O amor cristão aos inimigos

Continuamos no horizonte do “discurso da planície” que começamos a ler no Domingo passado (cf. Lc 6,20-26). Na sequência, no Evangelho deste Domingo (cf. Lc 6,27-38) Jesus proclama um princípio revolucionário, exige aos seus discípulos uma transformação dos próprios sentimentos e atitudes, o amor e o perdão aos inimigos.

Um episódio da vida de Davi tirado do livro de Samuel (cf. 1Sm 26, 2.7-9.12-13.22-23) ilustra muito bem o amor dos inimigos, manifestado no perdão. Davi perseguido por Saul monta o seu acampamento no deserto. Davi o localiza e decide encontrar-se com ele. A proeza é arriscada, mas Abisai seu sobrinho, um valente guerreiro se oferece para acompanhá-lo. Os dois chegam até o lugar onde se encontra Saul, que está dormindo no meio dos seus soldados. Abisai imediatamente propõe a sua solução: “Deus entregou hoje em tuas mãos o teu inimigo. Vou cravá-lo em terra com uma lançada, e não será preciso repetir o golpe.”

Davi podia ter se vingado de Saul tirando-lhe a vida, podia matar seu inimigo, mas não o faz porque vê no rei “um ungido do Senhor.” Estamos diante de duas maneiras de pensar: a de Abisai, ditada pela lógica humana de agressão e vingança a quem praticou o mal, e a de Davi, de perdoar não fazendo o mal aos inimigos.

Jesus proclama uma das mais importantes lições do Novo Testamento e mais do que uma lição moral um dos fundamentos do cristianismo: “Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, e rezai por aqueles que vos caluniam.” (vv.27-28) Este ensinamento não se trata de uma “ética para os fracos”, pois se exige muitíssimo mais força de ânimo para perdoar do que para alimentar desejos de vingança.

Aí estão quatro imperativos (“amai, fazei o bem, abençoai e orai”) que não deixam qualquer duvida sobre como o cristão deve comportar-se diante de quem pratica o mal. Jesus rejeita e condena de forma absoluta o recurso à violência.

Não se pode seguir a Jesus se se guarda rancor, ressentimento, ódio e desejo de vingança. E com que facilidade todos nós nos tornamos reféns desses sentimentos. Como nos custa perdoar!

Não há razões humanas que apoiam o amor aos inimigos ou o perdão das ofensas. Jesus nos dá uma razão teológica: “Sede misericordiosos como também o vosso Pai é misericordioso.” (v.36) Ele convida-nos a erguer os olhos para Deus Pai, a fim de nos tornarmos semelhantes a Ele. Sabemos que o Pai é misericordioso e a prova é seu Filho Jesus e porque Deus é misericordioso é que somos convidados a perdoar. Não é uma lição de moral, mas fundamentalmente um ato de fé do qual decorre um conjunto de comportamentos. Jesus, o Filho de Deus Altíssimo, veio tirar do coração humano a maldade e tudo aquilo que o pode afastar da semelhança com Deus, o pecado. Jesus é a perfeita imagem de Deus. O desafio está em procurarmos ser semelhante a Ele, ser perfeitos como o Pai celeste é perfeito.

Se Cristo nos pede amar os inimigos, é porque Ele agiu assim, dando-nos um exemplo muito palpável. O Evangelho de Lucas procura mostrar Jesus como a encarnação da misericórdia divina, acolhendo e indo à casa de pecadores, saindo à procura da ovelha perdida, recebendo o filho pródigo que retorna e no calvário aos que o traíram, caluniaram, condenaram, crucificaram e se puseram debaixo da Cruz com zombarias e desprezo, Jesus diz: “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem!” (Lc 23,34)

No ambiente em que vivemos quando vemos através dos meios de comunicação tantas pessoas que são barbaramente agredidas, roubadas, desprezadas, violentadas ou mortas, embora não sendo maus, somos levados a reagir instintivamente com agressividade, pelo menos numa revolta interior capaz de desejar a vingança de tais perversidades. Geralmente pensamos por sentido de justiça, ao bem com o bem e ao mal com o mal. Estamos convencidos de que os fazendo pagar se conseguirá de alguma forma restabelecer a justiça, dando a todos uma lição.

Também no ambiente em que vivemos, é um sinal de fraqueza e de covardia não responder a uma agressão ou não pagar na mesma moeda a quem nos faz o mal; e é um sinal de coragem e de força pagar o mal com o mal – se possível, com um mal ainda maior. Achamos, assim, que defendemos a nossa honra e o nosso orgulho e conquistamos a admiração dos que nos rodeiam.

Estes princípios geram, inevitavelmente, guerras entre os povos, separações e divisões nas famílias, inimizades e conflitos entre os colegas de trabalho, relacionamentos difíceis e pouco fraternos entre membros da mesma comunidade cristã. Por que não descobrimos ainda, que este caminho é desumano?

A lógica da violência tem feito parte da história humana. Como resultado, além das guerras e conflitos, a violência quotidiana atinge todos os dias, um número significativo de pessoas inocentes. Onde nos leva esta lógica? Ela não provou já os seus limites? Jesus rejeita o uso da violência porque em vez desta melhorar as situações, apenas as complica ainda mais fazendo surgir o ódio, os maus instintos e a vontade de reparação ou vingança.

Jesus nos pede que sejamos capazes de gestos concretos que quebrem a espiral de violência e de ódio: trata-se de não responder “na mesma moeda”; trata-se de estar sempre disposto a acolher o outro, mesmo o que nos magoou e nos prejudicou; trata-se de estar sempre de mão estendida para o outro, sem nunca cortar as vias do diálogo e da compreensão. O amor é a única forma de desarmar o ódio e a violência. Só assim os cristãos imitarão a bondade, o amor e a ternura de Deus.

É preciso acreditar na força do amor. A nossa força e a nossa coragem manifestam-se, precisamente, na capacidade de inverter esta lógica de violência e de estender a mão a quem nos ofendeu. O cristão não pode recorrer às armas, à violência, à mentira, à vingança para resolver qualquer situação de injustiça que o atingiu. Vingança não é justiça. Esta é a difícil lógica dos seguidores de Jesus pôr em prática.

À luz do Evangelho justifica-se a eliminação legal de pessoas (pena de morte)? Qual a minha atitude em face desse valor supremo que é a vida humana? Há algo que justifique a morte do inimigo? Sabemos que o cristão tem o direito de defender os seus direitos, de proteger os seus bens, a sua honra e a sua vida. Mas as palavras de Jesus são indicações sobre os sentimentos que os discípulos devem ter perante o mal. Procurar restabelecer a justiça sem o recurso às armas, à violência, à mentira, ao ódio ou à vingança.

Gravemos bem no nosso coração a máxima evangélica chamada “regra de ouro” hoje anunciada por Jesus: “O que vós desejais que os outros vos façam, fazei-o também vós a eles.” (v.31) Se desejo que me tratem com respeito, devo tratar com respeito; se quero ser compreendido e perdoado, devo aprender a compreender e perdoar. É uma regra simples e prática, a se ter sempre em conta em nossas relações.

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