis e de maturidade humana e cristã inigualável, santos.

Esse apelo evangélico a renunciar à violência deve dirigir-se não tanto aos fracos, que quase não têm poder nem acesso à violência destrutiva, mas, sobretudo, a quem maneja o poder, o dinheiro ou as armas e, portanto, podem por isso oprimir violentamente os mais fracos e indefesos.

“Amai os vossos inimigos” talvez seja a palavra que mais necessitamos ouvir neste momento em que, anulados pela perplexidade, não sabemos o que fazer em concreto para retirar da sociedade a violência. Há uma convicção profunda em Jesus. Ao mal não se pode vencer com base no ódio e na violência. O mal é vencido apenas com o bem.

Nas sociedades bem organizadas politica e institucionalmente, não se admite “justiça feita pelas próprias mãos” e não se tolera a vingança, que assistimos estarrecidos em nossa sociedade brasileira que tem o mito, o estereótipo de “não violenta”, mas que se revelou o contrário ao longo de toda a sua história sangrenta. Quem é agredido injustamente pode defender-se, mas não lhe é lícito superar a legítima defesa, como querem alguns com a norma de “excludente de ilicitude” ou autorização para matar para as autoridades policiais.

Jesus não se detém a especificar se, em alguma circunstância concreta, a violência pode ser legítima. Pelo contrário, convida-nos a trabalhar e lutar para que nunca seja. Por isso, é importante procurar sempre caminhos que nos levem à fraternidade e não ao fratricídio.

O amor ao inimigo não é um ensinamento secundário de Jesus. Ele quer implantar na história uma atitude nova ante o inimigo porque quer eliminar no mundo o ódio e a violência. Quem se sente filho de Deus não alimentará o ódio contra ninguém, buscará o bem de todos inclusive de seus inimigos.

Hoje fazem falta testemunhos contagiosos de amor ao “inimigo” ou da “não violência pacifica” como Martin Luther King, Gandhi, D. Helder Câmara e tantos outros defensores dos direitos humanos, mesmo que isso lhes custasse a vida. Perdoar e amar são a grande força ativa do não violento, a única opção capaz de travar e destruir a espiral do mal e da violência. Jesus nos oferece o perfil do seu discípulo, formado pela não-violência ativa do amor e pelo testemunho daquele que morreu perdoando a amando até o fim.

Padre Assis Pereira Soares – Pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus.

 

 

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