Uma opção radical

“Escolhei hoje a quem quereis servir”, diz Josué aos israelitas reunidos em assembleia em Siquém após a conquista da terra Prometida (cf. Js 24,1-2.15-18)). É uma questão que nunca deixará de também ser posta a nós. Ao longo da nossa vida, fazendo a experiência do encontro com Deus, encontramo-nos frequentemente com outras propostas que parecem garantir-nos a felicidade e a realização.

Evidentemente, nem todos os valores do mundo são incompatíveis com a nossa opção por Deus. Temos, no entanto, que repensar continuamente a nossa vida e as nossas opções, a fim de não nos deixarmos seduzir por propostas falsas de realização e de felicidade. Sabemos que não podemos prescindir de Deus e das suas propostas; e sabemos também que é nesse Deus que nunca desilude aqueles que n’Ele confiam, que podemos encontrar a nossa realização.

A Palavra de Deus hoje nos coloca diante do tema da chamada “opção fundamental”. E nesta matéria Jesus se revela Mestre (cf. Jo 6, 60-69). Diante de uma crise ou perda de popularidade, na última etapa do seu ministério, onde antes eram os judeus que o criticavam, agora são seus próprios discípulos ou o grupo dos “Doze” que o recriminam e que acham difícil aceitar o radicalismo das suas palavras: “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?” (v. 60). Muitos se afastavam de Jesus, recusando-se a segui-lo. Ele então propõe aos “Doze”: “Vós também vos quereis ir embora?” (v. 67)

Na realidade, sempre houve discípulos que seguiram Jesus por razões equivocadas, cuja adesão a Ele é apenas exterior e superficial. Jesus tem consciência clara dessa realidade. De qualquer forma, Ele encara a crise dos discípulos com tranquilidade e serenidade. Ele não força ninguém; apenas apresenta a sua proposta radical e exigente e espera que o discípulo faça a sua opção, sua escolha ou tome a sua decisão com toda a liberdade.

“Vós também vos quereis ir embora?” Ele não suaviza suas exigências, nem atenua a dureza das suas palavras. Muitos, apesar de terem visto os milagres, apesar de terem comido na multiplicação dos pães e dos peixes, agora não querem acreditar no que Ele diz. Acham que as suas palavras são duras, incompreensíveis.

Jesus está disposto a correr o risco de ficar sem discípulos, mas não está disposto a fazer concessões nem prescindir da radicalidade do seu projeto. Mas isso, não é uma questão de teimosia; Jesus está seguro que o caminho que Ele propõe é o único caminho por onde é possível chegar à vida plena. Por isso, Ele não pode mudar uma vírgula da sua proposta.

Confrontados com esta opção fundamental, os discípulos aceitam a proposta de Jesus, Pedro em nome deles responde: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna”. (v. 68) Esta é a resposta que também nós somos convidados a dar. Todos os dias somos desafiados pela lógica ou espírito do mundo, da mundanidade, no sentido de alicerçarmos nossa vida nos valores da corrupção do poder, do sucesso a qualquer preço, dos bens adquiridos e usados egoisticamente, da moda; e todos os dias somos convidados por Jesus a construir nossa existência sobre os valores do amor, do serviço, da partilha, da simplicidade, da coerência com a ética e os valores evangélicos.

É inútil esconder a cabeça na areia: estes dois modelos de existência nem sempre podem coexistir e, frequentemente, excluem-se um ao outro. Temos de fazer a nossa escolha, sabendo que ela terá consequências no nosso estilo de vida, na forma como nos relacionamos na forma como o mundo nos vê e, naturalmente, na satisfação do nosso desejo de felicidade. A questão é: estamos ou não dispostos a optar e aderir a Jesus seguindo-o no caminho do amor e do dom da vida?

Muitos discípulos não tiveram a coragem de aceitar a proposta de Jesus, eles representam todos os indecisos ou os demasiado comprometidos com os valores do mundo, que até podem frequentar a comunidade cristã, mas que no dia a dia vivem obcecados com a sua conta bancária, com o sucesso profissional a todo o custo, com a pertença à elite. Para estes, “esta palavra é dura! Quem consegue escutá-la?” Esta categoria de discípulos não é tão rara como parece. Em diversos graus, todos nós sentimos muitas vezes, a tentação de atenuar ou “suavizar” as exigências do Evangelho e a radicalidade da proposta de Jesus, procuramos “adoçar” suas palavras, a fim de que Ele seja mais facilmente aceito pelas pessoas e construir a nossa vida com valores mais condizentes com uma visão “light” da existência. Também nós temos que fazer uma opção fundamental. Para ser discípulo ou discípula de Jesus não há meio-termo, a fé cristã implica uma decisão, um estilo de vida coerente.

Estamos no momento engolindo o pão da crise. “Nas últimas décadas, vemos com preocupação, por um lado, que numerosas pessoas perdem o sentido transcendental de suas vidas e abandonam as práticas religiosas; e, por outro lado, que significativo número de católicos está abandonando a Igreja para entrar em outros grupos religiosos […] São muitos os cristãos que não participam da Eucaristia dominical nem recebem com regularidade os sacramentos, nem se inserem ativamente na comunidade eclesial… Temos alta porcentagem de católicos sem a consciência de sua missão, com identidade cristã fraca e vulnerável”. (Documento de Aparecida, n.100f)

“Senhor, a quem iremos?” Os apóstolos tinham um motivo para não ir embora como os outros: a experiência do encontro pessoal e do íntimo convívio com Jesus, a escuta de sua Palavra viva, tocara de tal modo o coração deles que não mais quiseram se afastar do Mestre, e nós?

Quantos irmãos irmãs batizados hoje vêm de uma experiência pessoal com Cristo, têm uma fé firme, uma convicção que os tornam seguros da Igreja-comunidade onde querem conviver como discípulos e discípulas de Cristo? A facilidade com que muitos hoje mudam de religião ou simplesmente deixam de frequentar a própria Igreja revela a falta de profundidade da experiência de fé dessas pessoas. Elas não sabem o que querem e tampouco sabem como e onde encontrar. São pessoas muitas vezes fragilizadas, que saem de nossas comunidades cristãs à procura de seguranças propagandeadas por outros grupos religiosos. Mas é verdade também que todo esse “fluxo” religioso demonstra que as pessoas têm pouca convicção do que acreditam.

Não há seguimento de Jesus nem evangelização verdadeira sem a formação de comunidades eclesiais fiéis, intensas e apostólicas. A decisão de ficar com Jesus não vem, em primeiro lugar da emoção de um espetáculo ou “show” da fé, nem tampouco do conhecimento formal da doutrina. É óbvio que em nosso processo de formação do discipulado cristão precisamos e temos direito à sólida formação bíblico-teológico, espiritual e pastoral, aliás, tão necessária numa sociedade que a tudo nos questiona. O ato de crer, porém, não nasce simplesmente da aquisição de informações. A fé nasce de um encontro afetivo, de um encantamento que nos leva ao compromisso de vida. Pois, “Senhor, a quem iremos? Tens palavra de vida eterna!”

Pe. José Assis Pereira

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