Quem é este homem?

No Evangelho de São Marcos (cf. Mc 8,27-35)  a pergunta “quem é Jesus?” atravessa todo o seu evangelho, aparece nos gestos, milagres e palavras do próprio Jesus. A compreensão total da pessoa de Jesus e do seu seguimento não se obtém pela instrução teórica, teológica ou mística, mas pelo empenho prático, caminhando com Ele ao longo do caminho do serviço, no seu itinerário da Galiléia a Jerusalém.

Na geografia do evangelho de Marcos, Jesus e os Doze encontram-se nas proximidades de Cesareia de Filipe, cidade de veraneio que leva o nome do Imperador Romano. Jesus está a caminho com seus discípulos, aí Jesus faz a pergunta decisiva: “Quem dizem os homens que eu sou?… E vós, quem dizeis que eu sou?”.

“Pedro respondeu: Tu és o Messias.” (v.29) Esta resposta está correta, mostra que Pedro e os discípulos aceitavam Jesus como “Messias”, porém com conotações político-nacionalistas. Jesus, então começa a lhes ensinar que Ele é o “Messias-servo”, anunciado pelos profetas (cf. Is 49,4-9; 53,1-12). Faz assim o primeiro dos três anúncios da sua paixão e morte: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos escribas, ser morto e, depois de três dias, ressuscitar” (v. 31).

Neste primeiro anúncio da paixão, Pedro não entende a proposta de Jesus sobre um messianismo que não se apoia no poder e sim no serviço, na cruz e no sofrimento. Para ele é um escândalo a paixão de Cristo, “chamando-o de lado, começou a recriminá-lo” (v. 32) e tenta eliminar a cruz e o ensinamento sobre as suas consequências para serem seus discípulos. Isto porque nas comunidades para as quais Marcos escreve seu evangelho havia muitas pessoas como Pedro, como os discípulos que não queriam a cruz, não a entendiam ou da cruz tinham medo! Para os romanos, como para os judeus, o obstáculo maior à fé deve ter sido a condenação de Jesus à morte e a crucifixão.

Os anúncios da paixão dão uma palavra de orientação por parte de Jesus, criticando a falta de compreensão dos discípulos e ensinando como deve ser seu comportamento no discipulado. Assim, neste primeiro anúncio, Jesus aponta três condições válidas para segui-lo: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (v. 34). Naquele tempo, como sabemos, a cruz era a pena de morte que o império romano impunha aos marginais.

Tomar a cruz e carregá-la atrás de Jesus queria dizer, portanto, aceitar e assumir com todas as consequências a coragem e a valentia de seguir Jesus e o viver o amor numa sociedade injusta. Indicava uma ruptura radical e total com uma sociedade violenta. A Cruz não é fatalismo, nem sequer uma exigência do Pai. “Na Cruz de Cristo, não só se realizou a redenção através do sofrimento, mas também o próprio sofrimento humano foi redimido.” (João Paulo II) Jesus, levantado na Cruz, dá valor salvífico aos nossos sofrimentos. Quando olhamos com fé para a Cruz, não só contemplamos que Deus é Amor, mas que nos ama como jamais sonhamos que alguém nos poderia amar, e ama-nos sempre. A cruz é, portanto, a consequência do compromisso livremente assumido por Jesus para revelar o Amor de Deus que “amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3,16)

Para o seguimento de Cristo, temos de entrar na fila, aceitar o convite do Senhor e carregar a nossa própria cruz de cada dia na “via crucis” comum, a cruz do sofrimento, da incompreensão e falta de amor. Mas, caminhando com Ele, pondo amor na dor. Então, esta muda de sinal. Participando nos sentimentos de solidariedade, serviço, disponibilidade e entrega absoluta de Cristo, também seremos participantes na glorificação.

Mas, naquele anúncio primeiro, Pedro se enche de temor e tenta desaconselhar Jesus do caminho para Jerusalém ou para a cruz, porque ele e os discípulos ignoram a ressurreição. Jesus responde a Pedro: “Vai para longe de mim, satanás! Tu não pensas como Deus e sim como os homens!” (v. 33) O discípulo pensava que havia dado a resposta certa à pergunta de Jesus. Porém, não entende o poder de Jesus. Marcos explica imediatamente que se trata de um Messias que transtorna os esquemas pré-fabricados e as projeções dos desejos humanos. Pedro aceita um Jesus Messias, mas não como Messias servo-sofredor. Ele estava condicionado pela propaganda da época que falava do Messias só em termos políticos, como o restaurador da realeza de Israel. Não antevia nada e queria que Jesus fosse como ele. Como Pedro os discípulos não queriam o compromisso da cruz. Quem, ainda hoje insistir em manter a ideia de Pedro, ou seja, a do Messias glorioso sem a cruz, não entenderá e não alcançará assumir o comportamento do verdadeiro discípulo.

A resposta de Jesus a Pedro foi duríssima, chama-o de “satanás”! Satanás é uma palavra hebraica que significa o que arma ciladas, inimigo, adversário do projeto de Deus. Que disse Pedro de errado para ser chamado de “opositor”? Jesus não permite que nada, nem ninguém, o afastem do caminho de Deus, de sua missão. Literalmente Jesus disse: “Vai para trás de mim!” Ou seja, “eu não vou te seguir Pedro, és tu que deves caminhar atrás de mim, deves seguir-me e aceitar o caminho que Eu te indicar”. Pedro queria ser o primeiro a indicar a direção. Queria um Messias à sua medida e a seu desejo.

Hoje, os cristãos, cremos em Jesus, mas nem todos o entendemos da mesma forma. Sabemos que existe uma “propaganda” que intenta interferir no nosso modo de ver a Jesus. Quem é este homem? Quem é Jesus para mim? Qual é hoje a imagem mais comum que temos de Jesus?

Jesus é em primeiro lugar o Messias, o Cristo, o Ungido de Deus, que submete toda sua pessoa a missão que o Pai lhe confia, chegando inclusive até a obediência da Cruz. Por isso, em Jesus se unem o “Ungido” e o “Servo Sofredor”, não como dois títulos contrapostos de sua condição humana, mas como dois nomes de uma mesma pessoa que o definem e o caracterizam. Por isso Jesus chama a Pedro “satanás” quando este intenta apartar-lhe seja de sua missão redentora, seja de sua perfeita condição humana segundo Deus.

Sem a cruz é impossível entender quem é Jesus e o que significa segui-lo. É certo que há muitos grupos religiosos que tentam anunciar um Cristo sem a cruz, maravilhoso, espetacular, fantástico! Comportando-se como verdadeiros inimigos da cruz de Cristo, como nos diz o apóstolo Paulo (cf. Fl 3,18-19). Sabemos, no entanto, que o caminho do seguimento de Jesus é o caminho da dedicação, do abandono, do serviço, do amor até as últimas consequências, da disponibilidade, da aceitação da dor, sabendo que haverá ressurreição. A cruz não é um acidente de percurso, mas faz parte do caminho do discípulo fiel. Porque no mundo, organizado a partir do egoísmo, o amor e o serviço podem existir crucificados. Quem dá a vida a serviço dos outros, incomoda a outros que vivem presos aos privilégios, e sofre.

Pe. José Assis Pereira Soares

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