A grande família de Deus

A festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José, situada neste Domingo da oitava do Natal, é o dia por excelência para a comunidade cristã se perceber a si mesma também como família de Deus. Deus trata a seu povo como uma grande família.

Com São Paulo (cf. Cl 3,12-21) aprendemos que também na comunidade eclesial formamos uma família. Uma unidade fraternal que recebe a benção do Pai. Somos o povo amado e escolhido de Deus, por isso o Apóstolo convida a nos revestirmos nas nossas relações de misericórdia, bondade, humildade, paciência e doçura, sobretudo suportando-nos uns aos outros e perdoando-nos mutuamente.

Compreensão e tolerância são valores que significam a certeza de uma boa relação pessoal e social. Vestidos de misericórdia o próximo se converte em uma parte de nós mesmos. Nada do outro nos é alheio, e tudo nosso está à disposição do outro para sanar qualquer injustiça ou necessidade.

Não temos só a família carnal, constituída por laços de sangue. Há outra família maior e também muito importante para nós: é a família da Igreja. Porque todos somos filhos de Deus por meio de Jesus Cristo, todos somos também irmãos. E, portanto, todos os cristãos distribuídos por todo o mundo somos membros de uma mesma família que é a Igreja. Esta família se concretiza para cada um de nós em nossa comunidade eclesial. Ali temos de viver os mesmos valores que vivemos na família, como a solidariedade, a ajuda mútua, a compreensão… E como qualquer família, a Igreja também se reúne para uma refeição em comum ao redor de uma mesa, para celebrar os acontecimentos importantes e para compartilhar o dia a dia da vida de família, para nos alimentar de Jesus e estreitarmos nossos laços de amizade e nos encorajarmos mutuamente para irmos ao encontro dos irmãos que estão ainda fora da Igreja. A mesa ao redor da qual se reúne a família da Igreja é a mesa da Eucaristia.

Diz-nos o teólogo José Antonio Pagola em seu livro Jesus, aproximação histórica: “Ao contrário do que costumamos imaginar, Jesus não viveu no seio de uma pequena célula familiar junto com os pais, mas integrado numa família mais extensa. Os evangelhos nos informam que Jesus tem quatro irmãos que se chamam Tiago, José, Judas e Simão, (Mc 6,3) e também algumas irmãs que não são nomeadas, por causa da pouca importância que se dava à mulher. Provavelmente estes irmãos e irmãs são casados e têm sua família nuclear. Numa aldeia como Nazaré, a ‘família extensa’ de Jesus podia constituir uma boa parte da população. Abandonar a família era muito grave. Significava perder a vinculação com o grupo protetor e com o povoado.

O individuo devia procurar outra ‘família’ ou grupo. Por isso, deixar a família de origem era uma decisão estranha e arriscada. No entanto, chegou um dia em que Jesus o fez. Ao que parece, sua família e inclusive seu grupo familiar ficavam pequenos para ele. Ele procurava uma ‘família’ que abarcasse todos os homens e mulheres dispostos a fazer a vontade de Deus (cf. Mc 3,34-35). A ruptura com sua família marcou sua vida de profeta itinerante… Ele não cria uma família própria, mas se esforça por suscitar uma família mais universal, composta por homens e mulheres que façam a vontade de Deus”.

O texto do Evangelho deste Domingo da Sagrada Família (cf. Mt 2,13-15.19-23) é exclusivo do evangelista Mateus. O texto quer fazer um paralelo interessante entre Moisés e Jesus; entre o Faraó e Herodes. A história de Jesus se assemelha à história do seu povo, está teologicamente construída sobre o pano de fundo do Antigo Testamento. Um novo Êxodo inicia. Em Jesus as Escrituras se realizam: a perseguição e a fuga para o Egito lembram o nascimento de Moisés. A matança dos meninos lembra como nesta ocasião, diante da morte dos recém-nascidos, Moisés conseguiu ser salvo, também Jesus não é trucidado por Herodes. A fuga para o Egito também tem por base a fuga de Moisés diante da ameaça do Faraó e sua volta, depois da morte do mesmo.

Ao retornar para Israel, a sagrada família lembra o retorno dos israelitas à Terra Prometida, depois da estadia no Egito. Assim, o início da vida de Jesus é ilustrado com as cores do início do povo de Israel. O que no antigo povo foi pré-anunciado, vai se realizar plenamente na pessoa de Jesus.  Ele é visto como o novo Moisés que trará a nova lei e formará o novo povo de Deus. Assim Jesus é o novo Israel que refaz a história do antigo povo de Deus e a leva à plenitude. Jesus é a total novidade, mas plantada sobre a história do povo de Israel.

Deus, ao se encarnar na história humana, quis precisar de um homem e uma mulher. Em outras palavras, tudo isto se realizou numa família humana. Deus quis contar com a participação de homens e mulheres para realizar seus desígnios eternos, agora, na pessoa de Jesus, novamente um homem e uma mulher são escolhidos para levar a efeito o que Deus quer realizar em Jesus. A sagrada família é por excelência, o lugar da realização do início da nova história do povo de Deus. Por isto mesmo, na Liturgia da Igreja, José e Maria, com Jesus, têm um papel de destaque.

A Família de Nazaré se converte para nós em modelo de nossa própria família. Eles nos ensinam como viver em família, nos revelam a importância que nossos pais e familiares têm para nós. Mas quando olhamos como estão as famílias descobrimos que certamente passam por dificuldades e crises serias. Não há consciência hoje da importância que tem a família, e tampouco se favorece que cresça esta importância na consciência das novas gerações. Hoje não se valoriza os idosos, nem se buscam medidas que protejam as crianças. Não há medidas de ajuda à maternidade, nem às famílias numerosas. Não se favorece a conciliação entre o trabalho e a família. E assim é hoje muito frequente encontrar famílias que sofrem, que passam por crises às vezes muito duras. É fácil hoje conhecer a muitos pais que sofrem por causa de seus filhos, há matrimônios que rompem com facilidade a convivência conjugal, há mulheres que sofrem agressões por parte de seus maridos, filhos que são maltratados por seus pais… E diante de tudo isto, a Igreja nos mostra a Sagrada Família de Nazaré como modelo e ajuda para as famílias.

É necessário, hoje especialmente, mas também todos os dias do ano, rezar muito pelas famílias, pela nossa própria e também pelas famílias que sofrem por motivos tão diversos. Que Maria e José, junto com Jesus, ajudem a todos aqueles que tem sérias dificuldade familiares.

Neste domingo não nos esqueçamos de dar graças e de rezar por nossa família, mas também por tantas famílias que sofrem por causas tão diversas. Que todos nós, filhos e filhas de Deus por Jesus Cristo, nos sintamos membros da família da Igreja, que nela aprendamos a viver o amor, a compartilhar e a ajudar-nos mutuamente, vivendo entre nós o que hoje nos ensina a Sagrada Família de Nazaré.

 

Pe. José Assis Pereira Soares
Pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus 

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