A anunciação a José

Este quarto e último domingo do Advento é sempre o preâmbulo necessário para melhor entender liturgicamente o Nascimento do Senhor.

Este domingo é uma espécie de vigília litúrgica do Natal. Nele se anuncia a chegada iminente do Filho de Deus. Através de Maria e de José os primeiros a receber Jesus mediante a fé, adentramos na noite escura de Belém e do mistério da Encarnação. Lamentavelmente comprovamos que hoje como ontem, muitas pessoas seguem sua vida sem acolher ao Menino-Salvador, sem dar espaço para Ele e sua mensagem em suas vidas.

Ao contrário do rei Acaz da profecia de Isaías (cf. Is 7,10-14), que não quis fazer Aliança nem abandonar-se nas mãos de Deus, desprezando seu preceito e preferia fazer aliança com os poderosos do seu tempo. Maria e José, confiaram no Senhor, aderiram à sua vontade e aceitaram entrar na trama de salvação. Assim nos conta Mateus, na passagem chamada “anunciação de São José” (cf. Mt 1,18-25).

Na narrativa da infância de Mateus não há anunciação a Maria; ela permanece como uma figura de segundo plano. Há, ao invés, uma anunciação feita pelo anjo do Senhor a José, durante um sonho. Desde esse momento da anunciação José passa a ser figura de primeira magnitude na História da salvação.

“José, Filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome Jesus, pois ele vai salvar seu povo dos seus pecados”. (vv. 20-21) A situação jurídica de Maria e José que supõe Mateus parece clara à luz dos costumes matrimoniais judeus. Ela e José já estavam comprometidos pelo casamento, mas aguardavam aquele período costumeiro, antes da vida conjugal, que mantinha separados, pelo contrato de casamento, o marido e a mulher.

O casamento, contratado desde cedo pelos pais, quase sempre se realizava logo depois da puberdade; mas a moça continuava a viver com os pais por algum tempo, depois do casamento, até que o marido fosse capaz de sustentá-la em sua casa ou na casa de seus pais. E as relações sexuais não eram permitidas durante esse período. No entanto, Maria estava grávida. O que José podia fazer?

A situação é angustiosa e a solução complicada. Em muitos comentários se resolve apresentar o fato, da “dúvida de José” com uma possível traição de Maria, como se ela fosse pecadora já que estando desposada, para o mundo judeu pertencia totalmente ao esposo, aparecendo grávida, José a poderia repudiá-la como adultera, conforme a lei (cf. Dt 22,23-38). Por que não colocamos de outra maneira este fato da dúvida de José?

Mateus caracteriza a personalidade de José como um homem “justo” (cf. 2,25). Existe uma verdadeira espiritualidade do “justo” na Bíblia, como sendo uma pessoa que vive intensamente a ordem do amor a Deus, cultivando intimidade com Ele, sensível a seus desígnios expressos pela lei como manifestação de sua vontade. Essa pessoa com essas características se transforma num justo quando ganha irradiação na comunidade, educa pelo exemplo os mais jovens, conquista, pela conduta íntegra, a confiança dos demais e se torna uma referência coletiva. Sua vida mostra a verdade de seu fervor religioso e sua inteireza o torna um modelo de adesão a Deus. O conjunto desses valores constitui o “justo” na compreensão bíblica.

Sendo “José, seu marido era justo” (v. 19) não temos motivos com base no texto de Mateus, para pensar que ele duvidou da honestidade de Maria. O estado de Maria criava o problema unicamente para José. Parece-nos de todo normal que ele pelo mensageiro divino foi introduzido no mistério da maternidade de Maria sua noiva. A descoberta da sua gravidez já trouxe o conhecimento de que tinha sido através da ação do Espírito Santo. A decisão de José de “abandonar Maria, em segredo” originou-se de seu grande respeito ou reverência a esta divina intervenção, da qual ele já sabia quando o anjo lhe apareceu. Este conhecimento deu a ele um senso de indignidade em relação a Maria e uma relutância em entrar numa vida conjugal comum, com um instrumento de Deus. Esta interpretação é possível e ela poupa José de ter pensado mal de Maria.

Portanto, a dúvida ante o fato milagroso não nasce sobre a culpa ou inocência de Maria, mas sobre o papel que José pessoalmente tem que assumir ante esta ação de Deus.  Ser perante a lei o pai legal, dar o nome e educar o menino que vai nascer.

Uma vez conhecido o papel que ele tinha que fazer neste matrimônio, com respeito ao filho, José sentiu-se livre da dúvida de qual era a sua missão nesse matrimônio e mediante a obediência da fé, assume a sua paternidade humana em relação a Jesus, confiando na luz do Espírito Santo que por meio da fé se doa e por certo foi descobrindo a cada dia o significado desta sua paternidade.

Como se deduz dos textos evangélicos, o matrimônio com Maria é o fundamento jurídico da paternidade de José. Foi para garantir a proteção paterna a Jesus que Deus escolheu José como esposo de Maria. Por conseguinte, a paternidade de José passa através do matrimônio com Maria, ou seja, através da família.

Esta mensagem evangélica tem implicações para todos nós. É necessário que o homem (José) e a mulher (Maria) colaborem no acontecimento da salvação. Deus não anula a decisão livre de sua criatura, conta sempre com ela inclusive ariscando-se ao fracasso de sua obra.

Nestes dias, às vésperas da celebração do Natal do Senhor, nos voltamos para a figura silenciosa do Advento, São José. “Ele ensina-nos a confiar sempre em Deus que se aproxima de nós: Quando Deus se aproxima de nós, temos o dever de nos confiarmos a Ele. José ensina-nos a deixar-nos orientar por Ele com obediência voluntária.” (Papa Francisco) Ele é um modelo de fé e aceitação dos planos de Deus sobre nossas vidas para todo cristão. Seu intimidade familiar com Deus na figura daquele menino que ele o amava com ternura e profundidade; que crescia ante seus olhos e ao qual ensinava sua própria profissão, que o servia com generosidade e protegia com todas as suas forças; seu próprio silêncio faz de São José mestre de oração para todo cristão.

Outra lição nos vem por outra faceta da vida do patriarca, são os seus cinco sonhos, através dos quais, Deus interveio com suas divinas instruções e após cada sonho José imediatamente obedeceu e executou com fidelidade as ordens do Senhor. A sua incondicional e pronta adesão a esta vontade salvadora nos deveria iluminar. Na vida de José ela cresce ante as dificuldades e contratempos que vão surgindo nos dias atribulados do nascimento do menino: encontrou um lugar, um abrigo para a Mãe e o menino; livrou-os de tantos perigos que tiveram que correr; acompanhou e consolou Maria na aflição de ter perdido o menino em Jerusalém. Em tudo nenhuma palavra de queixa se escapa de seus lábios. Aceita e faz em cada momento o que tinha que fazer.

Que unidos a José e Maria nos aproximemos do Natal e eles nos indiquem caminhos para que a experiência do Natal seja para nós como foi para eles esta experiência do encontro dialogal de vontades, a de cada um de nós com a vontade salvadora de Deus.

Pe. José Assis Pereira Soares
Pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus 

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