A insana busca do poder

Há nas leituras da Liturgia deste Domingo uma concreção litúrgica da missão de Jesus que me parece fundamental. Refiro-me inicialmente ao pequeno texto da profecia de Isaías (cf. Is 53, 10-11) e ao fragmento da Carta aos Hebreus (cf. Hb 4,14-16).

“O Senhor quis macerá-lo com sofrimentos. Oferecendo sua vida em expiação, ele terá descendência duradoura e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor.” (Is 10,10) É um dos textos mais claros no qual se revela o valor redentor do sofrimento, de tal maneira que a Igreja logo depois da morte e ressurreição de Jesus, se atreveu a desafiar a teologia oficial do judaísmo que não admitia se falar de um Messias sofredor, que sofria para salvar seu povo. Para a Igreja primitiva o Messias Salvador não podia deixar de participar solidariamente dos sofrimentos do seu povo, pois se Deus sofre com seu povo também Ele, o enviado do Pai, devia sofrer.

O autor da carta aos Hebreus apresenta-nos Jesus como um Sumo Sacerdote, muito perto de Deus e de nós: “Com efeito, temos um sumo sacerdote capaz de se compadecer das nossas fraquezas, pois ele mesmo foi provado em tudo como nós, com exceção do pecado”. (Hb 4,15) É uma das passagens mais belas nesta teologia sobre o sacerdócio de Jesus. Este sacerdote é conhecedor da condição humana, aprendeu na debilidade conosco. Jesus nos entende porque é como nós, salvo no pecado, conhece nossos sofrimentos, nossas limitações e compreende nossas infidelidades, egoísmos e a permanente dureza de nosso coração.

O Evangelho (cf. Mc 10,35-45) traz a mais importante afirmação de Jesus sobre si mesmo, uma síntese de toda cristologia: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de muitos”. (v. 45) Uma definição de sua missão que sintetiza a razão de sua vinda ao mundo e também o modelo ideal do “poder” que Jesus propõe: o poder-serviço que revela a igualdade entre todos e se centra no serviço. Nestas novas relações entre as pessoas ou nova sociedade, o poder; a autoridade e até a própria força é substituída pela força do amor.

Enquanto Jesus faz mais uma vez o anúncio de sua morte, os apóstolos pensam que o Messias está indo para Jerusalém conquistar o poder e tomar posse do seu reino. Tiago e João, representando-nos como discípulos, tomam a dianteira dos seus colegas e numa competição desleal pedem a Jesus os dois lugares mais importantes quando Ele “estiver na glória”. Eles poderiam pedir qualquer coisa menos isto: o poder.

O “fisiologismo” dos dois apóstolos é escandaloso. Eles não entenderam nada do que Jesus estava por fazer, enquanto Ele se preparava para o sofrimento da cruz, eles, pensam na ambição do poder. Mas, este pedido dos filhos de Zebedeu manifesta uma tendência muito humana, ou uma “doença” que não existe só, por assim dizer, na famosa Cúria Romana, mas também entre nós, muito perto de nós, quem sabe até em nós mesmos: o desfile de egos, narcisismo, exibicionismo, oportunismo, carreirismo; a indiferença para com os outros, o desejo de dominar, de estar acima dos outros, num patamar superior, ladeando os poderosos.

O desconcerto que posteriormente sentiram os discípulos assemelha-se ao que sentimos nós, cristãos de hoje, quando ainda não compreendemos a mensagem de Jesus e as repercussões que têm para o momento atual a transformação missionária da Igreja numa “Igreja em saída”. O Papa Francisco fala da proximidade de uma igreja servidora, diz na “Evangelii Gaudium” que “a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até à humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo. Os evangelizadores contraem assim o ‘cheiro de ovelha’, e estas escutam a sua voz”. (EG 25)

Quando a Igreja se aparta de uma estrutura fraternal, distanciando-se do povo imitando e adaptando-se às estruturas de poder do mundo, se converte ela mesma em um instrumento de poder com hierarquias e escalões. Afasta-se da vontade de Jesus, pois Ele não veio ao mundo para viver como um senhor, mas sim para morrer como um escravo.

Do ponto de vista de Cristo, não existem, na sua comunidade, senhores e servos, superiores e inferiores, chefes e subordinados, níveis distintos de honra e dignidade. Quem tem uma responsabilidade maior tem um serviço maior e tem que se destacar pelo serviço.

Ele ensina: ”Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam. Mas, entre vós não deve ser assim: quem quiser ser grande, seja vosso servo; e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos.” (vv. 42-44) Para Jesus, ambição de poder político pode servir para os poderosos deste mundo, mas não serve para o Reino de Deus. Ele se refere aos dirigentes políticos de seu tempo, mas no fundo é este o estilo de poder de todos os tempos. Pelo contrário, a comunidade eclesial deve ser dominada pela vontade de servir e não flertar com o poder buscando as glórias humanas.

Cristo contrapõe dois estilos de autoridade diametralmente opostos: mandar, dominando ou servir. A vontade de servir, e não de poder, tem de ser hoje o testemunho profético da comunidade cristã como grupo, e de cada pastor ou fiel como discípulo. De fato, custa muito dessacralizar qualquer forma de poder e despolitizar a religião, limpando-a de qualquer messianismo terreno. Tudo isto por causa do lastro de séculos. Todas as culturas pré-cristãs conhecidas sacralizaram o poder e divinizaram as pessoas dos faraós, dos reis, césares e imperadores. Mesmo a Igreja, desde o séc. IV, em Constantino, no Ocidente, e Teodósio, no Oriente, e durante a Idade Média sacralizou o poder dos imperadores e politizou ou temporalizou o serviço espiritual de Papas e bispos. Criou-se, assim, a mais perfeita confusão de competências, esferas e níveis espirituais e temporais.

Infelizmente, a situação repetiu-se ao longo da história da Igreja cada vez que se deformou o sentido, âmbito e consumação do Reino de Deus. Um reino que não tem o estilo político deste mundo, como Jesus deixou claro diante do tribunal de Pilatos. A lição que Cristo ensina a toda Igreja, povo e hierarquia, é que a comunidade eclesial está ao serviço do Reino de Deus no mundo; e não para procurar privilégios do poder e, menos ainda os interesses temporais da mesma.

Ao apresentar as coisas desta forma, o Evangelho convida-nos a repensar as nossas relações de poder e a forma de nos situar, quer na família, quer nos espaços da educação ou do trabalho, na sociedade e também na Igreja. Jesus faz uma denúncia dos jogos de poder, das tentativas de domínio sobre aqueles que vivem e caminham a nosso lado, das manobras patéticas para conquistar privilégios, da ânsia de protagonismo, da busca desenfreada de títulos, da caça às posições de prestígio. O cristão tem, absolutamente, de dar testemunho profético de uma nova ordem, colocando-se numa atitude de serviço e não numa atitude autoritária, de imposição e de exigência; evitando qualquer atitude de injustiça ou de prepotência sobre aqueles que coordena no espaço profissional; encarar a autoridade que lhe é confiada como um serviço, cumprido na busca atenta e coerente do bem comum.

Neste dia das Missões lembramos as palavras do Papa Francisco na sua mensagem para hoje: “Todo homem e mulher é uma missão, e esta é a razão pela qual se encontra a viver na terra… O fato de nos encontrarmos neste mundo sem ser por nossa decisão faz-nos intuir que há uma iniciativa que nos antecede e faz existir. Cada um de nós é chamado a refletir sobre esta realidade: ‘Eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste mundo’”.

Pe. José Assis Pereira Soares

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