Homilia: Missa da Ceia do Senhor e Lava Pés

Com esta Santa Missa na Quinta-Feira Santa, chamada de Vespertina por fazer justiça àquele pôr-de-sol no qual Nosso Senhor Jesus Cristo ceou pela última vez com os Seus discípulos antes de Sua Páscoa Redentora, iniciamos o Sacro Tríduo Pascal. Acompanharemos, cautelosa e atentamente, a derrota do mal, do pecado e da morte pela Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor.

Creio que este dia de hoje poderia ser chamado de ‘magno dia dos dons’, onde Cristo abre, em íntima consonância com a Sua cruz, seus infinitos tesouros, a Sua herança de amor. Para tal ideia, valho-me das três instituições do Senhor como legado em prol de Sua Igreja: hoje, Nosso Senhor Jesus Cristo, deixa-nos o magnífico bem da Eucaristia pelo memorial antecipado em um primeiro momento pela Santa Ceia, e, perpetuado na história e na vida da Igreja pela Santa Missa e a partir dela; hoje, Jesus institui o Sacramento da Ordem Sacerdotal porque já concebia como desígnio eterno que para a perpetuação do mistério de Sua cruz pelo augustíssimo Sacramento do Altar, se submeteria livremente a homens que, por meio de palavras e atos sobre o pão e o vinho, transformariam o que era figuras em realidades mesmas de Deus, de Sua presença no seio da Igreja pelos séculos de maneira acessível; e, por fim, hoje, Jesus institui o mandamento do amor como serviço a Deus pelo próximo. Eis a grande herança, o grande testamento de Cristo aberto para nós nesta noite. Debruçar-nos-emos em cada um destes três dons, na tentativa de, a partir de uma alusão breve, tentarmos nos inserir ainda mais no que a Igreja nos oferece como uma recordação atual, porque, misticamente, pela Sagrada Liturgia somos arremetidos para o cenáculo de Jerusalém.

Primeiro ponto: “Hoje, Nosso Senhor Jesus Cristo, deixa-nos o magnífico bem da Eucaristia pelo memorial antecipado em um primeiro momento pela Santa Ceia, e, perpetuado na história e na vida da Igreja pela Santa Missa e a partir dela”. O Santo Padre Leão XIII, em sua Encíclica ‘Miræ Caritatis’, de 28 de maio de 1902, diz: “Na verdade, Cristo Senhor Nosso, ao terminar o curso desta vida mortal, sob o excesso de sua imensa caridade para com os homens, deixou este monumento e poderoso auxílio para ‘a vida do mundo’ (Jo 6,52)” (Miræ Caritatis, 1). Portanto, já vislumbramos qual era o vivo movimento do coração do Redentor ao nos presentear com o Santíssimo Sacramento: porque nos ama, Ele instituiu como sacramento a Sua presença real e operante no pão e no vinho, deixando, não uma memória distante, mas Ele mesmo em Seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade.

Comungando da Eucaristia, comungamo-Lo, recebemos no pão divino a Sua vida divina, pelo qual “o homem, com o auxílio da graça, é elevado ao consórcio da divindade e unido a Cristo intimamente” (Ibidem, 8). Ele vem a nós para amar-nos mais de perto, a partir do nosso coração, do nosso ser. “Esta é a diferença que existe entre o alimento do corpo e o da alma, que assim como aquele se converte em nós [nas substâncias fisiológicas componentes do nosso corpo], assim este [o alimento da alma] se converte em nós Nele” (Ibidem, 8). Santo Agostinho, em tom orante, tenta-nos esclarecer este movimento íntimo de amor que se dá em nós com Cristo pela Eucaristia: “Tu não me transformarás em ti, como se fosse o alimento de teu corpo, senão que tu te transformarás em mim”.

Segundo: “Hoje, Jesus institui o Sacramento da Ordem Sacerdotal porque já concebia como desígnio eterno que, para a perpetuação do mistério de Sua cruz pelo augustíssimo Sacramento do Altar, se submeteria livremente a homens que, por meio de palavras e atos sobre o pão e o vinho, transformariam o que era figuras em realidades mesmas de Deus, de Sua presença no seio da Igreja pelos séculos de maneira acessível”. À instituição do sacerdócio da Nova Lei, em vista – inclusive – da Eucaristia, o Concílio de Trento, no ano de 1563, declara em reafirmação convicta: “Como a Igreja Católica recebeu no Novo Testamento, por instituição do Senhor, o santo sacrifício visível da Eucaristia, é preciso confessar também que nela há um novo sacerdócio visível e externo, para o qual o antigo foi transferido [cf. Hb 7,12ss]. As sagradas Escrituras mostram e a tradição da Igreja Católica sempre ensinou que este sacerdócio foi instituído pelo próprio Senhor e Salvador nosso, e o poder de consagrar, oferecer e administrar seu corpo e sangue, bem como de perdoar e reter os pecados, foi transmitido aos Apóstolos e seus sucessores no sacerdócio” (Denziger, 1764).

São João Maria Vianney dizia, escancaradamente: “O Sacerdote é o amor do coração de Jesus”. O Santo Cura d’Ars não se enganava, pois tanto histórica quanto misticamente o sacerdote é dom do Coração de Cristo, desejoso em imolar-se no Sacrifício da Cruz único e perfeito; portanto, o sacerdote é dom do amor de Cristo.

Não se pode pensar a Eucaristia sem ter quem a ofereça, a imole. O Sacerdote (e somente) ele, em Cristo, é feitor de Eucaristia. E não é feitor num sentido empobrecido da palavra, de quem o faz indiscriminadamente. Não. É feitor porque com suas palavras e gestos traz-nos Cristo do céu e no-lo oferece ao Pai por nós e em nosso favor; traz-nos Cristo do céu e, simultaneamente, ao que oferece ao Pai, O entrega a nós.

E não somente relativo à Eucaristia como aos demais sacramentos: o Sacerdócio é instituído por Jesus para que a Igreja não ficasse órfã, desprovida das riquezas do céu, que nos filia a Deus, que nos perdoa, nos cura, nos robustece do Espírito, une corações que se amam. A Ordem Sacerdotal é um sacramento a serviço de outros.

E, como terceiro dom: “Hoje, Jesus institui o mandamento do amor como serviço a Deus pelo próximo”. São João, com um detalhe inédito dentre as demais narrativas – o Lava-Pés, parece estar dentro do Coração de Jesus. Por isso, tipicamente ao seu Evangelho, inicia o seu relato da Santa Ceia: “Era antes da festa da Páscoa. Jesus sabia que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai; tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Esse desejo de amar é tão presente no Senhor, que Ele não se comede: quer comunicá-lo imensamente aos Seus interlocutores. Mas, não se trata de uma comunicação descomprometida. Não. Quer que esta comunicação seja transformada em vida; seja levada adiante por uma prática que possui uma matriz: Deus; e um destinatário: Deus; porém com um meio, uma via: o próximo, o irmão. Por isso que Jesus ama até o fim. Não o fim da cruz apenas. Entretanto, entendamos este fim como Deus, princípio e fim do amor extremo de Jesus, e também deveria ser do nosso amor.

Jesus “levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura” (Jo 13,4). Este movimento do Senhor faz-me pensar no abaixamento de Jesus quando, segundo São Paulo, “sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,6-8). Conjugando o recorte de São João com o de São Paulo, podemos afirmar: Cristo, pela humilhação da Encarnação, toma a nossa história: daí, Ele retirar o Seu manto, símbolo de Sua divindade, porque inspira-nos mistério, mistério que cerca, que envolve Deus; veste-se de uma toalha, de um avental, significando a humildade, a baixeza da condição humana. E não somente isso, o Senhor inclina-se, abaixa-se na estatura física para conotar o seu abaixamento real, extremamente inaudito, de Sua cruz salvadora. Por que tudo isso? Para que tendo parte com Ele (cf. Jo 13,8), pudéssemos, pela via do amor, sermos erguidos à parte de Deus, pela limpeza de nossa vida, representada pela purificação dos pés.

Jesus poderia ter deixado esse gesto aparentemente estéril. Ele vai além, deixando-nos um desafio: “Vós me chamais de Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou. Portanto, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (Jo 13,13-15). Ele se vale do magistério de sua atitude como se dissesse ‘eu sou o exemplo’ ou ‘eu fiz para ensinar como é’. Num primeiro momento, ele coloca a pedagogia sobre o ordenamento. Entretanto, Ele inverte a posição das coisas: institui, manda que façamos. Por tal motivo, na sentença do que quer, Jesus se vale da autoridade como um recurso e nos ordena amar: “Eu, Senhor e Mestre”. Não um amor ao nosso modo, mas com o Dele, à Sua medida. Mas amar para que? Para que o mundo, o próximo, o outro, o irmão tenha vida, e, juntos com Jesus, reinemos no Seu Reino de amor. É isto o que nos ordena o Senhor. É esta a finalidade do amar.

Eucaristia, Sacerdócio, Amor. Quem pensar que estes três dons oferecidos hoje à Igreja são independentes entre si, está totalmente enganado. E não estão interligados porque foram instituídos pela mesma Pessoa divina neste dia de hoje. Não. Mas, cada uma destas três realidades aponta-se mutuamente. Não se pode pensar a Eucaristia e o Sacerdócio sem o amor oblação que dignifica a todos, como um serviço de caridade à humanidade. O poder sacerdotal possui como potência o amor. A Eucaristia é sacramento de amor. O amor é alimentado pela Eucaristia e orientado pelo Sacerdócio como modelo sacrifical. E, juntamente com estas, tantas outras realidades que destas três instituições dimanam.

Faço sinceros votos de que o grande mistério de amor hoje celebrado – e a partir de hoje por todo o Sacro Tríduo Pascal – nos preencha grandemente para podermos colher com largueza dos bens que os céus nos oferecem. Amém.
Dom Dulcênio Fontes de Matos, Bispo de Campina Grande. Em 29 de março de 2018.

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