Matrimônio: Amor e fidelidade

Nestes tempos nos quais a sociedade assume a causa dos direitos fundamentais da pessoa humana, sobretudo, da mulher e da criança, parece assombroso para nós, o pouco valor que a mulher e a criança tinham na sociedade antiga. Numa cultura que favorecia apenas o homem em prejuízo da mulher, contra essa parcialidade machista o cristianismo traz uma nova dimensão de respeito à mulher, à criança e ao matrimônio.

Como sabemos a criança no tempo de Jesus não contava para nada; e muito menos uma mulher “repudiada”, divorciada. Jesus põe em pé de igualdade homem, mulher e criança numa sociedade que favorecia apenas o homem. A defesa de Jesus do matrimônio no evangelho de hoje (cf. Mc 10, 2-16) não se pode entender, em primeira e única instância, como um mandamento moral, mas sim como uma postura integradora de Jesus, em favor das mulheres e defesa dos pobres e abandonados.

A defesa da continuidade do matrimônio, sem rupturas, foi sim, num primeiro momento, uma defesa da mulher e da prole frente ao poder dos homens. A questão era revolucionária, de acordo com as demandas da sociedade daquela época.

Jesus enfrenta a permissividade excludente dos fariseus com uma acusação: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés permitiu ao homem divorciar-se de sua mulher”. Ao mesmo tempo, faz a relação homem-mulher brilhar com toda a intensidade que o projeto de Deus lhe destinou: “Desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. Assim já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu o homem não separe!” (vv. 6-9)

Sim, no princípio Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só” (cf. Gn 2,18-24). Estas palavras, postas na boca de Deus revelam que o ser humano, representado por Adão, é um ser criado para relacionar-se. A realização plena do ser humano acontece na relação e não na solidão. A vocação do homem e da mulher é o amor; homem-mulher existe para ajudar-se mutuamente a sair da solidão. Seu destino é encontrar-se, completar-se reciprocamente.

O autor sagrado com uma linguagem teológica diz-nos, que na origem da vida e do ser humano está o amor humano abençoado por Deus. Deus acolhe com carinho a história concreta de amor do homem e da mulher que querem unir suas vidas e eleva este amor a um nível verdadeira e misteriosamente divino.

No Sínodo da Família (2016), “os Padres sinodais lembraram que Jesus, ao referir-se ao desígnio primordial sobre o casal humano, reafirma a união indissolúvel entre o homem e a mulher, mesmo admitindo que, por causa da “dureza do vosso coração”, Moisés permitiu que repudiásseis as vossas mulheres; mas, ao princípio, não foi assim. A indissolubilidade do matrimônio (“o que Deus uniu, o homem não separe”) não se deve entender primariamente como ‘jugo’ imposto aos homens, mas como um ‘dom’ concedido às pessoas unidas em matrimônio. (…) Nos Evangelhos, sobressai claramente a postura de Jesus, que (…) anunciou a mensagem relativa ao significado do matrimônio como plenitude da revelação que recupera o projeto originário de Deus.

Jesus leva o matrimônio e a família à sua forma original. A família e o matrimônio foram redimidos por Cristo (cf. Ef 5,21-32), restaurados à imagem da Santíssima Trindade, mistério em que brota todo o amor verdadeiro. A aliança esponsal, inaugurada na criação e revelada na história da salvação, recebe a revelação plena do seu significado em Cristo e na sua Igreja. O matrimônio e a família recebem de Cristo, através da Igreja, a graça necessária para testemunhar o amor de Deus e viver a vida de comunhão.

O Evangelho da família atravessa a história do mundo desde a criação do homem à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26-27) até a realização do mistério da Aliança em Cristo no fim dos séculos com as núpcias do Cordeiro (cf. Ap 19,9).” (Amoris Laetitia n. 61-63)

Jesus explica que no projeto original de Deus, o homem e a mulher foram criados um para o outro, para se completarem, para se ajudarem, para se amarem. Unidos pelo amor, o homem e a mulher formarão “uma só carne”. Isso implica viverem em comunhão total, dando-se um ao outro, partilhando a vida um com o outro, unidos por um amor que é mais forte do que qualquer outro vínculo.

A separação será sempre o fracasso do amor; não está prevista no projeto de Deus, pois Deus não considera um amor que não seja total. Toda separação de alguma forma machuca a alma humana.  Essa comunhão é tão profunda que a Bíblia a escolheu como símbolo da Aliança entre Deus e seu povo.

Nunca como hoje se falam das situações de casamentos fracassados, mas há uma grande maioria de casais que com muito esforço, perdão, renuncia, generosidade, compreensão leva adiante aquele compromisso que fizeram “para sempre”, há 25, 50, 60, 70 ou mais anos de vida matrimonial. Não é justo não reconhecermos a gratuidade de tantas pessoas e também por que não, nosso acolhimento, nossa compreensão e oração com essa outra parte que por diversas razões fracassou no amor?

Por que tanto fracasso? Por que tantas dúvidas? Por que tantas rupturas? Por que tantos medos de unir-se, quando sabemos, que na união está a fonte da felicidade? As razões são variadas e de caráter diverso, mas um matrimônio, não é só um simples vínculo jurídico: tem de estar garantido pelo amor. Exclusivamente pelo amor conjugal. Se falha esse elo, se rompe a corrente. Ou pode ficar apenas sustentado num puro e simples artifício.

Por isso Jesus propõe a fidelidade matrimonial, entendida como indissolubilidade. O Evangelho não diz o que fazer com os que fracassaram no casamento. Os esposos têm que esforçar-se por realizar a sua vocação de amor, apesar das dificuldades, das crises, das divergências e dos problemas que, dia a dia a vida lhes vai colocando. Jesus aponta para o ideal evangélico do amor conjugal que é a indissolubilidade. Esta é uma questão que não parece fácil no mundo atual, numa cultura do descartável, do provisório, em que esse valor do “amor para sempre” e da fidelidade é ridicularizado por muitos nas ruas, nos meios de comunicação, nas conversações de toda hora.

Reflitamos, pois, sobre o mundo que nos circunda e, na medida em que for possível, demos um testemunho que se oponha a esse desprezo generalizado do matrimônio. Temos de enfrentar a situação. Diz o Papa Francisco: “de modo algum, deve a Igreja renunciar a propor o ideal pleno do matrimônio, o projeto de Deus em toda a sua grandeza: É preciso encorajar os jovens batizados para não hesitarem perante a riqueza que o sacramento do matrimônio oferece aos seus projetos de amor, com a força do apoio que recebem da graça de Cristo e da possibilidade de participar plenamente na vida da Igreja.” (Amoris Laetitia, n. 307).

Pe. José Assis Pereira Soares

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