Chamados a ser felizes

A Igreja no Brasil celebra neste Domingo a solenidade litúrgica de Todos os Santos. Nesta festa recordamos essa “multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar” (cf. Ap 7,2-4.9-14) que gozam já da presença de Deus no céu, ainda que não tenham um espaço em nosso santoral litúrgico.

Hoje recordamos todos os cristãos que podem descobrir e viver nos aspectos da vida diária a santidade. Muitas pessoas queridas, familiares e amigos, que “veem a Deus tal como Ele é” (cf. 1Jo 3,1-3). Assim nos recordamos uns aos outros que essa é nossa meta, nos encontrar com Deus face a face, isto é, ver Deus e gozar de sua presença por toda a eternidade.

Às vezes isso de ser santo se nos parece um pouco distante, porque nos vemos muito limitados, porque os santos que conhecemos através da história e lendas são como seres de outro mundo. Mas a santidade é um projeto que está ao nosso alcance, senão Deus não nos proporia como meta. Ele nunca nos pedirá nada que não possamos fazer, que seja superior a nossas forças. E mais, nos dá forças necessárias para que possamos levá-lo a bom termo. Ele sabe de nossas capacidades e confia em nós, inclusive às vezes, mais que nós mesmos.

Estamos em tempos nos quais diariamente os meios de comunicação estão nos apresentando figuras de homens e mulheres que, ao invés dos santos e santas, se deixaram pegar pela corrupção, pelo afã de ter dinheiro e poder, pelo egoísmo, pelo desprezo à gente mais fraca, pela apropriação do bem público, pela mentira, pela aparência, pelo vazio pessoal, pela desumanização em uma palavra. Estes não são um modelo e uma referência a seguir. Mas sim o são aquelas pessoas que deram testemunho dos valores de Jesus, as bem-aventuranças em sua vida privada ou pública: não tiveram amarrado o coração nem ao dinheiro nem às coisas, foram amáveis com os outros, se preocuparam com todo aquele que sofria, trabalharam para que na vida de cada dia sejamos um pouco mais irmãos e compartilhamos todas as coisas, prestaram ajuda aos outros, cultivaram no silêncio um coração nobre e honrado, trabalharam por construir a justiça e a paz. Possivelmente estas pessoas não foram muitas vezes bem entendidas e ás vezes até criticadas, mas não havia nenhuma ambição pessoal em sua conduta senão que agiram assim porque foram conscientes de seu batismo se sentiram como Jesus, filhas e filhos de Deus e irmãos de todos.

O Papa Francisco na Exortação Apostólica “Gaudete et Exsultate” (Alegrai-vos e exultai),  sobre a vocação à santidade no mundo contemporâneo propõe o modelo cristão de felicidade como alternativa ao consumismo, e à indiferença face ao outro: “Se não cultivarmos uma certa austeridade, se não lutarmos contra esta febre que a sociedade de consumo nos impõe para nos vender coisas, acabamos por nos transformar em pobres insatisfeitos que tudo querem ter e provar” […] “O Senhor pede tudo e, em troca, oferece a vida verdadeira, a felicidade para a qual fomos criados. Quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa”.

O Papa apresenta nesta exortação não um tratado sobre a santidade, com muitas definições, mas uma maneira de “fazer ressoar mais uma vez o chamado à santidade”, indicando “os seus riscos, desafios e oportunidades”.

O caminho da santidade é o mesmo da felicidade. Foi esta a estrada percorrida por Jesus, aliás, Ele mesmo é este Caminho: quem percorre com Ele e passa através dele, entra na vida, na vida eterna como nos mostra o evangelho das bem-aventuranças (cf. Mt 5,1-12).

Esforçamo-nos arduamente ao longo de nossa vida para alcançar a felicidade. Jesus sinalizou o autêntico caminho que conduz a ela. São as nove propostas: “Bem-aventurados os pobres em espírito, […] os humildes, […] os que choram, […] os que têm fome e sede de justiça, […] os misericordiosos, […] os puros de coração, […], os que promovem a paz, […] os que sofrem perseguição por amor da justiça, […] Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos céus a vossa recompensa”.

Frente à felicidade artificial e incompleta que o mundo oferece, Jesus nos propõe um ideal de vida que, como todo ideal, é humanamente inalcançável em sua totalidade. Jesus inverte a ordem de valores deste mundo. Por isso sua mensagem é revolucionária. Muitas vezes se tem querido deformar ou ocultar a exigência radical do Evangelho. Mas suas palavras são claras, não há duvida de que quem quer segui-lo, terá que caminhar, por assim dizer, na contramão, por defender valores evangélicos que contrastam com os valores do mundo. Porém o cristão deve ser consequente e afrontar o risco que supõe seguir a Jesus de Nazaré.

“As bem-aventuranças são como que uma biografia interior oculta de Jesus, um retrato da sua figura. Nas bem-aventuranças aparece o mistério do próprio Cristo, chamando-nos à comunhão com Ele” (Bento XVI). Quando Ele propunha o programa das bem-aventuranças nos estava mostrando o que fez por nós: foi pobre de espírito, isto é, uma atitude interior de humildade e obediência diante do Pai, chorou por seu amigo Lázaro e por Jerusalém, sofreu como cordeiro levado ao matadouro, teve fome e sede de justiça e não duvidou em proclamá-la, praticou a misericórdia e o perdão, foi limpo de coração, trabalhou pela paz e foi perseguido pelos poderosos deste mundo por causa de haver defendido a justiça.

Chamamos a atenção para a motivação da felicidade em cada uma das bem-aventuranças: porque a felicidade não está na pobreza, na aflição, na perseguição, mas no seguimento de Jesus, pobre, aflito, manso, faminto e sedento, misericordioso, puro, pacificador, perseguido, o que dá direito ao gozo das promessas de Cristo.

As bem-aventuranças têm um caráter universal, isto é, são dirigidas a todas as pessoas e em todos os tempos, não apenas aos ouvintes imediatos de Jesus nos atesta isto as palavras de Gandhi: “foi o discurso da montanha que me reconciliou com o cristianismo”. As bem-aventuranças condensam a novidade revolucionária do Evangelho. Elas não são a expressão de qualquer espécie de ressentimento dos pobres em face dos poderosos, dos ricos, mas é antes um grito de protesto e de provocação lançado ao conceito de felicidade baseada na riqueza, nos prazeres, na força, no poder e na fama. De modo nenhum elas são uma ética para uso dos fracos, mas é um ideal de vida, uma ética que, quando vivida a sério, é capaz de renovar as pessoas e a sociedade, como demonstra a vida dos santos.

Não há duvida de que quem quiser seguir Jesus tem que estar disposto a viver de outra maneira. Mas tem a segurança de que vai ser feliz. Nos criticarão, se meterão conosco, seremos rejeitados, viveremos na contramão, porém estaremos alegres porque estamos no caminho do Reino. Pode ser que nos faltem as forças, pode ser que não cheguemos a viver plenamente o ideal das bem-aventuranças, mas não deve assaltar-nos nunca o desanimo nem a desesperança, pois um dia chegaremos à Pátria celestial.

Pe. José Assis Pereira Soares

 

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