O cristão participa na missão profética de Cristo

A Liturgia deste Domingo nos coloca diante da identidade profética de Jesus Cristo. Como no Domingo passado vemo-lo na sinagoga de Nazaré, povoado onde Ele cresceu em família e é conhecido por todos. Ali Jesus encontra logo, já no início do seu ministério, a oposição dos seus conterrâneos que não o acolhem como Messias, permanecendo fechados a considerar a sua realidade humana e familiar.

Jesus é a plenitude da missão profética e salvífica de Deus. Sua missão está prefigurada em Jeremias, o grande profeta do séc. VI a.C, de cuja vocação e missão hoje escutamos um testemunho (cf. Jr 1,4-5.17-19). A aventura do profeta Jeremias nos serve de introdução e de chave para entender a aventura de Jesus, nosso Profeta. Ele não foi um acaso. Deus pensou nele desde sempre. Estava destinado, ainda antes de nascer, a ser profeta. Não lhe faltarão perseguições, oposições e rejeições.

Aquele jovem profeta, símbolo de Cristo, será forte. Disse o Senhor a Jeremias: “Eu te transformarei hoje numa cidade fortificada, numa coluna de ferro, num muro de bronze contra todo o mundo… eles farão guerra contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para defender-te”.

No evangelho deste domingo (cf. Lc 4,21-30) continuação do domingo passado, Jesus atribui a si a profecia de Isaías e diz: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir.” (v. 21) Assim Lucas nos apresenta Jesus como o profeta que veio trazer a voz de Deus ao mundo; ao dizer que se cumpriam as palavras de Isaías, Ele assumia uma profecia do antigo profeta como sua. A reação dos ouvintes será o protótipo de tudo o que Jesus experimentará em toda a sua vida e missão.

A primeira reação das pessoas que estão na sinagoga de Nazaré ao ouvir Jesus é positiva, de aprovação e admiração. “Todos se admiravam das palavras cheias de encanto que saíam de sua boca”. (v. 22) Mas a admiração dura pouco. Em seguida surgem dúvidas. Primeiro sobre sua procedência: “Não é este o filho de José?” (v. 22). O escândalo é que esta Palavra, que este desígnio de Deus, se realize na carne de um homem tal, um “qualquer”. O escândalo é que este Messias assumiu nossos limites humanos e nossa fragilidade. Isso os confunde totalmente.

Jesus compreende que o que eles querem é que Ele faça em Nazaré os milagres que Ele fizera em Cafarnaum. E dirá que “nenhum profeta é bem recebido em sua pátria”. (v. 24) Pois em Cafarnaum, foi a fé e o amor das pessoas o que fez possível o milagre da cura dessas pessoas, já que sem verdadeira fé e verdadeiro amor não é possível o milagre.

Em Nazaré eles não haviam mostrado nem fé nem amor a Ele, já que eles apenas viam-no como “o filho de José”. O ter nascido no mesmo povoado que Ele nasceu não é motivo suficiente para que Ele faça ali milagres. E lhes recorda que foi, precisamente, a fé e a generosidade de dois estrangeiros, a viúva de Sarepta e o sírio Naamã, o que fez possível os milagres dos profetas Elias e Eliseu.

Tudo isto delineia o destino de Jesus enquanto profeta não escutado na sua terra e abre uma perspectiva universal á sua mensagem e missão, prefigurada nos exemplos de Elias e de Eliseu. O evangelho de Deus é para todos, para os israelitas, povo escolhido, e também para os pagãos, para os que não são religiosos, para os bons e para os maus, mas com um chamado comum à conversão.

Os conterrâneos de Jesus se revelam diante disto, porque eles são os “escolhidos”, e não outros, e muito menos pagãos que vivem marginalizados e excluídos da sociedade. Mas, Jesus disse que é a pessoas como estas a quem está destinada a Boa Nova da salvação de “um Deus que é Pai e que cuida de todas as suas criaturas, até da mais pequenina e insignificante aos olhos dos homens. Precisamente nisto consiste o ministério profético de Jesus: no anuncio de que nenhuma condição humana pode ser motivo de exclusão! – do coração do Pai, e que o único privilegio aos olhos de Deus consiste em não ter privilégios, em abandonar-se nas suas mãos”. (Papa Francisco)

Ante a resposta de Jesus, essa dura censura aos seus conterrâneos eles reagirão com violência: “todos se enfureceram. E expulsaram-no para fora da cidade”, (v. 28-29) queriam precipitá-lo do alto do monte no precipício. Que triste e quão terrivelmente humano é este comportamento dos conterrâneos de Jesus! Não souberam vê-lo como o Cristo, o Ungido, como Aquele no qual se havia pousado o Espírito de Deus; só souberam vê-lo como o “filho de José”.

Não acontece conosco o mesmo? Admiramos o personagem Jesus, mas não cremos, nem amamos o Cristo, o Ungido de Deus. Estamos diante de um mistério. É fundamental ter essa clareza da pessoa de Jesus de Nazaré, homem perfeito e Filho de Deus.

Empurram-no para fora da cidade como no futuro “o conduzirão para fora da cidade e o crucificarão.” Portanto, desde o início, segundo Lucas, podemos ver o final de sua história. Mas o grande paradoxo é que as pessoas, repelindo-o, induzem-no sem saber a cumprir a vontade do Pai. Assim será o final.

Na missão profética corre-se riscos, o risco principal de que as pessoas não escutem nem aceitem a mensagem de Deus, comunicada pelo profeta. O risco também de ser maltratado, considerado inimigo público, tido como “profeta das desgraças”, como Jeremias. Jesus esteve a ponto de ser eliminado pelos nazarenos. Mas o profeta não tem medo. Deus disse a Jeremias: “Não tenhas medo…” (Jr 1,17). Jesus, “passando pelo meio deles, continuou seu caminho” (v. 30).

Os “profetas” não são uma classe extinta há séculos, é uma realidade com que Deus continua a contar para intervir no “hoje” do mundo. No Batismo, fomos ungidos como profetas, à imagem de Cristo. Estamos conscientes dessa vocação a que Deus a todos nos chamou?

Hoje, a Igreja e o cristão em particular, são chamados a profetizar. Cada cristão participa na missão profética de Cristo. O profeta não é um vidente, nem um ser estranho que prevê catástrofes. É essencialmente, alguém que anuncia as exigências do Evangelho, confrontando-as lucidamente com a realidade histórica de seu tempo. Deve contar com a rejeição e a perseguição porque incomoda, porque exige mudança de atitude, exige conversão. Mas, é preciso profetizar, é preciso, acreditando que cada cristão foi ungido pelo Espírito do Senhor, dizer pela Palavra e pela vida tudo o que o Senhor ordenou dizer.

Para nós, qualquer que seja nossa circunstância, toda Palavra que venha de Deus é uma provocação, porque nos tira de nossa rotina, de nossos esquemas mentais. Jesus provoca hoje os nazarenos e a nós. Viver como cristãos assumindo a dimensão profética de nossa fé é também uma verdadeira conversão. Se o cristianismo não nos provoca nem nos sacode em nosso interior, é porque perdeu a sua força profética e sua razão de ser no hoje de nossa história.

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